De volta à sala escura

por: Zeca Camargoblog do G1 – 13/5/2013

Feito certamente com o orçamento de um dos créditos de “Homem de ferro 3” (aliás, fique até o final de “H3”, pois vale a pena ver esses créditos), “Elena” divide uma peculiaridade com o blockbuster: ambos os filmes começam com uma voz em off dizendo algo enigmático. Mas enquanto o solilóquio de Tony Stark não te prepara em nada para o que vem a seguir (ou, se prepara, é num plano muito, hum, abstrato), o que ouvimos na voz da própria diretora, Petra, é a chave para nos envolvermos com Elena, sua irmã mais velha, que se suicidou em Nova York em 1º de dezembro de 1990. Não, não estou entregando um “spoiler”. “Elena” é um filme biográfico, a história da própria fascinação da diretora com a trajetória da sua irmã – e por isso, o “segredo” do suicídio, se não fica claro nos momentos iniciais, logo é revelado ao longo do filme, que aborda questões que vão muito além desse acontecimento.

De cara, “Elena” me lembrou um outro documentário muito pouco visto e bastante celebrado chamado “Tarnation”. Em 2004, Jonathan Caouette criou frisson no Festival de Sundance com uma colagem sobre sua própria vida, que custou declaradamente US$ 218 (cerca de R$ 440,00!). Feito com um programa de iMovie e horas de arquivo pessoal – de filmes super 8 a fotos antigas, mais vários vídeos caseiros –, “Tarnation” é um trabalho emocionante. Tenho esse DVD na “estante de honra” da minha coleção – e recentemente vi, com prazer, que ele foi incluído na lista da “New York Magazine” dos 20 documentários “essenciais” do século 21. E tenho certeza de que “Tarnation” influenciou toda uma geração – essa de agora – que está começando a fazer cinema.

“Elena”, depois de um breve prólogo pelas ruas de Nova York, embarca pela mesma vertente, recuperando um filme amador que a mãe da diretora (e de sua irmã Elena) tinha feito na juventude, e enveredando pelas múltiplas performances de Elena para a câmera ao longo de sua infância e adolescência. Petra nasceu quando Elena tinha 13 anos – e já tinha sérias aspirações à carreira artística. A irmã mais velha imediatamente recruta a mais nova como “atriz coadjuvante” em uma nova temporada de registros, que são generosamente apresentados no filme.

Quando o ritmo de “Elena” ameaça ralentar perigosamente, Elena dá um salto ousado na carreira e muda-se para Nova York. A decepção com inúmeros testes de elenco infrutíferos acaba sendo proporcional à ambição – e Elena volta para casa (em Belo Horizonte) com sinais visíveis de que não está bem. (Um vídeo gravado com Petra e outras crianças comendo biscoitos e balas mostra uma Elena tão angustiada que é quase possível ler seu futuro naquele momento – esse é, na minha opinião, o arquivo mais forte de todo o filme). Mas surge uma oportunidade de ela voltar para lá – uma vaga na universidade – e dessa vez ela vai com a mãe e a irmã mais nova. Mas nada dá certo…

“Elena” vale a pena ser visto também pelos detalhes dessa tragédia pessoal – e por isso vou economizar aqui na minha descrição do filme. O que eu me vi perguntando, quando o suicídio finalmente acontece, é se aquela história transcendia o nível pessoal – que interessa só a Petra e sua família – a ponto de alcançar um público maior. Felizmente a resposta é sim. Mesmo sem ter ideia do que eu iria ver, fiquei hipnotizado pelo filme – a ponto de, a certa altura, me perguntar se era mesmo um documentário ou um desses “falsomentários”, ou “pseudo falsomentários” (onde isso vai parar?), tipo “Catfish”. (Sem saber da história real, cheguei a desconfiar que a mãe de Elena era uma atriz!).

Ninguém é capaz de sentir o impacto de um suicídio dentro da família como a própria família, claro. Mas Petra consegue sim contar uma história pessoal com um apelo universal – e faz isso com uma coleção de imagens documentais impactantes (as danças de Elisa, seu retorno a BH) ao lado de cenas originais e belas (as mulheres flutuando em diáfanos vestidos). Fiz a brincadeira com os orçamentos de “H3” e “Elena” – e o mesmo pode ser dito com relação à bilheteria: a do segundo será apenas uma fração bem pequena do primeiro. Mas se para ver Robert Downey Jr. você nem pensa suas vezes, se por acaso você hesitar para comprar um ingresso para assistir a “Elena”, vá em frente.

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