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(41 artigos)
23 DE MARÇO DE 2014

Uma história sobre amor e arte

Não é apenas uma história sobre o amor fraternal, ou memória, ou sobre melancolia, é uma história sobre amor e arte.

Quem é Elena?

Assista agora: Quem é Elena?

0 visualizações no YouTube! Wagner Moura, Fernando Alves Pinto, Letícia Sabatella, Rafael Cortez, Júlia Lemmertz, Alexandre Borges e Leticia Persiles se perguntam quem é ela. Você não ia querer conhecer Elena... ou ia?

Trailer oficial

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publicado em 8/10/2013
Última chamada

Por Larissa MacFarquhar – The New Yorker – 24 de junho de 2013

De quando em quando, Ittetsu Nemoto reúne um grupo de pessoas suicidas para visitar locais de suicídio populares, que são muitos no Japão. O mais conhecido é a Floresta Aokigahara, o Mar de Árvores, na base do Monte Fuji. A floresta ficou associada ao suicídio nos anos 60, após a publicação de dois romances de Seicho Matsumoto, e ainda mais, depois de Wataru Tsurumi, na obra “Manual Completo de Suicídio”,  declarar ser este o local perfeito para morrer. Devido à densidade das árvores que bloqueia o vento e a escassez de animais e pássaros, a floresta é estranhamente silenciosa. O Mar de Árvores é grande, 35km², e por isso os corpos levam tempo para serem descobertos; os turistas fotografam os cadáveres e procuram por pertences deixados para trás. Outro local comum para suicídios é o penhasco de Tojimbo, com vista para o Mar do Japão. Visitar o lugar acaba sendo muito diferente do que se imagina. A vista do mar do topo do penhasco pode ser terrível.

Outras vezes, Nemoto, um monge budista, faz oficinas sobre a morte para os suicidas no seu templo. Pede aos participantes que imaginem que foram diagnosticados com câncer e que têm três meses para viver. Pede que escrevam o que querem fazer nestes três meses. Em seguida, pede que imaginem que têm um mês de vida; depois uma semana; depois dez minutos. Quase todos começam a chorar no decorrer do exercício, Nemoto entre eles.

Um homem que participou da oficina vinha há tempo falando com Nemoto em querer morrer. Tinha 38 anos e nos últimos dez anos fora internado várias vezes num hospital psiquiátrico. Na hora do exercício de escrita, ele ficou ali parado e chorando. Quando Nemoto veio ver como andava, viu um papel em branco. O homem explicou que não tinha nada a dizer quanto às perguntas pois nunca tinha pensado a respeito. Tudo o que havia pensado era em querer morrer; nunca no que fazer com a vida. Mas não tendo nunca realmente vivido, como poderia pensar em querer morrer? Este insight foi curiosamente libertador. O homem voltou ao trabalho de maquinista numa fábrica. Antes, era tão adverso à companhia humana que só conseguia funcionar dentro de certas capacidades limitadas, mas agora conseguia falar com as pessoas e foi promovido.

Às vezes Nemoto pede aos participantes que coloquem um pano branco sobre a face, como é de costume com os mortos no Japão, enquanto conduz um velório. Depois, pede a cada um que carregue uma vela acesa morro acima atrás do templo e imagine estar entrando no mundo dos mortos. Este exercício, por motivos que ele desconhece, tende a produzir não lágrimas mas uma estranha euforia, como se a pessoa estivesse experimentando um renascimento.

No passado, Nemoto organizava passeios cuja função era fazer com que os hikikomori – que se isolam da sociedade, alguns mal deixando os quartos por anos – saíssem de casa. (Há centenas de milhares de hikikomori no Japão, em geral homens jovens; jogam videogames, navegam pela web e se alimentam das refeições trazidas nas bandejas pelos pais.) Organizou passeios de camping e noitadas de karaokê;  realizou sessões de fazer sopa e passou noites inteiras conversando. Mas, em geral, estas saídas não foram satisfatórias. Os hikikomari eram fóbicos, e os suicidas desorganizados; não havia como saber se apareceriam.

Nemoto acredita em confrontar a morte; ele acredita em cultivar uma profunda percepção do funcionamento e da fragilidade do corpo; e ele acredita em sofrer, porque mostra quem você realmente é. Quando perguntado se acredita que pessoas felizes são mais superficiais do que as que sofrem, primeiro ele diz que não existem tais pessoas, e então pensa mais um pouco e diz que sua mulher é uma delas. Ela é menos profunda em consequência da sua serenidade? Sim, ele diz, talvez seja.

