Um simbolismo desconcertante

por: André KleinertAnti-Dicas de Cinema– 20/6/2013

Na designação de gênero cinematográfico, “Elena” (2012) estaria enquadrado como documentário. Afinal, a premissa de sua trama consiste no relato de um fato real: a trajetória pessoal de uma atriz e bailarina que se suicidou aos 20 anos. Ocorre que a realizadora do filme é a própria irmã da figura título, e assim sua concepção foge da simples exposição da “realidade”. O viés de Petra é bastante pessoal e autoral – para ela, interessa muito mais a sua impressão personalista, a forma com que as situações da vida de Elena influenciaram sua vida. Nesse contexto, há momentos em que a produção expande as fronteiras do documentário, convertendo-se numa narrativa que beira o delírio e carregada de um simbolismo desconcertante. Em tal viés, a vida de Elena vai sendo exposta em diferentes camadas. Num nível mais intimista, há um lado de evidente admiração no olhar de Petra em relação à irmã, em que Elena é vista quase como uma força da natureza no seu conjunto de beleza, talento e sensibilidade. Mas o filme avança o mero olhar de pura admiração.

Aos poucos, uma atmosfera um tanto mórbida e doentia toma conta, onde a depressão de Elena entra em cena de forma devastadora. O filme adquire o aspecto de uma pequena saga familiar, em que o mal psíquico de Elena não só a leva à morte como desperta também os demônios interiores da irmã, fazendo lembrar episódios nebulosos da adolescência da mãe das duas e levando à inquietante dúvida se Petra também não estaria destinada a um destino semelhante. Há ainda um outro lado na forma com que o roteiro pode ser visto, em que o político e o intimo se entrelaçam. Concebida durante a ditadura militar, Elena era filha de perseguidos pelo regime, nascendo na clandestinidade. Quando vai para Nova Iorque, em 1990, aos vintes anos, a procura de novos horizontes para sua carreira artística, coincide com a ascensão de Collor ao poder, e com o isso fim da Embrafilme e, por conseqüência, do cinema brasileiro. É como se os percalços pessoais de Elena fossem a manifestação existencial das agruras do Brasil.

Esse volume impressionante de ideias, referências e impressões recebe um brilhante tratamento formal por parte de Petra Costa (e que lembra bastante o fantástico documentário norte-americano “Tarnation”). Sua base inicial são gravações audiovisuais caseiras, e nisso a diretora foi agraciada pelo fato surpreendente da qualidade de tais registros (alguns deles feitos pela própria Elena) – há belíssimas cenas de danças, depoimentos reveladores da biografada, cenas de brincadeiras, pequenas peças. Petra manipula esse farto material de arquivo numa montagem criativa e de dinâmica extraordinária, casando com uma trilha sonora arrebatadora. A estética de “Elena” é reflexo do já aludido viés pessoal da obra, em que os limites da fantasia e do real por vezes se misturam. Há seqüências em que Petra emula recriações dramáticas da trajetória de Elena, realiza coreografias de danças, até faz filmagens aquáticas. Todo esse subjetivismo da diretora gera uma mutação antológica, em que aquilo que era um drama familiar de alcance aparentemente restrito acabe ganhando uma dimensão épica e se torne referencial.

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