ELENA dentro de nós

Por: Victória – blog With Books And… – 11/8/2013

Quando vejo, você tá em cima de um muro. Enroscada num emaranhado de fios elétricos. Olho de novo e vejo que sou sou eu que tô em cima do muro. Eu mexo nos fios buscando tomar um choque. E caio, de um muro bem alto, e morro.

Petra está procurando a irmã mais velha que a deixou há cerca de 20 anos. Tudo o que ela tem a formação de atriz que a irmã também teve, alguns filmes caseiros, recortes de jornal, diários e cartas em fita k7 e muita saudade. Embarca para Nova York esperando refazer os passos de Elena, e vai nos mostrando, aos poucos, que isso pode não ser muito fácil. Toda a emoção que Petra carrega na voz nos é transmitida, e aos poucos estamos nós procurando por Elena, nos apaixonando por Elena, querendo saber quem foi, quem ainda é Elena.

O filme corre e vamos conhecendo uma moça que desde pequena queria ser atriz, cuja mãe teve o mesmo sonho e o pai era tão revolucionário, que nunca impediu a filha de fazer o que quisesse. Elena é o único motivo para que os pais continuem vivos, e para que, anos mais tarde, nascesse Petra. Elena parece ter sido a beleza daquela família, daquela história, daquilo tudo. Quando teve idade o suficiente para ser atriz de verdade, foi fazer teatro em São Paulo, no Boi Voador. Assim, ela ganha notoriedade local, mas ela quer mais. Ela quer as telas, e não os palcos. Não as telinhas, mas as telonas. Ela quer Hollywood ou algo próximo disso. Mas no Brasil não há como ser atriz de cinema, em plenos anos 80, mal há produções de filmes no Brasil, então ela vai para Nova York. E algo consegue roubá-la.

Esse corpo tá doente. A vida fez ele totalmente doente. Totalmente. Aquele “eu” descontrolado voltou e eu ajo como se atuasse. Percebo tudo, como numa tela de cinema, meu tempo, respiração, os olhos ficando diferentes. O mundo tá vazio, deserto, não adianta esperar por ninguém. Você tá só, completamente só. E aí, o que você vai fazer? Eu vou me degradar e escorrer por esse ralo. Agora eu tô entrando dentro dele. Que bom.

A sensibilidade desse filme é algo incrível. Petra faz com que sintamos a busca, como se criássemos uma Elena dentro de nós. A cada minuto se cria uma angústia por tê-la perdido para o que quer que fosse.

O que eu vi foi o relato de uma irmã mais nova que procura entender os estágios de depressão que a irmã mais velha foi passando. Cada estágio de se perder uma pessoa, de vê-la ficando cada vez mais fechada em si própria e se distanciando cada vez mais das pessoas que a apoiam e a querem bem.

A forma como Petra narra os fatos, sempre em primeira pessoa, me fez sentir como se fosse eu revivendo aquelas memórias de uma pessoa que eu nunca vi, mas sempre conheci. Petra fez um trabalho muito bonito e muito poético, transformando a irmã em uma nova sensação. Ao final do filme eu não sentia raiva, nem angústia, nem paixão, nem perda. Eu sentia Elena.

Assim, o filme se trata de tudo aquilo o que a gente muito quer e passa a viver de. Elena vivia pela arte, pela atuação e uma vez que pensasse em ser privada disso, se sentia mal, sentia como se nada fizesse sentido. A gente sente que a arte pode tomar conta das pessoas, e que, às vezes, pode engolir as pessoas. A gente passa a viver por algo que pode ser certo ou incerto. A gente não sabe até tentar, e quando Elena tentou, ela conseguia algo aqui e ali, só que sempre procurava mais e mais.

Me vi como a pequena Petra de sete anos que rodeava a irmã de uma forma ou outra. Esperava que ela melhorasse, que ficasse bem. Que simplesmente tivesse fugido para correr atrás do sonho de novo e não se deixasse levar pelas coisas ruins que às vezes podem dizer para a gente, principalmente quando tudo isso envolve não o que a gente faz, mas o que a gente sente, também.

Eu tô dançando com a Lua.

“Elena” não é um simples drama, um simples documentário. Esse filme parece mais uma transgressão, uma forma de prosseguir. Uma homenagem. A irmã de Petra sempre quis fazer parte do cinema, e agora, depois de 20 anos, faz.
Os depoimentos são de um sentimentalismo imenso, nos mostram a falta que as pessoas realmente podem sentir de alguém. Mesmo que a ela ainda esteja por aí, de qualquer forma, em qualquer forma, o filme relembra todo o luto da irmã mais nova e da mãe, acerca das decisões de Elena.

Não é um filme para todas as pessoas, não é para a sensibilidade de todas as pessoas. Por se tratar de tantos cortes, de tantas situações e narrações, alguns espectadores talvez não diferenciem as falas de Petra e a citações de Elena, mas de qualquer forma, o filme pode tocar e chegar a qualquer pessoa.

Por se tratar de uma produção nacional que foge do estereótipo de drogas, periferia, polícia, política e violência, e se volta para questões mais humanas, sobre, talvez, a parte difícil de um sonho de fama e grandeza, de ser sobre problemas psicológicos e a tristeza que uma pessoa possa abrigar em si, “Elena” merece que muitas pessoas o vejam, que as salas de cinema de quase todo o Brasil tenham um horário reservado para o filme, não só seis ou sete cinemas espalhados por todo o Brasil.

Deveríamos ver mais dessa realidade, ou simplesmente ver mais realidade nos filmes, brasileiros ou estrangeiros. “Elena” supriu todas as expectativas que eu tive quando vi os trailers e comentários.

É um filme puro. Sem apelos. Sem superexposição. Serve para que repensemos o que acontece com as pessoas ao nossos redor, o que será que a mãe e a irmã de Elena sentiram depois disso. O que a gente sentiria depois de algo assim.

Vi a arte de uma forma que nunca tinha visto antes. “Elena” me fez ter vontade de entender o que a atuação proporciona à pessoa para que muitas se sintam bem com isso.

E também me deixou um certo medo de que qualquer coisa me consuma e me engula. Da mesma forma de a engoliu. Da mesma forma que pode engolir e consumir qualquer pessoa.

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