E-mail a Nemoto:

Data: 08/10/2009

Já que tive de parar de pagar a minha conta de celular há um tempo, meu serviço de celular vai ser cortado amanhã, então por favor me responda o mais rápido possível. Somos um casal… que está no momento morando no nosso carro. Morávamos na área H…. mas devido a não mais achar emprego ali, fomos a N… Procuramos emprego… enquanto catávamos latas, mas nossos pedidos eram sempre rejeitados porque não somos do local… Aos poucos começamos a sentir que queríamos morrer. Tentamos nos enforcar com cinto, acabamos por desapertar quando ficou doloroso demais. Também tentamos tomar muito remédio para resfriado de uma só vez, mas acabamos por acordar depois de um tempo, então não conseguimos nem mesmo morrer. Isso dito, não é que a gente queira mesmo morrer. Nosso desejo é de alguma forma arrumar um emprego. Assim sendo, estamos realmente indecisos, e não conseguimos uma saída sozinhos.

O Japão é famoso pelo suicídio. Parte desta reputação se deve às mortes espetaculares dos pilotos kamikaze durante a Segunda Guerra Mundial, parte ao horrível e anacrônico sepukku do escritor Yukio Mishima, em 1970.  Seppuku – o cortar do estômago com um punhal da esquerda para a direita– é a forma de suicídio pela qual o Japão é conhecido. O aparente motivo do suicídio de Mishima foi a sua incapacidade de promover um golpe militar, mas ele já vinha imaginando seu fim por um bom tempo. “A coisa que no final salva a carne de ser ridícula é o elemento da morte”, ele escreveu. “Que cômico acharíamos a jovialidade e elegância do toureiro se sua ocupação fosse totalmente divorciada de associações com a morte!”

(foto de Nemoto legenda:  Ittetsu Nemoto perto de seu templo, na provínca de Gifu. A taxa de suicídio no Japão é quase o dobro da taxa nos Estados Unidos)

Um alto índice de suicídio é geralmente visto como sinal de uma profunda doença nacional: quando a depressão leva ao suicídio, cessa de ser psiquiátrica e se torna antropológica.  Então qual o problema no Japão? É verdade que ali nunca houve proibição religiosa contra o suicídio, como no Ocidente – nenhuma ideia de que tirar a própria vida é rejeitar a graça de Deus, ou se apoderar do poder que só cabe a Deus. Pela tradição, o suicídio pode absolver a culpa e cancelar a dívida, pode restaurar a honra e provar a lealdade. “Os herdeiros de Caim nunca podem escapar aos olhos de Deus, muito menos na vida depois desta”, escreveu Maurice Pinguet no seu estudo “A Morte Voluntária no Japão”. “Mas no Japão você pode se esconder na morte, desaparecer dentro dela inteiramente e remediar a culpa ao partir”.  No Japão, o suicídio pode ser um gesto de integridade moral e de liberdade, ou um ato de beleza. Quando o escritor Eto Jun se matou em 1999, ele foi louvado por intelectuais, e foi dito que seu ato demonstrava “estética de primeira linha”.  Quando um ministro do governo sob investigação por desvio de dinheiro se matou, em 2007, o governador de Tóquio chamou-o de verdadeiro samurai por preservar a sua honra. Quando o antropólogo Junko Kitanaka estava pesquisando a depressão no Japão na década passada, muitos psiquiatras lhe disseram que uma pessoa sem distúrbio mental tem o direito de escolher a sua própria morte, e que ninguém tinha o direito de se intrometer nesta pesada e pessoal decisão humana.

A taxa de suicídio no Japão é quase o dobro da taxa nos Estados Unidos. De 1998 a 2011, houve mais de trinta mil suicídios por ano- quase um a cada quinze minutos. Verdade, foi um período de dificuldade econômica, mas a Grécia está numa situação econômica bem pior, e a taxa de suicídio dos gregos é um sexto da de Japão. As pessoas pulam nas trilhas dos metrôs em Tóquio tão frequentemente que quando um trem para entre estações muitos passageiros já presumem que o motivo seja um suicídio. Várias pessoas andando nas ruas morreram por ser atingidas por pessoas pulando de prédios. Pais suicidas têm matado os filhos, para não abandoná-los à vida de órfãos; dentro da tradição, a mãe que se mata mas não aos filhos era considerada realmente cruel.

Assim é a teoria cultural do suicídio no Japão. Mas ao longo dos últimos cem anos a taxa de suicídio no Japão tem sido semelhante à da maioria dos países do Ocidente. As últimas estatísticas mostram que a Groenlândia é o país mais suicida no mundo, por uma margem surpreendente – os groenlandeses se matam três vezes mais do que os próximos povos mais suicidas, os lituanos e coreanos do sul. O Japão está em nono lugar, atrás de Guiana, Cazaquistão, Bielorrússia, China e Eslovênia, e empatado com a Hungria. A Suécia, notória pelos invernos escuros e almas sombrias, tipicamente se posiciona nos baixos trinta, mais ou menos igual aos Estados Unidos. Além do mais, as taxas de suicídio mudam muito em todos os lugares através dos tempos. Diminuem durante a guerra e sobem novamente depois da guerra. Nos anos 50, o suicídio no Japão atingiu um pico, mas depois o índice diminuiu. Nos anos 1990, subiu novamente, supostamente devido ao estresse econômico. Algumas pessoas trabalharam tão duro que morreram disso. Outras se mataram porque não conseguiam arrumar emprego.

