Uma pintura audiovisual obrigatória

Por: Will Augusto – blog La Petite Marie – 2/8/2013

Tudo começa com um sonho. Um sonho de Elena sobre Petra, onde Petra sonha que Elena e ela estão em cima de um muro. Não, onde Petra esta procurando Elena pelas ruas de Nova Yorque, longe de casa, enquanto Petra permanece em cima do muro, e cai. Elena morre. Não, Petra morre e Elena sai à procura de Petra. Não, Petra e Elena morrem e sua mãe sai à procura das duas e a encontram abaixo do muro. Não.

Entre sonhos, realidades, fatos e poesias, Petra Costa, estreia na direção com seu primeiro longa metragem intitulado Elena. Um híbrido entre ficção e documentário, onde ela e sua irmã mais velha Elena que dá nome ao longa se confundem em tela, transpassando gerações, dor, falta, procura e todo um lirismo psicológico, junguiana e atormentador na prova de que laços sanguíneos são de longe os fios que nos ligam ao mundo do outro.

Elena viaja para Nova York com o mesmo sonho da mãe: ser atriz de cinema. Deixa para trás uma infância passada na clandestinidade dos anos de ditadura militar. Deixa Petra, a irmã de sete anos. Duas décadas mais tarde, Petra também se torna atriz e embarca para Nova York em busca de Elena. Tem apenas pistas. Filmes caseiros, recortes de jornal, um diário. Cartas. A todo momento Petra espera encontrar Elena caminhando pelas ruas com uma blusa de seda. Pega o trem que Elena pegou, bate na porta de seus amigos, percorre seus caminhos. E acaba descobrindo Elena em um lugar inesperado. Aos poucos, os traços das duas irmãs se confundem já não se sabe quem é uma quem é a outra. A mãe pressente. Petra decifra. Agora que finalmente encontrou Elena, Petra precisa deixá-la partir.

Essa é a sinopse e nada poderia ser mais acertado para essa ARTE em todos os sentidos que a palavra e expressão comportam.

Em Elena acompanhamos Petra refazendo os passos da irmã mais velha, que saiu do Brasil rumo à Nova York atrás de seguir a carreira de atriz de cinema. Esse também era o desejo da mãe de ambas, nunca posto em prática. Ela e o marido enfrentaram a ditadura militar brasileira e teriam sido dois das centenas de militantes mortos na guerrilha do Araguaia se não fosse o fato de Elena estar na barriga da mãe- seis meses de gestação-, o que impediu seus pais de embarcarem para a morte da guerrilha. Quando Elena cresceu, após a separação de seus pais, quando Petra ainda tinha sete anos de idade, ela foi estudar e trabalhar em Nova York, buscando seu sonho de ser atriz de Hollywood, aonde chegou inclusive a conhecer Coppola.

O que se sabe é que Elena esta ausente da vida de Petra, e essa após cerca de 2 décadas desde que Elena partiu para NY, resolve recriar ospassos de sua irmã Elena em busca de seu paradeiro, reencontrá-la ainda que a descoberta de onde Elena foi parar seja ao mesmo tempo acalentadora e devastadora.

O filme inicia-se com um recorte de imagens de Petra andando pelas ruas de NY, narrando um sonho que teve com sua irmã, onde neste, Elena esta em cima de um muro num emaranhado de fios elétricos. Quando ela olha de novo, ela nota que é ela mesma que esta no muro e não sua irmã. Ela se desespera e tenta se desvencilhar dos fios, cai e morre.

Essa narração em off ao som de Mamas & Papas – Dedicated To The One I Love criam uma rede de significados e de preparação para o longa que na sequencia usa uma sucessão de intercalações entre fatos documentais de lembranças resgatadas por textos narrados, por sons gravados em fita cassete antigo – uma espécie de diário em áudio de Elena, já que esta odiava a própria letra – e imagens de vídeos antigos e caseiros, com filmagens atuais de Petra caminhando a esmo por ruas e becos numa angulação sem simetria e com uma lente que nos faz emergir numa espécie de sonho sendo recordado, refazendo os passos da irmã.

Essa sequencia inicial, já nos coloca a par do que é Elena. Um filme poético, lúdico, de tal imersão visceral e condução emocional ao espectador típicos dos filmes de ficção.

