O que sobrou de ELENA?

Por: Julianna Coutinho – blog Cobertura Poética – 27/8/2013

Um breve ensaio sobre o indigesto

Elena afirma, de modo atemporal: se não for pela arte, não quero viver. E toma muitos remédios, se machuca, fotografa sua alma a partir de uma máquina de escrever e morre. A pergunta que fica é: Quem é Elena? De quem se fala quando se fala de Elena? A cineasta nos dá uma dica quando conta confundir sua trajetória com a da artista, quando percebe os olhos de pardal da irmã pousado nos dela. “Olhos profundos”. Essa é uma pista, mas está longe de ser uma resposta. O que sabemos de Elena? Que seu coração pesava 300 gramas. Que conheceu Coppola. Que era uma artista obsessiva. Que era uma máquina de produzir sonhos e uma catapulta de lançar o corpo no espaço em busca do desejo. Sabemos da delicadeza com que elevou objetos banais ao status de alicerces da constituição da irmã mais nova: o cachorro azul com olhos tristes, a concha, a voz. Podemos dizer muitas coisas da artista, da irmã, da filha. Mas o que surpreende é que mesmo saindo do cinema com a possibilidade desfilar uma lista de características de Elena, ela se traduz em algo distante de um personagem (literário, político ou social). Elena subtrai os personalismos. De uma história tão íntima, tão singular, o que fica é um sentimento muito mais amplo. Não é a toa que ao longo do filme eu esquecia “do nome da artista”. Perguntei-me inúmeras vezes porquê esquecer algo tão óbvio: o nome da moça é o mesmo nome do filme. Será?

Para mim, Elena virou substantivo abstrato. Porque Elena é a porosidade do corpo aberto ao mundo, aberto ao desejo e à dor de desejar. É o corpo que se desdobra de cima de si, que luta contra todos os extratos que o oprimem diariamente: vence o ar, os pêlos, a pele, os músculos, os fios enrolados por dentro, o sangue, os ossos, os órgãos. Elena é impessoal porque não é alguém – ela é muita gente, quando essa gente se encontra com o impossível de se ser o que se é. Com o inexorável da entrega à arte. Com a coragem de ir ao encontro dos sonhos que, com frequência, nos ofuscam. Elena trata de tudo aquilo que nos brilha, mas que tememos encontrar, covardia despreocupada e cotidiana que sustenta mercados, vidas insossas, que paralisa afetos. Elena sintetiza o esforço de busca, o movimento necessário, a entrega indelével. É a história de um corpo tão vivo, tão sensível ao mundo e a vida, que chega a se afetar a ponto de se embriagar de poesia. E aí o mundo vira uma ferida incurável, um mal-estar incapaz de abandonar o corpo. Vida indigesta, essa que me atravessa e se deposita em todas as partes de mim, sem apelos, sem receios. O corpo sofre, mas não cansa de se entregar: Elena é cativa do sonho da vida.

Na iminência da queda, Elena se esvai. Elena se foi. Será? O que sobrou de Elena para todos nós que passamos 82min em transe, girando junto ao seu corpo-estrela? A partir das mais diversas demonstrações de afeto sentidas, escutadas e vistas na sala do cinema, podemos dizer que o que sobrou de Elena foi os restos indigestos dessa experiência intempestiva que é a vida. Os mesmos restos indigestos que mataram Elena. Mas que também são os mesmos restos indigestos que impulsionaram Elena a lançar-se em uma das mais belas empreitadas humanas: a entrega à arte. Desse impossível que jamais se encerra, desse afeto sem lugar é que nascem os sonhos. Foi desse sentimento que nasceu um dos filmes-homenagem mais bonitos dos últimos tempos. Elena (o filme) toca as pessoas não apenas por sua história de perda, por sua beleza ou pela identificação com os que ficam. Elena emociona porque tem a potência de lembrar que todos nós somos um pouco Elenas cotidianas: nossos corpos, mesmo que soterrados pela velocidade, ainda são máquinas-carne pulsantes, desejantes de vida; ainda temos sonhos amarrotados em gavetas, ainda somos capazes de nos afetar com a beleza e o horror que o mundo nos traz. E de afetar. Por tudo isso Elena é uma declaração de amor à vida.

Fim da sessão. Do lado de lá da tela, resta matar Elena para que Elena não nos mate. Do lado de cá, resta abrir o corpo ao sonho, para que essa potência de Elena não morra.

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