Tem ocorrido enormes mudanças, mapeadas ao longo de décadas, mas em geral a diferença entre a morte e a vida depende da diferença entre as duas e as quatro horas –  de pequenos ajustes de infraestrutura e quase imperceptíveis mudanças na situação. Uma pessoa suicida que encontra a ponte pela qual partiria bloqueada em geral não procura outra ponte; ela volta para casa.  Alguns metrôs de Tóquio instalaram luzes azuis brilhantes nas suas plataformas para previnir suicídios, o que, curiosamente, tem se mostrado bastante eficaz. Alguns anos atrás, um grupo de prevenção do suicídio, Lifelink, realizou uma análise pormenorizada do suicídio no Japão: era necessário fazer estratégias de prevenção mais precisas, acreditava Lifelink – para saber exatamente quem estava cometendo suicídio, em quais ruas, em quais prédios, por quais métodos, e durante quais horários do dia, como se juntando fatores suficientes fosse possível quase mesmo pegar alguém no ato. O lar foi o local mais comum do suicídio, seguido por prédios altos e massas de água.  O maior número de suicídios eram cometidos nas segundas-feiras, seguidos por domingos e terças-feiras. Mulheres suicidas mostraram-se suscetíveis a se matar entre o meio-dia e as duas da tarde, mas dificilmente entre as duas e as quatro.

Data: 05/07/08

Perdoe-me minha rudeza em lhe enviar um e-mail sem mais nem menos. Meu nome é T…. Vi seu blog na Internet, e estou escrevendo este e-mail, na esperança de que você possa me dar algum conselho sobre minha situação atual. Depois que me formei na universidade, estava estudando para o exame da ordem dos advogados para me tornar advogado, sendo sustentado por meus pais. Porém, mesmo tendo tentado seis vezes, não consegui passar… Fui diagnosticado com “depressão” de tanto estresse e trabalho, e assim estou em regime de licença. Como resultado, tudo que me resta são as dívidas de empréstimos de estudante.

Percebi os limites dos meus talentos, então decidi desistir de ser advogado, e comecei a procurar um emprego. Porém, tendo mais de trinta anos, e por só ter trabalhado meio período até agora, é muito difícil achar um emprego. Me perdi, e não tenho ideia sequer do que quero fazer, ou em que direção devo ir. Comecei a ser um hikikomori… e agora não consigo sair a não ser para ver meu psicoterapeuta uma vez por semana. Entendo que estou nesta situação sem saída por culpa minha, e que eu mesmo tenho que resolver o problema.  Porém, sou uma pessoa fraca, dependente, que foi sustentada pelos pais até atingir os trinta anos, então sou fraco demais para encontrar uma saída desta situação sozinho… Recentemente comecei a imaginar o suicídio. Porém, se esta situação continuar, tenho medo de perder o controle por algum motivo e realmente me matar.

Esta é a situação em que estou. Desculpe este meu falar sem parar, incoerente. Sinto que estou numa situação sem saída e não há mais o que fazer… Espero que possa me dar algum conselho se tiver tempo. Desculpe pedir isto de você pois é tão ocupado, mas por favor, me ajude.

Quando Nemoto era criança, um tio de quem ele se sentia muito próximo, cometeu suicídio. Quando cursava o ensino médio, nos anos 80, uma amiga do ensino médio se suicidou. Ele foi ao seu funeral e olhando o corpo dela no caixão, viu que a boca tinha sido costurada para esconder a língua, que sairia para fora, porque ela havia se enforcado. Alguns anos depois, ficou sabendo que outra amiga tinha se matado, uma jovem que fazia parte com ele de uma banda no ensino médio. Foi ao seu funeral, e o achou ainda mais perturbador do que o anterior: a menina não só tinha se enforcado, mas tinha parado de comer, também, e seu corpo chocava de tão emaciado.

Quando jovem, bebia e entrava em brigas com garotos de outras escolas. No ensino médio, lia Nietzsche todo dia; gostava da força e poder da escrita. Depois de se formar, fez alguns cursos de correspondência em filosofia e trabalhava em barcos, testando a poluição na Bahia de Tóquio. Não estava interessado na poluição; apenas gostava de barcos. Trabalhou de guia turístico marinho em Okinawa por um tempo. Não tinha nenhum plano de longa duração; fazia apenas o que lhe parecia divertido. Então, com vinte e quatro anos, sofreu um terrível acidente de moto que o deixou inconsciente por seis horas e hospitalizado por três meses. Veio a entender que a vida era preciosa e que ele a estava desperdiçando. Não iria entender o significado da vida lendo. Tinha que o fazer pela experiência.

