O réquiem para Elena

Por Felippy Damian, no site Olhar Conceito – 22/10/2013

São vários os riscos assumidos por Petra Costa, atriz e diretora, 30 anos, ao escrever com película um réquiem para sua irmã mais velha, Elena, no filme homônimo, de 2013.

A autora se expõe, e de maneira eloquente, confronta seus traumas para tratar, num documentário onírico, do suicídio da irmã, em 1990, quando Petra tinha apenas 7 anos de idade. Conta, com o auxílio de gravações caseiras, a história de sua família, mantendo as atenções voltadas para Elena, que desenvolve o gosto pela arte, em especial pelos afazeres dos atores de cinema na indústria hollywoodiana, e com tal determinação ruma para Nova York. Frustrações e inquietações quanto ao desejo avassalador de atuar, e assim realizar-se, levam Elena a buscar sua própria morte.

Marcada pela perda, a diretora e atriz faz em seu filme o que fez em sua vida, busca reconstruir e percorrer os trajetos escolhidos por Elena e, de tal modo, alcançar a merecida redenção para si, e muito mais, para a memória da irmã que, espirituosa,a inspirou.

Não é este o debute da arte enquanto forma de se homenagear pessoas queridas. Eu mesmo tenho muito apreço pelo poema Adonais, escrito e lido por P.B. Shelley no enterro de John Keats, notável expoente do romantismo inglês assim como Shelley. Petra consegue delicadamente agregar tal poesia em seu longa, tanto na estética, como na narrativa. O mais incrível é que, segundo a própria diretora, o lirismo se origina dos diários de Elena.

Algumas sequências conseguem atingir ápices de poesia, como os passos da diretora no meio da rua, repetindo sua inspiradora, quando adolescente. Mas existe um virtuosismo poético imenso na cena em que as atrizes são imersas pela água. Sabiamente se extraiu daí a imagem que ilustra a capa.

O longa me trouxe questionamentos necessários que também divido aqui. Uma obra de cunho tão pessoal deve ser vista por outrem e, até mesmo, incentivado financeiramente pelo estado? Concluí, por hora, que toda arte que possibilite novos sentidos e experiências devem ser difundidas, não se importando a especificidade do tema.

Petra desnuda-se em suas experiências intimas. A obra é pessoal. A experiência, todavia, não é intrasferível. O filme deve ser visto, e tal experiência vivida.

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