Isso porque, apesar de se tratar de um documentário extremamente pessoal, Elena consegue criar uma conexão com o publico, dos mais variados tipos, e jeitos, idades e épocas. O filme é atemporal num nível artístico raro de se encontrar atualmente não só nos produtos documentais nacionais, mas no geral de realizadores que se embrenham por esse campo do cinema. Quando se opta por realizar uma obra pessoal, com vivencias pessoais, corre-se o risco obvio de limitar sua obra a um nicho de pessoas que conhecem previamente ou que viveram aquela experiência. Porem com Elena isso não acontece por mais que fique claro que a busca e compreensão e sentido de existir daquele filme seja totalmente relevante a diretora, o filme consegue dialogar com o mundo ao propor uma discussão mais ampla, do que a simples busca por compreensão a uma perda e uma saudade. Elena discursa sobre nosso próprio Eu. Sobre nossos próprios sentimentos, sobre nossa própria busca, sobre nossas dores pessoais. Isso é raro.

Aliado a uma trilha sonora marcante, com belas composições e pontuadas com montagens de imagens repletas de simbolismos, como câmeras difusas e na mão, planos abertos contemplativos e imagens desfocadas, ou mesmo retalhos de quadros e elementos da natureza como folhas intensamente vermelhas aludindo a lembranças passados, ou mesmo fluxos de rios e mares, sons de água como fluxo de vida compõe um cenário narrativo perfeito para as narrações em tom suave e extremamente feminino de Petra; que narra de forma pausada mas expressiva cada momento de sua busca pela historia da irmão.

Petra como personagem visual em tela mal aparece de frente, com exceção das imagens de arquivo antigo quando esta era uma criança. Porem quando ela surge, ela se confunde tanto com as imagens de Elena passadas que fica difícil diferenciar quem é quem. A mãe de ambas entra então na narrativa como mais um elemento do tempo para compor essa ideia de que as épocas, os sonhos e as dores daquela família se confundem na vertente feminina ali. Petra é sua mãe e sua mãe é Elena, como Elena também é Petra.

A edição entre os arquivos antigos e os especialmente filmados agora para o longa conseguem se fundir, dando uma linearidade inclusive na arte final, tanto em cor e textura quanto no designer e figurino geral, conseguindo uma fotografia em parcimônia com o todo. O ritmo também é excelente, a procura, a documentação e confusão citada na descrição do longa, adquirem tons de poesia fílmica mesmo ainda que exerçam o papel fundamental em atos distintos. E um texto rico, que em parte é fruto de Elena, de suas memórias; mas em sua maioria da sensibilidade de Petra e claro da terceira, a mãe das duas; que é sensacional do inicio ao fim em seus relatos. As metáforas visualmente falando caem como uma luva e uma dor a mais em tudo isso. Porem é uma dor com prazer; uma dor sofrida e bela que com certeza vale o ingresso, a paciência, as lagrimas e o nó da garganta.

Quando enfim ficamos sabendo qual o destino final de Elena, o baque é tão forte e tamanho apelo emocional- sem ser forçado ou piegas- em tela para o espectador, que as lagrimas caem de forma branda, sofrida porem natural. O filme é uma experiência dolorosa aqueles que sentem o que Elena sentiu aqueles que sentem essa necessidade existência igual de Petra de seguir e começar a viver e de sua mãe de continuar.

O esquecimento e as lembranças, os sonhos com a realidade, o ficcional com o documental, o prazer e a dor se fundem em tela- após toda a confusão inicial- e criam uma obra coesa e definitivamente soberba.

O que é importante salientar é que Elena é uma viagem não só por dentro dos sentimentos e procura de Petra ao resgate a sua irmã Elena desaparecida dentro de si, mas uma viagem profunda aos maiores medos e angustias do espectador, seja o medo da morte, o medo da perda, o medo da falta e o pior deles, o medo de sentido para a vida.

Sem duvidas Petra criou uma obra de destaque. Um tributo lúdico e extremamente sensível sobre sua própria historia e sobre sua irmã, eternizando-o não só em suas memórias e sentimentos, mas nos de cada pessoa que se deixar apresentar por ela.

Um filme obrigatório aos corações que buscam acalento na busca da vida, nem que seja para se ver ‘doendo’ um pouco mais. Um filme corajoso não só pelo risco de trazer isso tudo em tela e errar, mas acertar em cheio e ainda remoer uma angustia que amedrontaria qualquer ser humano seja ele quem for.

Uma Obra prima, uma pintura audiovisual obrigatória, daquelas de dançar chorando ao som da lua, nas águas de Elena…

“Me vejo tanto em suas palavras que começo a me perder um pouco em você”
“Me afogo em você (…) em Ofélias…”
“Espelhos dentro d’água”

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