Um dia, sua mãe viu um anúncio no jornal. Monges budistas procurados. Ela mostrou para ele porque achou hilário fazer anúncio para monges, mas a curiosidade dele foi despertada. Já sabia um pouco sobre Zen: havia estudado karatê depois do ensino médio, e isso tinha envolvido algumas austeridades básicas, como ficar de pé sob uma cachoeira gelada por uma hora, entoando. Seus amigos achavam que virar monge era uma ideia ridícula, e ele mesmo não tinha nenhuma grande opinião a respeito de monges, mas respondeu ao anúncio. O emprego era para monges iniciatórios sem treinamento algum – enterros de animais domésticos, este tipo de coisa. Depois de um tempo, ficou fácil demais; ele queria aprender mais. Na época, com seus vinte e tantos anos, estava morando com Yukiko, uma enfermeira em treinamento que conheceu quando estava no hospital, e que depois tornou-se sua mulher, mas decidiu que queria entrar num mosteiro.

Fez seu treinamento num mosteiro Rinzai Zen numa montanha com floresta no distrito de Gifu, a 200 milhas de Tóquio. Longas escadarias de pedras levam para o alto da montanha e terminam num  portão de madeira com cobertura de telha. Atravessando o portal vê-se ma pátio de cascalho revolvido, algumas pedras maiores e vários prédios tradicionais com telhados inclinados. Quando um candidato se apresenta para o treinamento, deve se prostrar e declarar que está disposto a fazer o que precisa ser feito para resolver a grande questão  da vida e morte. Tradicionalmente, ele é afrontado pelo monge chefe, que o ordena a ir embora. Ele persiste, continua prostrado e pós dois ou três dias é levado para dentro.

Monges aprendizes são tratados como escravos num engenho brutal. Precisam seguir as ordens e nunca dizer não. Dormem pouco. Se levantam às quatro. Em geral comem apenas uma pequena porção de arroz, e de quando em quando, picles (legumes frescos e carne são proibidos). Não há calefação, apesar de poder fazer muito frio na montanha, e os monges usam sandálias e túnicas de algodão. Monges juniores são proibidos de ler.

Há muitas tarefas domésticas que o monge deve completar em um dia (cozinhar, limpar, derrubar árvore e cortar lenha, fazer vassouras), e tem pouco tempo para fazê-las. Se não se move rápido o suficiente, monges seniores gritam com ele. Pouco se fala – somente um sino a tocar (para indicar uma mudança nas atividades) e gritos. Existe uma maneira correta de se fazer tudo, que é rigorosamente reforçada. Quando um monge acorda de manhã, não deve se mover até que o sino toque. Quando o sino toca, precisa andar rápido. Tem cerca de quatro minutos (até que o próximo sino toque), para colocar o futon, abrir uma janela, correr ao banheiro, gargarejar com água salgada, limpar o rosto, colocar suas vestes, e correr ao hall de meditação. No início, é muito difícil fazer tudo isto em quatro minutos, mas aos poucos ele desenvolve técnicas para aumentar sua velocidade. Por ter que desenvolver essas técnicas, e mesmo com elas ainda ser difícil se mover rápido o suficiente, ele fica intensamente ciente de tudo que faz.

Sempre é lento demais, sempre sente medo, e sempre está sendo escrutinizado. No inverno, ele está com frio, mas se mostrar que sente frio, gritam com ele. Não há solidão. O constante gritar e o correr, junto a uma exaustão crônica, produzem nele um estado de pânico leve, que também é um estado de enfoque acentuado. É como se sua mente pensante, sua mente duvidosa e critica e interpretadora, tivesse se fechado e sido substituída por um mecanismo mais simples que serve ao corpo. A ideia é jogar fora seu self, e ao assim fazer, descobrir quem você é. Um monge bem treinado, diz-se, vive como se já estivesse morto: livre de apegos, de indecisões, de confusão, ele anda sem barreiras entre a vontade e a ação.

Várias vezes no decorrer do ano, os monges passam oito dias andando longas distâncias para pedir comida; no inverno, andam de sandálias na neve. Quando saem a mendigar, usam chapéu de palha cônico para cobrir os rostos. Não conversam com ninguém, e se alguém pergunta, não precisam dizer seus nomes. Quando alguém lhes dá comida, são obrigados a comer tudo que lhes é oferecido. Este forçado comer em demasia pode ser a mais dolorosa parte do treinamento.

