ELENA e coragem da (auto)biografia

Por Marcos Creder, no blog Literalmente – 3/11/2012 Venho me perguntando: porque as pessoas se interessam tanto pela vidas dos outros? Após o último artigo que desenvolvi sobre as biografias autorizadas ou não autorizadas, tive ainda mais algumas reflexões. Deve-se levar em consideração que há outros formatos que também exploram a vida das pessoas públicas e que muito provavelmente devem seguir, pelo menos aqui no Brasil, o mesmo protocolo do autor de livros. Falo especialmente do cinema. O cinema é mais um formato de interesse para a pesquisa biográfica e atualmente de muito maior abrangência. Para esse tema, há filmes no formato de documentário e há o formato mais comum, que são as adaptações ficcionadas da vida de determinadas pessoas – os documentários ainda, injustamente, despertam pouco interesse do público de cinema. As ficções baseadas em biografias são inquestionavelmente as mais comuns e muitas vezes por ter menos rigor de pesquisa, se distanciam bastante da vida do sujeito supostamente biografado. Nesses filmes, principalmente nas adaptações da má qualidade, muitas vezes assistimos a caricaturas mal desenhadas, com várias interpretações simplistas da vida dos heróis e celebridades, onde o personagem muitas vezes é o alterego do diretor ou do roteirista do filme. Mas esse, contudo, não é o caso do filme ELENA. Antes, quem é ou foi Elena? Foi uma jovem atriz que morreu precocemente, antes mesmo de se tornar conhecida. Para quê, então, falar de Elena? Tentarei responder. Na verdade, ELENA é o título do documentário dirigido pela jovem diretora Petra Costa. Falar que é um documentário, por si só, seria restringi-lo a aspectos apenas documentais da personagem-título. O filme vai além disso. Nele se observa a vida trágica dessa jovem atriz e, mais do que isso, conta uma outra história, talvez a parte mais corajosa. Sua história é contada pelos olhos de sua irmã mais nova, Petra, a diretora do filme. A narrativa segue em todo filme de forma propositalmente anacrônica, com relatos de fragmentos de recordações de sua infância quando sua irmã ainda era viva – Elena era bem mais velha que Petra. O filme ainda é contemplado por maravilhosas cenas de vídeos caseiros feitos quando ainda criança e adolescente. As cenas desses vídeos mostram essa Elena adolescente, brincalhona, desinibida e já com grande interesse pela carreira de atriz – uma rápida digressão: a carreira artística, a aspiração pela vida de atriz já era desejo da mãe, uma atriz frustrada. A narrativa de Petra, uma criança pequena, em que dá foco ao seu pequeno mundo familiar, dá uma beleza peculiar ao filme. Esse recurso permite várias reflexões que vão desde da vida de Elena, seu drama familiar, à vida de Petra, uma coadjuvante, que vai se mostrando paulatinamente no filme no lugar do luto, da tristeza, da perda, da raiva, da saudade. Pode-se dizer, em resumo, que o filme começa com Elena e termina com Petra – há, inclusive, aqueles que acrescentam a mãe na trama e que sugerem que intenção do filme seria tratar de uma trama biográfica familiar de três mulheres: mãe, irmã e filha. Os bons filmes tem essas vantagens permitem várias leituras e permite narrar uma tragédia sem cair no grotesco. Elena uma jovem bonita e talentosa, de bricalhona e alegre – é próprio retrato do alegria e do otimismo – sai dessa vivacidade e entra, após a separação dos pais e do primeiro fracasso profissional, num profundo quadro melancólico que levou a morte por suicídio. Conheci o filme depois de um convite que me foi feito pela Escola Brasileira de Psicanálise para debatê-lo. Que comentários eu poderia fazer, depois de assiti-lo? falaria da tragédia familiar com a morte da jovem atriz? falaria dos aspectos psiquiátricos do quadro melancólico? ou abriria debate para uma discussão mais subjetiva? enfim, falei um pouco de tudo. Hoje escrevendo esse pequeno artigo digo que esqueci de comentar um detalhe bastante significativo para julgar o artista de hoje e que Petra destacou muito bem. A arte apela por franqueza de sentimentos, inclusive, os mais difíceis de serem narrados. Nela, apesar de ser uma afirmação ingênua, se tenta dizer tudo. * * * Bergman em sua autobiografia disse que quando criança pensava na morte da irmã, inclusive no seu assassinato. Crueldade? ele antes de ser escritor diretor, cineasta estava sendo franco com seus sentimentos infantis, como deveria ser qualquer pessoa comum ou mediana. Marcos Creder

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