Mortalha Reflorida

Ricardo Daehn, no suplemento Divirta-se do Correio Braziliense – 17/5/2013

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Vencedor de quatro prêmios Candango, no Festival de Brasília, o documentário Elena chega ao cinema contando a dolorosa, mas enlevada, história de vida da diretora mineira Petra Costa.

Sem concorrentes à altura, o documentário Elena paira como a obra mais original e estimulante do ano passado, entre as fitas nacionais. No centro da trama, existe uma dualidade — de pessoas que se completam — apta a dialogar com Persona (clássico de Ingmar Bergman). A lembrança do sueco se torna oportuna, diante da gradação emocional do longa de Petra Costa: num jogo intenso, a própria diretora contracena com a irmã (aspirante à atriz), em densa realidade amorosa. Suaves, os gênios de ambas se combinam, mesclando desespero, dores clandestinas, solidão e um entusiasmo, às vias de definhar, mas com cadência palpitante.

Separadas por 13 anos de existência, as irmãs já não contam com o escudo maternal, e compactuam de uma sensibilidade à flor da pele, inevitavelmente, presente na mãe, a jornalista Li An. Elena pavimenta uma trilha trágica para a família, inicialmente, embalada no modelo de “um comercial americano dos anos 50”. Algo porém desvirtua para o “choro grande” reclamado por Elena. No relato íntimo desfiado por Petra, essa exasperação da irmã vem talhada para ferir os “sentimentos” da diretora, dona de várias imagens e materiais de arquivo.

Em Nova York, no treinamento para ser atriz (“Arte, pra mim, é tudo”, define), Elena crava a raiz de sonhos e desejos. É um “querer pequeno” a ser explorado, sem sensacionalismo, e com anos de distância, por Petra. Confusões internas, olhares tristes, negações e mecanismos de defesa integram as irmãs, que perambulam pelas ruas estrangeiras. “Gorda e vazia”, no passado, Elena é refletida em espelho estilhaçado de esperanças projetadas em futuro de Petra. Tudo converge para uma dor concreta, na qual a diretora confessa à irmã: “Começo a me perder em você”.

O intermitente sofrimento de uma família ganha uma moldura sazonal, nas telas, respeitada pela magnífica montagem de Tina Baz e Marília Moraes. Por fim, delicada ao lidar com adversidades emocionais, Petra se mostra madura, assinando um documentário que embevece, pela singular textura, e por alcançar, com arrebatadora vibração, o campo da memória. Dialoga com Clarice Lispector, na veia.

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