Todo dia, cada monge tem um encontro com seu professor sobre o koan que ele está ponderando. Estas audiências duram minutos no máximo, às vezes poucos segundos. Ocasionalmente, o professor faz um comentário; em geral, não diz nada. O koan é uma versão mental das brutalidades corporais do treinamento: resistente, frustrador, impossível de assimilar, tem o intuito de chocar o monge de tal forma que de repente tenha um insight.

Em janeiro, os monges fazem um retiro de uma semana, durante o qual não podem deitar ou dormir. Num mês de janeiro, Nemoto foi cozinheiro; tinha que preparar picles especiais para o retiro, e o monge chefe exigiu tanto dele que não dormiu nada por uma semana antes do retiro começar. No terceiro dia do retiro, estava tão cansado que não estava aguentando ficar em pé, mas tinha que carregar uma pesada panela cheia de arroz. Ele estava de pé segurando o arroz e pensou, não consigo mais carregar esta panela, vou morrer agora. Na hora que ele estava para cair, sentiu um enorme fluxo de energia: sentiu que tudo à volta estava cantando, e que ele podia fazer tudo o que tinha que fazer. Ele sentiu, também, que a pessoa que estava para cair um segundo antes, e, na verdade, a pessoa que vinha vivendo sua vida até então, não era realmente ele. Naquela tarde, ele se encontrou com seu professor sobre seu koan, e pela primeira vez o professor aceitou a sua resposta. Esta experiência o levou a acreditar que o sofrimento produz insight, e que é somente quando o sofrimento se torna quase insuportável que a transformação acontece.

Há pouquíssimos monges no Japão hoje. O mosteiro de Nemoto, em que o treinamento é particularmente duro, tem apenas sete. Todo ano, novos monges se apresentam para o treinamento, e todo ano muitos fogem dali. Este ano, cinco vieram e quatro fugiram. O enfoque da escola Rinzai Zen de Nemoto é a iluminação individual; quando um monge sai com a intenção de trabalhar no mundo, o roshi fica desapontado.

Alguns anos atrás, uma mulher, R., contatou Nemoto pelo seu site na web, e eles também se encontraram pessoalmente algumas vezes.

Data: 17/01/2008

Na verdade, R. quase morreu ontem (risos)… Pela primeira vez em muito tempo pensei em tomar pílulas. Mas não consigo morrer, não importa quantas vezes tomo as pílulas, e a lavagem do estômago é tão dolorida, você sabe, se a gente está consciente. Funcionaria se eu tomasse as pílulas bem até perder a consciência, mas é tão difícil engolir várias centenas de pílulas (risos)… Se eu pudesse morrer facilmente, estaria morta! Agora, R. tem um amigo confiável, sabe, então eu chorei por cerca de 2 horas e me acalmei, mas ser a pessoa que escuta também é difícil, certo? Simpatizo. Pensei, você vai se cansar de R. algum dia, e tive ainda mais vontade de morrer, ou não, risos. É difícil. Mas viver é difícil. Esta é a minha conclusão. Ok, vou me banhar.

A certa altura, R. se divorciou do marido e foi viver com o namorado, que tinha se tornado um hikikomari depois do pai se suicidar. Ela enviou a Nemoto um ensaio que o namorado escreveu, argumentando que os hikikomori e monges em treinamento são basicamente o mesmo:

Muitos anos atrás, tornar-se um monge era reconhecido como uma forma de viver, e acho que um número considerável de monges eram pessoas que tinham problemas que os impediam de viver na sociedade – pessoas que seriam chamadas de depressivas ou neuróticas nos termos atuais… A regra básica era deixar a família e amigos, descartar todas as relações e renunciar ao mundo… A antiga sociedade aceitava estes monges em treinamento, apesar de serem considerados absolutamente inúteis. Ou seja, os tratava com respeito e os sustentava com oferendas… Em casos bastante raros, alguns atingiram a chamada “iluminação”, e essas pessoas podiam divulgar ensinamentos que tinham a possibilidade de salvar pessoas na sociedade com problemas. Ou seja, havia certos casos onde os monges podiam ser úteis para a sociedade, e acho que é por isso que a sociedade os sustentava… Acho que monges e hikikomori são bastante semelhantes. Primeiro, nenhum nem o outro se enquadra nesta sociedade – enquanto que os monges em treinamento se isolam nas montanhas, os hikikomori se isolam em seus quartos.  Ambos se engajam na atividade de enfrentar as raízes dos seus problemas a sós… Porém, ninguém aceita esse tipo de viver hoje em dia, e por isso os hikikomori se escondem em seus quartos… Mas hikikomori são seres muito importantes. Os hikikomori não podem ser curados pela sociedade; pelo contrário, é a sociedade que tem problemas, e os hikikomori podem ajudar a solucioná-los.

