Põe palavra em mim e eu viro arte

por: Wigvan – Wigvanquistão – 23/6/2013

Observação: Um comentário sobre o filme “Elena”, de Petra Costa. Se você não sabe do que se trata o filme, veja aqui. Os três primeiros parágrafos são opcionais, pode começar a ler a partir do quarto.

Ao som de: The Mamas & The Papas – Dedicated to the one I love

Sempre tive muita pena de quem não tem irmãos. Ao saber de algum filho único, eu me sentia a obrigação de amá-lo para preencher o vazio do qual ele talvez nem tivesse dado conta. Se eu não conseguia conceber um mundo sem irmãos é porque a minha irmã talvez seja a parte do mundo que mais me importa. Ela é a melhor testemunha da minha existência, não houve um só dia nesse percurso de vinte e poucos anos em que eu tenha sentido a sua mão distante da minha. Como nossas mãos, nossas identidades estão entrelaçadas: partilhamos a condição de lugares abandonados e o sentimento dolorido de tudo. Deve ser por isso que procuramos a voz um do outro quando precisamos escutar a nós mesmos.

Nós temos o mesmo histórico de perdas, apesar das diferenças entre personagens e modo como reagimos. Ela perdeu o sonho e o filho, eu perdi a companhia de dois amigos. Um deles morreu quando eu tinha onze anos: ele quatorze, levou um tiro ao furtar um supermercado. O outro, dez anos depois: suicídio. Em nenhuma das vezes eu pude tocar a matéria para perceber na falta de resposta da pele morta que somos apenas corpo e vazio. Talvez por isso eles nunca tenham deixado de habitar em mim. Do primeiro eu tenho um desenho do Goku sem o braço direito; do outro, La chanson de Prévert que copiou no laboratório de informática entre as aulas de Medieval e Antiga. São essas duas folhas tudo com o que eu posso contar em abril e em junho, os meses mais tristes que existem.

Disse tudo isso para você entender porque saí correndo do cinema ontem: eu queria dançar com a lua o mais rápido possível. Foi uma boa dança, a primeira na qual eu não massacrei os pés do meu partner pelo fato, talvez óbvio mas é bom ressaltar, de que a lua não tem pés, ela só dança com a luz. Acho que ela também gostou da dança, percebi que ela não tirava os olhos de mim, mas eu sempre acho que estão flertando comigo, não sou muito confiável nesse sentido.

Assim foi como se eu estivesse dançando com Elena. O filme é uma carta de amor escrita com imagens. As palavras, discursos que se sobrepõem como instrumentos para formar uma única música, servem à construção delicada de sentimentos por meio daquilo que é concreto – a casa da infância que de repente parecia pequena demais, a rua em sua abertura a qualquer sonho, o apartamento onde ela decidiu se transformar em nada. A biografia da dor, no entanto, não é investigada. Petra sabe, no próprio pulso que cortava na infância, que para a dor não existe uma resposta fácil. Podemos tentar rastrear seus sintomas, mas não é todo mundo que consegue dar nome aos nós que se acumulam na garganta.

Elena percebeu a angústia e o vazio nos meses de solidão em Nova York.  Mas era uma angústia sem nome, parecida com aquela que sua mãe tinha quando era adolescente, ao ponto de pressentir o rosto trágico que teria e de dar ao destino um tempo para que ele a convencesse a permanecer viva. Angústia também de Petra, ao lidar com a tristeza constante da irmã – “ela é assim, ela é assim” –, e depois ao perceber que ela não voltaria.

Com a notícia da morte, o absurdo da finitude que desafia a nossa arrogância, somos empurrados em um precipício e nunca, nunca mais deixamos de cair. Durante a queda contínua, o único paliativo são esses fragmentos que ficam retidos em lugares, em músicas, em páginas de livros. No caso de Petra, em diários, fitas de vídeo, em seu próprio rosto que evitava olhar no espelho como uma promessa para que a mãe não morresse. É para contar à irmã sobre esse tempo que ela dedica a última parte de sua carta. Conta sobre as memórias que não podemos abraçar, conta que somos feitos também de ausências. Conta que todas essas partes que arrancaram de nós fazem também parte da identidade que construímos.

Petra Costa tece com palavras todas as lacunas – se “é difícil defender só com palavras a vida”, como disse João Cabral de Mello Neto, as imagens também não são suficientes sozinhas, por mais belas que sejam. É preciso dar a elas um significado, mesmo que provisório, para que nos sintamos brevemente consolados com a ideia de que é possível encontrar nas coisas mais tristes um bom motivo para tentar sobreviver. É quando fala desse heroísmo do dia a dia, do laço de intimidade entre irmãos, da necessidade de transformar o despedaçamento de uma perda em impulso que Petra fala de todos nós. Ela, a mãe e as lembranças da irmã se reconciliam na água. Depois, logo atrás delas, vamos nós, com as nossas cicatrizes e nos consolamos com a nossa própria natureza de rio.  Se na infância, Elena mostrava à irmã o mundo, agora é Petra quem mostra ao mundo a obra de arte que Elena sempre fora em segredo.

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