Elena é água

Por Maria Fernanda Cavalcanti, no blog Praça da Fabico | UFRGS – 17/9/2012

Vestidos leves de seda dançam na água em um fundo escuro quase negro. A voz que rompe a música narra e denuncia no tom a vontade que tem de reencontrar Elena. Quem fala é Petra Costa, diretora e roteirista que decidiu juntar as peças sobre a história de sua irmã Elena depois de ter embarcado para Nova York em busca do sonho de ser atriz de cinema. Na época Elena tinha 18 anos e uma vontade incontrolável de viver de arte, desejo herdado da mãe, Li An, jornalista.

Lançado em junho de 2013, o filme biográfico é um tapa doce. A película se torna um tesouro de família à medida que a maioria das cenas é retirada de vídeos caseiros, feitos pela irmã mais velha e a mãe. A estética intimista e suave dos VHS adocica uma história que aos poucos vai se revelando dura e dramática.

Em Nova York, Elena sente a força da cidade e dos seus medos e frustrações que afloram com o passar dos dias. “Será que minha raiz vai ser forte o suficiente para destruir asfaltos (…) crescer e gerar frutos?”, pergunta-se em um dos muitos diários falados que enviava à família no Brasil. Elena não gostava da sua caligrafia, por isso falava. Mas a fala que Petra procura não havia sido gravada pela irmã, é o que denuncia os silêncios em cada cena de indagação da jovem diretora.

Dança, água, movimento. Mãe e irmã caçula percorrem um longo caminho para conseguir evitar que Elena escape entre os dedos, mas não é possível. Elena é água. Então com 20 anos, a irmã mais velha deixa uma carta datilografada e procura a morte. O suicídio pode ser o fim de uma dor solitária, mas também deixa um rastro com outras tantas que nem se conhece. O rosto da mãe, subitamente marcado pela ausência abrupta da filha, já não consegue mais sorrir nos vídeos VHS. A culpa toma conta do peito e da cabeça. Em uma cena dentro de uma piscina a mãe silencia de olhos fechados, buscando Elena.

Mas o filme revela que a água que escorre bate no chão e gera vida. A narrativa de Petra é corajosa, expõe uma ferida familiar em carne viva, mas as sinuosidades do enredo mostram que logo vem a água, ainda mais forte e clara, que limpa, alivia e nutre – mesmo aquelas feridas que não podem estancar.

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