Depois de quatro anos no monastério, Nemoto queria estar lá fora no mundo novamente, mas não tinha certeza do que queria fazer, então voltou para Tóquio e foi trabalhar num restaurante fast food. Com certeza, o trabalho comparado ao treinamento era tão fácil que se sentia feliz o tempo todo. As pessoas o cumprimentavam, diziam a ele que estava fazendo um bom trabalho, perguntavam se tudo estava bem, se estava quente demais, queria água? Tudo muito incrível! Logo seu jeito alegre começou a chamar atenção. Ninguém entendia como ele ficava tão feliz fazendo hambúrguer; todos os demais no restaurante sentiam-se tão mal. As pessoas lhe perguntavam qual era o seu segredo, e ele contava sobre o mosteiro. Começaram a conversar com ele sobre seus problemas – alguns sobre terem pensado em suicídio – e ele descobriu que tinha um dom de ajudar pessoas infelizes a mudar o jeito de pensar.

Após algum tempo, o filho de um de seus professores entrou em contato com ele e perguntou o que ele estava fazendo no restaurante – sua escola precisava de monges que poderiam se tornar encarregados de templos. Havia um templo numa pequena cidade chamada Seki, na província de Gifu, que iria se fechar se não encontrasse um encarregado budista; Nemoto concordou em se mudar para lá.

Seki era um aglomerado de prédios baixos de concreto e casinhas tradicionais de dois andares com telhados inclinados e telhas estilo japonês, circundado por montes encobertos de bambu rasteiro. O templo ficava fora da cidade, também em estilo tradicional, circundado por plantações de arroz e um cemitério de um lado. Dentro do templo havia um hall de meditação em que os tabletes memoriais da paróquia eram guardados, cada um contendo um rolo de pergaminho com os nomes dos ancestrais daquela família, alguns remontando ao século 7. Os quartos se abriam para fora com portas deslizantes de madeira treliçada; os pisos estavam cobertos de tatames. Nemoto pensava que a vida num mosteiro rural seria calma, mas acabou sendo tão trabalhoso que mal tinha tempo para si. Ele conduzia funerais para todas as famílias da paróquia, e depois havia os memoriais de duas semanas, os de três semanas, e os de quatro semanas, e todas as cerimônias depois disso. Ele também plantava e colhia arroz nos campos do templo e distribuía parte aos membros.

Pelo menos não havia mais austeridades: assim que os monges deixam os mosteiros e se tornam padres ou monges encarregados, as restrições de uma vida monástica cessam. Eles bebem, fumam, se casam. Os budistas de países onde os costumes são mais severos geralmente ficam chocados com os hábitos dos monges padres japoneses, mas Nemoto não acredita em colocar um distanciamento entre ele e outras pessoas. (Outra escola, a linha dos budistas da Terra Pura, se consideram idiotas comuns como todos os demais.) Quando Nemoto está conduzindo uma cerimônia funerária, usa suas vestes. As pessoas mais velhas sentem-se confortadas pelo semblante de um padre em vestes tradicionais. Mas quando deixa o templo ele usa o que gosta: jeans largos, botas velhas, um lenço na cabeça raspada. Não é apenas uma questão de reduzir formalidades: no Japão, o budismo se tornou tão exclusivamente associado a funerais que um padre de vestes tradicionais é como um prenúncio de morte.

Data: 22/04/2010

Querido Monge Chefe do Templo Daizenji,

A minha vida recente não mudou muito (desde que meu marido se suicidou), mas eu ainda consigo continuar vivendo. Vou divagar sobre o que estou pensando agora. Me perdoe se escrevo demais. Minha mãe era bastante devota. Nunca deixou de juntar as palmas das mãos em oração e cantar o sutra frente ao altar budista todas as manhãs e noites. Meu pai gostava de saquê e agia violentamente desde que me lembro. Cresci vendo minha mãe sofrer por décadas. Porém, minha mãe nunca reclamava. Trabalhava duro, e rezava pela alegria da nossa família com determinação, e se dedicou a cuidar do meu pai até a sua morte. Eu não entendia muito a minha mãe. Tudo que eu pensava era que ela era impressionante. Eu odiava meu pai o tempo todo…

Depois da morte do meu pai, a saúde da minha mãe foi piorando. Até que enfim tinha se libertado dos problemas com ele, mas aí eu comecei a dar problemas para ela. Meu casamento fracassou, e nada ia bem na minha vida, e quanto mais velha eu ficava, mais perdia o significado da vida, e só queria morrer. Meu coração estava mal, e eu comecei a usar palavras violentas com minha mãe… Então ela pegou pneumonia e morreu. Caí no desespero. Senti que estava sendo esmagada por meus severos arrependimentos. Não conseguia me perdoar, estava em tanta dor, não aguentava mais. Tentei o suicídio.

