A tragédia de Elena e sua família

por: Lucio in the sky – blog Lucio in the sky – 8/7/2013

Soube do documentário, Elena –em cartaz na cidade já algumas semanas, para variar, em uma única sala de cinema com horário desgraçadamente ingrato – a partir do entusiasmo do escritor Marcelo Rubens Paiva, que teceu elogios emocionados sobre o filme num texto que escreveu não sei onde. Até então, não sabia nada sobre o projeto dirigido por Petra Costa que foi, inclusive, premiado no Festival de Brasília em quatro categorias: Direção, Montagem, Direção de Arte e Júri Popular. Ando, confesso, meio desleixado ultimamente…

… Mas enfim, outro dia fui conferir a fita ali no CasaPark e saí com a alma em frangalhos, querendo partir desse mundo de qualquer jeito. Só não fui porque sou fraco e minhas raízes nesse lugar de mediocridade e imundice humana são profundas. Na história, a jovem diretora, num espasmo confessional, narra a trajetória de sua irmã Elena, uma dedicada atriz e dançarina que se suicidou no final dos anos 80, em Nova York, angustiada e massacrada pela opressão do sistema, do meio em que vivia.

Ali estava ela, linda com seu sorriso largo e sincero, na Big Apple seguindo os passos da mãe que um dia deixou o Brasil da repressão militar, alimentando o sonho de ser atriz de cinema na América. Expectativas frustradas, ansiedade sufocante levaram Elena ao desfecho bizarro e é dessa saudade marcada pela dor, impotência diante do irreversível e certo desconforto familiar que a diretora Petra Costa constrói uma narrativa poética e intimista em torno da saudade, da falta de um ente querido, da incompreensão de um ato tão brutal.

“Sete anos é a pior idade”, lembra a diretora das palavras da irmã 13 anos mais velha, ao se despedir dela antes de partir para a América. “Quando você sentir saudade, encoste a concha no seu ouvido e assim a gente pode se falar”, explicou a primogênita protetora, demarcando o signo da distância entre as duas almas fraternas.

Imagens de família em Super 8, desenhos marcados por traços simbolicamente bizarros, quadros sensoriais na parede, encontros furtivos com celebridades e pessoas comuns, fragmentos de histórias complexas e pessoais aqui e acolá ajudam a montar essa intricada colcha de retalhos de uma família marcada pela tragédia.

“A culpa é a cabeça pegando fogo”, admite a mãe hoje, uma sombra de angústia e sofrimento pessoal.

Escrito com uma verdade visceral incômoda, Elena é o expurgo em praça pública de duas mulheres, mãe e filha, mas há muita poesia e sinceridade nesse diário aberto de uma vida inteira. A cena final é de um lirismo comovente e, ao ouvir a sintomática canção do The Mamas & The Papas, Dream a little dream of me, não consegui segurar as lágrimas no escurinho do cinema. Só faltou o drops de anil, cor cinza desespero.

De longe um dos mais emocionantes documentários que já vi nos últimos tempos, simples assim.

* Este texto foi escrito ao som de: 16 of their greatest hits (The Mamas & The Papas – 1969)

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