Uma carta de amor sem fim

Consuelo Lins, O Globo – RioShow, – 9/5/2013

Primeiro é a voz da cineasta Petra Costa, que surge em um diálogo imaginário com Elena. O tom e o ritmo em que as palavras são ditas, o texto propriamente, tudo comove nessa primeira sequência de um filme que é uma espécie de carta de amor da diretora à irmã que nunca deixou de assombrá-la, desde que partiu para Nova York, “para ser atriz de cinema”.

A cineasta escreve sua carta mesclando imagens feitas especialmente para o filme e arquivos variados: cenas de família, imagens amadoras, gravações de áudio, fragmentos extraídos dos escritos de Elena.

Petra Costa organiza o material interpelando diretamente a irmã em uma espécie de “acerto de contas” afetivo. Perscruta sinais que indiquem suas escolhas. Encontra um olhar perdido aqui, uma tristeza na expressão ali, mas Elena é, na maior parte do tempo, alegre e cheia das vontades.

É justamente essa inexistência de causas efetivas para a trajetória de Elena que imprime ao filme uma dimensão inconsolável tanto para a diretora como para o espectador. A mãe sentiu os estados da filha, fez o que pôde, mas não foi suficiente. Suas intervenções no filme são dilacerantes: o sofrimento intraduzível, a tentativa vã de encontrar palavras justas, tudo isso nos deixa a sensação de que, se ela aceitou estar tão dolorosamente ali, é em favor de Petra. Ela sabe que o filme pode ajudar a filha caçula a sair de uma melancolia sem fim.

Ao retomar os passos da irmã sob o risco de se perder, a cineasta reinventa para si uma outra vida — e esse lindo primeiro filme é a expressão dessa reinvenção.

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