Minha mãe sofreu por décadas devido a meu pai alcoólatra, e eu a fiz sofrer quando finalmente ela foi libertada. Na vida toda, ela nunca foi compensada. Por que ela, que era tão devota, que sacrificou o próprio corpo e a vida, acabou tendo uma vida de tanto sofrimento?  Sei que tudo que lhe dei foi sofrimento. Foi a minha culpa. Porém não conseguia me conter. Então quando penso na minha mãe, sinto raiva, me perguntando se não há deuses ou budas neste mundo, me perguntando como tal vida pode ser tão mal remunerada. Sinto que não ligo para mais nada, se não se pode ser feliz vivendo virtuosamente. As últimas palavras da minha mãe ao recuperar a consciência foram, ” Sinto gratidão”…

Estou só. Sei que é patético, já que farei 50 anos em poucos anos. Trabalho num emprego temporário. Consigo sustentar minhas finanças agora, mas não sei o que vai acontecer no futuro, não tenho ideia de como viver. Estou muito ansiosa. Falo com o retrato da minha mãe todo dia. Quando acordo de manhã, fico chateada comigo por ainda estar viva. Não vou poder ir para onde minha mãe está quando eu morrer. É o que penso. Porém, mesmo querendo morrer, quero também achar um jeito de viver. Tenho procurado um emprego desde o início deste ano. Já que não consigo fazer nada além de trabalho de escritório nesta idade, tudo que recebo são rejeições. É normal. Então no final das contas, sinto que quero pular fora. Não sei o que estou fazendo. Nem sei se quero viver ou morrer. Posso estar procurando um emprego para me enganar sobre o fato de querer morrer… Á noite, penso no meu futuro e penso sobre a minha mãe, e não consigo senão chorar.

É difícil falar sobre querer morrer. Quase todos com quem se fala, não conseguem lidar com isto: é altamente perturbador. Se você liga para um hot line suicida, a pessoa consegue lidar com isto, mas é algum estranho que nada sabe de você. Não há muita terapia de diálogo no Japão – se você vai a um psiquiatra, ele geralmente atende por alguns minutos e lhe dá uma receita. Nemoto queria ajudar as pessoas suicidas a se falarem, sem empecilhos, e então criou um site para suicidas. Originalmente se chamava, “Para os que querem morrer”, mas sugeriram a ele que talvez parecesse um lugar onde as pessoas pudessem encontrar estranhos com quem se suicidar – o que tinha se tornado bastante comum no Japão – e então passou a se chamar “Para os que não querem morrer”. As pessoas se comunicavam uns com os outros no site, e também lhe escreviam.

Ele respondia a todos. Dava retorno a todos os e-mails, e em geral, uma resposta chegava dentro de minutos, e ele respondia à resposta. As pessoas ligavam para ele e queriam falar com ele, mas não sabiam o que dizer; não sabiam como descrever o que lhes acontecia. O que passavam pelo telefone depois de horas conversando era uma inarticulada, urgente e profunda ansiedade que se infiltrava nele e não ia embora quando a ligação terminava.

Ele tentou praticar o que achava que era um ouvir de forma Zen – deixando as palavras e emoções fluírem para dentro dele, ocupando todo espaço na sua mente para que não restasse espaço para nenhuma reação própria. Achava que para ajudar as pessoas era necessário sentir o que elas sentiam – não deveria sentir-se um conselheiro mas um companheiro sofredor, tentando, como eles, encontrar sentido na vida – mas isto o afetava mais e mais, pois a ansiedade deles se tornava sua. Tentou meditar para se livrar dessas emoções, mas não conseguia purgar-se completamente. Pensava nas pessoas suicidas o tempo todo. Como poderia ajudá-las? O que poderia fazer? Não estava dormindo o suficiente. Era extenuante, mas a prática no templo tinha sido extenuante e ele via isto como uma continuação da sua prática.

Depois de três anos, sentiu que estava à beira de um colapso, e começou a pensar em maneiras de se cuidar. Retomou o karatê. Meditava mais, fazia mais entoações. Mas novas pessoas iam lhe pedindo ajuda, e as pessoas de antes continuavam a chamar, e assim foi se sentindo cada vez mais responsável  por mais e mais pessoas que precisavam mais e mais dele.

No outono de 2009, começou a sentir um peso no peito. Sentiu que a garganta estava apertando; estava mais difícil respirar. Quando piorou de vez, alguns meses depois, foi a um hospital e foi diagnosticado com angina instável. Cinco artérias estavam bloqueadas; seu médico lhe alertou que poderia morrer a qualquer instante. Ao longo dos seguintes dois anos, passou por quatro angioplastias. Durante este período, o pai de Nemoto se tornou suicida. Dez anos antes, o pai sofrera um AVC e ficara parcialmente paralisado. Na época em que Nemoto foi hospitalizado, o pai já tinha perdido a vontade de viver. E então, dois meses depois, ele morreu de insuficiência cardíaca.

