Indizível

Por Jussara D Leite, no blog da EBP-SC – 12/9/2013

O filme começa com Petra relatando um sonho onde ela se confunde com Elena. O sonho, segundo Freud, é a via régia para o inconsciente. Numa entrevista, Petra diz que teve esse sonho em julho de 2009 e que foi muito angustiante por ela não saber se era ela ou Elena quem morria.

Petra continua sua narrativa de abertura: “Nossa mãe sempre me disse: que eu podia morar em qualquer lugar do mundo, menos Nova York. Que eu podia escolher qualquer profissão, menos ser atriz.”. Da maneira como Petra dispõe sua narrativa relatando o sonho, de entrada, e a seguir mencionando um dito da mãe, me fez pensar que esse dito da mãe tomou o valor de um oráculo para ela, algo que lhe foi dito e que ela não mais esqueceu, que se inscreveu de forma insistente e que, de alguma forma, determinou seus caminhos, desvios, escolhas. Como um destino a ser cumprido.

Quando uma pessoa procura uma análise, o analista escuta em suas palavras vários enunciados essenciais que vão cingindo um enunciado mais fundamental. Nesse percurso de uma análise, o paciente descobre que ele dedicou sua existência a verificar esse DITO FUNDAMENTAL, seja para confirmá-lo, seja porque se enveredou no sentido de desmenti-lo. O paciente pode responder à questão de até que ponto esse dito marcou sua vida determinando suas escolhas. Ou seja, até que ponto os caminhos e vicissitudes de sua vida são redutíveis ao efeito dessa marca significante. Parece-me que o filme se desenvolve por aí, ao redor dos efeitos da inscrição de uma palavra dita na história de um sujeito, dos efeitos surpreendentes e impressionantes em sua vida.

Petra conta (entrevista disponível no You Tube – Programa Andante – Elena) que, quando estava com cerca de dezoito anos, fazendo um work shop no Teatro da Vertigem, teve a tarefa de montar uma cena a partir de uma frase: “LIVRO DA VIDA”. Diz que, como não tinha orientação religiosa, foi em busca de seu diário e, num baú de livros antigos, achou um diário de Elena. Começou a ler e teve a sensação de se encontrar com “algo como um destino, um destino temeroso. Parecia que eu tinha achado um livro sobre o meu destino e tive muito medo de que fosse acontecer comigo o que aconteceu com Elena”. Petra continua: “E o filme é um pouco a investigação desse medo”. Petra se encontra com um enorme material produzido por Elena: mais de vinte horas de cartas gravadas em fitas cassete, filmes e escritos. Diz que se identifica com a irmã e se confunde aí. E Petra, a partir desse material, se pergunta: “Como será que esse tempo ficou no seu corpo, na sua memória?”.

E nós podemos perguntar:

– O quê a linguagem determina no sujeito? Como isso acontece?

– O quê a verdade do inconsciente deve à palavra, ao significante?

Sabemos, com Freud e Lacan, que o “mais profundo afeto é regido pela linguagem”. (ESCRITOS, p.367). Acreditamos nos efeitos da fala sobre o corpo. A descoberta de Freud se ordena em torno de algo que o sujeito não consegue nomear e que o reenvia a um vazio. Vazio que Elena toca e alude quando fala que está gorda, que come muito e que o vazio continua. Palavras e atos tentando dar conta do que não fazia sentido em sua existência. Fala de sua decadência: “agora vou me degradar e escorrer por esse ralo”. Elena, que na sua infância viveu a clandestinidade dos pais, chega a sonhar com um OUTRO LUGAR. Philippe Lacadèe fala do adolescente fugitivo que sonha com um outro lugar como forma de fuga ou errância. O OUTRO LUGAR, que atrai os jovens, aparece então como uma possibilidade de nomear o inominável do lugar subjetivo que o jovem habita, uma forma de se separar ou evitar o encontro com o gozo em demasia que perturba o jovem que não pode enuncia-lo. Elena é tomada por esse indizível, inassimilável pelo significante, e desemboca no pior.

Já Petra, faz do indizível, um mistério. Faz um percurso na direção de um mistério a ser decifrado. Segue decidida em busca dessa revelação. Revelação que se impõe de tal forma, toma uma dimensão tão grande, que ela se “alielena”. Petra diz: “Elena tomou uma dimensão tão grande que eu fui desaparecendo”. E ela segue, persegue por um tempo o rastro da ausência da irmã, repetindo, de maneira inconsolável, os ditos marcados em sua memória.

Podemos pensar o filme como uma construção, uma trama imaginária e simbólica tecida como um véu frente ao inominável, ao impossível de suportar do que se revelava como o destino da irmã e também o seu. Petra se engendra aí, tece e desfaz nós até que se separa da irmã e se apropria de um destino seu, singular. Para terminar, Petra diz ao final do filme: “Você é a minha memória inconsolável, feita de pedra e de sombra, e é dela que tudo nasce e dança.”.

Bem, “a análise é um modo novo e singular de gozar da linguagem e de fazer brotar dela alguma coisa rara!”.

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