Elena – um filme universal sobre perda

por: J. Bruno – blog Sublime Irrealidade – 21 de julho de 2013

Elena tinha um sonho e lutou para que ele se tornasse realidade, de sua parte não faltou esforço nem dedicação, mas o simples passar dos dias, em um espaço de tempo relativamente curto, se encarregou de mostrar para ela que havia um mundo de solidão, dor e frustração entre o aconchego do lar que ela deixara e aquilo que ela perseguia com tanto afinco. Ela herdara da mãe o sonho de ser atriz, só que ao contrário dela ela não enxergava o casamento como uma opção a ser considerada, ela não cabia no papel de mãe e de dona de casa, sabia disso desde criança. A separação dos pais veio comprovar aquilo que para ela já era uma certeza, a felicidade esperada estava bem longe do monótono conforto de sua casa. Elena, cujo voo no teatro já tinha se mostrado bem sucedido, queria ir mais alto, muito mais alto, ela se mudou para Nova Iorque com a expectativa de tornar mais próxima a sua meta de ser uma atriz em Hollywood.

Porém, ao contrário do que a ética triunfalista no diz, não basta acreditar que o sonho é possível e às vezes o maior esforço do mundo não é o suficiente para torná-lo real. Ao se deparar com sucessivas frustrações, Elena se esgota, seu ânimo se esvai pouco a pouco e sua vida perde completamente o sentido. A arte, na qual ela tinha encontrado um razão de ser, acaba se tornando o motivo de sua morte prematura – suicídio em 1990, aos 20 anos. O documentário que leva o nome da jovem foi dirigido por Petra, sua irmã caçula, que tinha apenas sete anos quando ela se matou. No filme, o que vemos é uma tentativa da cineasta de reencontrar a si mesma em meio à culpa e ao sentimento de incapacidade que carregou consigo durante os 23 anos que se passaram desde a tragédia.

Após a morte de Elena, Petra aparenta tomar para si a responsabilidade de preencher o espaço deixado pela irmã e com o tempo a personalidade das duas passa a se confundir, em dado momento, a cineasta, que também narra o filme, conta que pessoas próximas comentavam que ele estava se tornando, fisicamente, cada vez mais parecida com a irmã, com quem não tinha tanta semelhança quando ainda era criança, ela se atormenta com isso mas acaba se apegando a esta ideia numa tentativa de lidar com o sofrimento advindo da perda. A confusão de personalidades parece se estender para outras áreas da vida de Petra e isso fica evidente quando ela opta pela carreira de atriz, aos 17 anos, decisão esta que também lhe atormenta profundamente, ela sente como se tudo isso não fosse o fruto de uma escolha, mas um fardo, legado pelo destino, do qual ela jamais conseguiria escapar.

Na busca pela irmã, que Petra faz através de seu diário, dos vídeos caseiros, recortes de jornais e de entrevistas com amigos, há um verdadeiro mergulho em questões existenciais e de identidade. A coragem da cineasta de lidar com seus próprios fantasmas pode ser notada na autenticidade de seus sentimentos, principalmente de sua dor, que emana quase palpável das cenas que ela mostra e comenta o cuidado, quase maternal que a irmã mais velha tinha com ela, quando ela ainda era um bebê, e na angustiante passagem em que ela descreve a morte de Elena e a reação da mãe e a sua própria ao receber a notícia. É algo extremamente doloroso, até mesmo de ser assistido, mas Petra conta tudo com tamanha sutileza, que torna até a dor mais profunda, sentida por uma criança diante da morte de uma pessoa querida, algo singelo e dotado de uma poética impressionante.

Li An, a mãe de Elena e Petra, surge no documentário como o galho da árvore genealógica do qual advém a extrema sensibilidade artística, não por acaso, o roteiro destaca o fato de ela também ser uma atriz frustrada, alienada de seu próprio sonho. A dor que ela sente está estampada em seu rosto sofrido, principalmente no olhar, nota-se que ela ainda experimenta o mesmo esvaziamento existencial que levou sua filha mais velha a um destino tão trágico e isso mostra que há um outro fio, além do da experiência compartilhada,  que liga as três. Há entre elas uma troca de projeções constante, como se uma estivesse o tempo todo buscando nas outras as respostas para seus próprios conflitos (isso pode ser notado até mesmo na insistência de Elena, de que a irmã também explore sua própria veia artística).

Longe de ser apenas uma busca pessoal da cineasta por alguma espécie de catarse, Elena se firma como um filme universal sobre perda, dor e frustração. A experiência que ele nos proporciona vai muito além do simples contato com a história de uma garota que morreu jovem demais, diante dele somos instigado à uma reflexão incômoda sobre o sentido que tentamos dar para as nossas próprias vidas, sobre nossos sonhos e nossas expectativas. O documentário é também um tratado sobre a arte, em seu estado mais bruto, e sobre uma entrega visceral a ela, uma entrega tão fascinante quanto destrutiva. Petra soube mesclar de uma forma sublime no filme estes dois elementos – o fascínio e a destruição – e este talvez seja o seu maior trunfo…

Em relação à linguagem, Elena representa uma espécie de rompimento com a estrutura do gênero ao qual foi associado. Ele se distancia do rigor jornalístico e abre margem em sua abordagem da história para um poética, que traz consigo uma verdadeira eclosão de sentimentos. Ao invés de usar as imagens apenas como registro histórico e como comprovação daquilo que está sendo narrado (como é comum no gênero), Petra Costa opta por extrair dos registros em VHS, que sua família guardou por décadas, diversas metáforas visuais e simbolismos, como na passagem maravilhosa em que sua mãe mostra a beleza de uma árvore em Nova Iorque e a câmera se vira sutilmente para a copa frondosa e imponente, que preenche a tela por alguns segundos, após um corte esta imagem é substituída por um registro em preto e branco que mostra galhos secos de uma outra árvore, esta aparentemente já sem vida.

Esta lógica, que predomina tanto nas imagens de arquivo quanto naquelas que foram produzidas exclusivamente para o filme, demonstra a maturidade da linguagem trabalhada pela cineasta e da eficiência da composição de sua narrativa, que mescla diversos elementos de forma tão harmoniosa  Destaco ainda duas outras passagens que também são carregadas de simbolismos, uma na qual as vozes da mãe e das duas filhas se misturam, evidenciando a confusão de identidades que experimentam, e outra, presente no último ato do filme, que representa a ‘libertação’ que Petra buscava alcançar com o filme… Ainda que Elena traga consigo uma verdade inconveniente para os que ainda acreditam que exista no universo alguma espécie de mágica que recompensará os esforçados por sua persistência, ele precisa ser lembrado, discutido e principalmente sentido por todos… Não tenho dúvidas, estamos diante de uma obra-prima!

Elena ganhou no Festival de Brasília os prêmios de Melhor Documentário, Direção, Montagem e Direção de Arte e ainda recebeu a Menção Especial no Festival Internacional de Cinema de Guadalajara e no Festival Internacional de Documentários ZagrebDox.

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