O tempo todo, os e-mails e telefonemas continuavam vindo, mas por longos períodos Nemoto estava muito doente para poder responder. No início, não disse por que tinha se silenciado. Depois, ao se passarem semanas, sentiu que era preciso explicar. Do hospital, escreveu a seus correspondentes e lhes disse que estava doente. Quando foi checar para ver como haviam reagido a seu anúncio, ficou chocado: eles também estavam doentes, disseram; estavam sofrendo, e ele precisava tomar conta deles.

Deitado no hospital, passou uma semana chorando. Tinha passado sete anos se sacrificando, se esforçando até o ponto de um colapso, à beira da morte, tentando ajudar estas pessoas, e elas não davam a mínima para ele. Qual o sentido disto? Ele sabia que se a pessoa fosse suicida era difícil entender os problemas dos outros, mas assim mesmo – havia conversado com estas pessoas por anos, e agora estava ele ali morrendo e ninguém ligava.

Por muito tempo, os pensamentos se tornaram tão sombrios e agitados que era difícil decifrá-los, mas aos poucos foram se aliviando e o que restou foi uma forte sensação de que queria fazer o trabalho assim mesmo. Ele entendeu que, mesmo que as pessoas com quem falava não sentissem nada por ele, ele ainda queria algo delas. Havia o estímulo intelectual que sentia quando acertava na análise de algum problema em que uma pessoa se aprisionara. Ele queria conhecer verdades que pessoas comuns não conheciam, e no sofrimento parecia estar encontrando tais verdades. E havia ainda um algo mais difícil de definir, um tipo de thrill (excitação) espiritual no que parecia para ele, quando dava certo, um “bumping” (dar de encontro) de almas. Se era o que procurava, teria de parar de pensar no seu trabalho como uma obrigação moral cheia de significado. Ajudar as pessoas não deveria ser algo especial, como se alimentar, ele pensou – apenas algo que ele fazia no decorrer da vida.

Tendo chegado a esta conclusão, foi checar seu site, e viu que haviam alguns recados de apoio que não havia percebido no estado de choque em que ficou com os outros. Foi um alívio. Mas ele ainda precisava fazer algumas mudanças na vida. Estava claro que vinha fazendo algo de errado. Pensou em todos os e-mails e todos os telefonemas e como estas conversas podiam continuar por anos e anos em círculos sem progresso nenhum; e ele pensou também o quão esquisito e desorientador era absorver as terríveis emoções de pessoas que nunca tinha visto. Decidiu que dali em diante não se comunicaria com as pessoas até que as visse. Se queriam seu conselho, primeiro teriam que vir a seu templo. Seria difícil para muitos – o templo ficava num lugar remoto, longe da cidade mais próxima, bastante distante até mesmo da estação de trem local, e ele vinha conversando com pessoas por todo o Japão. Custaria um bocado de dinheiro chegar até a ele. Mas era este o ponto. Se não queriam sua ajuda o suficiente para chegar ao templo, era improvável que pudesse ajudá-los.

A nova estratégia reduziu o número de pessoas que vinham a ele em busca de ajuda, e também mudou algo para os que vinham. Seria o encontrar-se cara a cara, ou o tempo mais longo, mais concentrado, que podia dedicar a elas? Não tinha certeza. Mas depois destes encontros sentia em geral que ele e elas haviam atingido algum tipo de resolução. E isso significava, também, que ele não passaria a vida todo ansioso, com medo de que qualquer uma destas pessoas com quem havia falado ou escrito naquela semana poderia estar se matando a qualquer momento. Com o tempo, foi desenvolvendo técnicas. Começou a fazer anotações enquanto ouvia as pessoas, o que ajudava manter uma certa distância do desespero delas. Também propiciava o lembrar de coisas que haviam dito antes, de alegrias passadas, e a construir uma história que os levasse de um ponto para o próximo, ao invés de ficar andando em círculos, e permitia às pessoas também ver seu sofrimento com um certo distanciamento.

Certa vez, um homem andou por cinco horas para chegar ao templo de Nemoto. A caminhada foi uma jornada heróica para este homem, pois vinha vivendo como um hikikomori, e agora, de repente, estava ali fora no sol, suando e sentindo o corpo se mover. Ao andar, pensava no que iria dizer. Fazia tanto tempo que não conversava realmente com alguém, e agora esperava-se que ele explicasse alguns dos seus mais íntimos sentimentos a um estranho. Ele suava e pensava ao caminhar, e quando enfim, após cinco horas, chegou no templo, ele anunciou que havia atingido a compreensão e não precisava mais da ajuda de Nemoto. Virou-se e voltou para casa.

Tradução de Robin Geld