Filme que mapeia sentidos e memórias

por: Fernanda Frotté – revista eletrônica Cais

Quando pequena, com queixo apoiado nas mãos, assistia às aulas de biologia como quem vê um filme de ficção científica. Ensinaram-me coisa ou outra sobre células, mitocôndrias, reprodução em microuniversos. Falaram-me de sistema cardiovascular, veias e vasos. Classificaram e listaram os órgãos vitais – encéfalo, coração, pulmões, rins e fígado – e deram a cada um deles uma função anatômica específica.

Eu nunca gostei de ficção científica. Já não me lembro das definições precisas de cada um. Tampouco lembro-me de seus minuciosos mecanismos de funcionamento. Mas teve uma coisa, talvez uma das poucas, que aprendi nas aulas de biologia: na ausência de órgãos vitais, qualquer um deles, o corpo para. E a vida acaba.

O que não me ensinaram na escola é que tem vezes que a vida para antes.

Hoje eu vi “Elena”, filme que mexe com emoções primitivas, com aquela tal porção de vida que ninguém te ensina como funciona e aonde acontece, mas que faz o corpo descompassar com a biologia. Filme que, com sutil delicadeza, mapeia sentidos e memórias. Filme capaz de definir coisas que cientista algum ousaria.

Distingui onde mora a impotência: nos olhos da mãe. Olhos tristes como os do cachorrinho e que também nada faziam. Nem podiam fazer, a não ser vazar água contida, contínua. Teve medo inconfundível revirando seu estômago de novamente precisar dizer ou ouvir “It hurts my feelings’. “Terror de te amar num sítio tão frágil como o mundo”, diria Sophia de Mello Andersen.

Bateu a Saudade encharcada pelo mar da concha, que remete ao longe, à ausência. Ali, bem no meio da goela, entre uma engolida salgada e outra. I’m sick of love. I turn to water.

O coração de Elena pesava trezentos gramas. Nada, se comparado ao peso do mundo.

Reconheci a angústia quando o ar que costuma circular pelos pulmões virou vento preso dentro do pote do peito; bem no centro do colo, debaixo das costelas ainda juntas. Teve a ver com o cachorrinho azul que chacoalha e tem olhos tristes. Ele não faz nada, não tem poderes especiais, apenas chacoalha e tem olhos tristes.

 

 

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