O real em forma de “thriller” para eletrizar plateias

Rodrigo Fonseca, no jornal O Globo – 22/5/2012

A tendência da vez entre os documentários brasileiros é o diálogo com o suspense,

Entre as várias tendências apontadas pelo novo documentário brasileiro, começa a crescer nas telas uma vertente que a ficção nacional pouco explora: o thriller. Nos últimos dez anos, chegaram às telas filmes documentais calcados em procedimentos investigativos como “33”(2002), de Kiko Goifman, ou “Hércules 56”(2006), de Silvio Da-Rin, tendo sua narrativa pautada pela tensão, com procedimentos similares aos empregados por ficcionistas como Costa-Gravas, mestre do filão. Agora, três novas produções, já engatilhadas para circular este ano por grandes festivais do país, seguem essa linha, comum a documentaristas americanos como Errol Morris e Charles Ferguson: “Elena”, de Petra Costa, “Serra Pelada”, Victor Lopes, e “Dossiê Jango”, de Paulo Henrique Fontenelle.

Mergulhando em traumas

Embora “Elena” vá pela linha do afeto e os outros dois, pela trilha da denúncia, os três têm em comum o esforço de eletrizar a plateia ao explorar os traumas de seus personagens.

O documentário está tendo cada vez mais visibilidade. E isso facilita a abordagem de temas que, por questões financeiras ou interesses de mercado, os filmes de ficção não têm tido vontade de tratar – diz Fontenelle.

Realizador do premiado “Loki – Arnaldo Baptista” (2008), Fontenelle revisita em “Dossiê Jango” (título provisório) o período em que o ex-presidente João Goulart (1919-1976) viveu no exílio, abordando as suspeitas relacionadas à sua morte, na Argentina, incluindo hipóteses de assassinato. Os bastidores da vida de Jango são narrados em tintas de teoria conspiratória.

O corpo de Jango foi enterrado imediatamente, sem autópsia. Todo seu trajeto até o túmulo foi acompanhado pelo Serviço Nacional de Inteligência. Os oficiais que permitiram a entrada do corpo em território brasileiro foram todos punidos. E quem assinou sua certidão de óbito foi um pediatra – diz Fontenelle, que inscreveu o filme, produzido pelo Canal Brasil, para concorrer na Première Brasil do Festival do Rio (27 de setembro a 11 de outubro). Assim como Costa-Gravas fez em “Estado de sítio”, falando da América Latina, tentamos trazer à tona uma outra versão que contesta a História oficial no continente.

Também na corrida para disputar o troféu Redentor de melhor documentário da Première Brasil, “Serra Pelada” fala de conspirações na corrida do outro no Norte do país. No longa, Victor Lopes, diretor de “As aventuras de Agamenon, o repórter”, revê a trajetória de violência que cercou um dos maiores garimpos do mundo.

No caso de Serra Pelada, esse pequeno vilarejo no sul do Pará é o único lugar do Brasil que sofreu intervenções militares de todos os governos, de Figueiredo a Lula. A isso se mistura uma disputa de demarcação de terras com empresas, confrontos fundiários, além do suspense da busca do ouro que está no filme –diz Lopes.

Indicado para concorrer ao troféu Candango no 45 Festival de Brasília (17 a 24 de setembro), “Elena é uma espécie de thriller documental afetivo que acompanha os esforços de sua realizadora, Petra Costa, para encontrar o paradeiro da irmã em Nova York.

Meu desejo era criar um filme em que o espectador pudesse viver o trauma, sentir empatia, compartilhar as emoções das personagens. A tensão não teve que ser manipulada, pois ela já estava presente em todos os aspectos dessa história pessoal – diz Petra. O filme tem certos aspectos em thriller psicológico, já que a maior parte de sua descoberta se dá na psique das personagens.

Críticos apontam “Wilsinho Galileia” (1978), de João Batista de Andrade, como possível precursor do uso de ferramentas de thriller em documentários. Entre os longas recentes, o mais citado é “Diário de uma busca” (2010), em que Flávia Castro investiga o passado de seu pai, morto em circunstâncias misteriosas.

Na montagem, eu queria muito o clima de suspense. Pensei em chamar um escritor de policiais para me ajudar – diz a diretora.

Inédito nas telas desde 2009, quando ganhou o Kikito de melhor filme no Festival de Gramado, “Corumbiara”, de Vincent Carelli, sobre um massacre de índios em Rondônia, ganha uma versão em DVD em setembro. O longa flerta com o estilo de thrillers sobre extermínios.

O suspense, a tensão e o medo são inerentes ao processo de investigação de um crime de genocídio perpetuado por poderosos numa região sem lei – diz Carelli. Na calada da mata tudo pode acontecer. (Rodrigo Fonseca)

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