Ela, elas, Elena

por: Carlos Alberto Mattos – …rastros de carmattos – 10/6/2013

A julgar pelo que se vê e ouve na tela, as pulsões da arte e da morte parecem se digladiar na família de Petra Costa. Elena, o filme, é a mise-en-scène dessa luta. Uma artista sensível mune-se de todas as armas a seu alcance para exorcizar uma dor, uma lacuna que, paradoxalmente, a preenche e constitui.

Num dado momento do documentário, quase num sussurro, Petra se pergunta qual é o seu papel nesse filme. Ela é a autora, claro, mas é também uma personagem e principalmente uma atriz. Vozes familiares contam que desde cedo ela se parecia com Elena, a irmã mais velha que se suicidou muito jovem em Nova York quando ela, Petra, tinha sete anos. Alguns até a chamavam de Elena, sem querer. Petra também passou por fases de depressão, pensou em morrer – como a mãe delas algum dia – e também seguiu a carreira de atriz que Elena não logrou consolidar. Petra tem consciência do laço atávico que une essas três mulheres belas e tristes. Por isso não hesita em deixar-se confundir com a irmã. Em boa parte do filme, ela é uma atriz numa espécie de papel duplo: dela mesma e de Elena.

A fronteira entre o documentário e a performance é portanto bastante líquida em Elena. É nessa passagem que Petra Costa realiza seu intento: não exatamente dissolver a morte, essa presença sempre tão iminente na vida de sua família, seja na militância política dos pais durante a ditadura, seja mesmo nas danças em que Elena parece se enforcar. Mas sim transformar as perdas, com seu cortejo de medos e culpas, em coisa mais transcendente e afirmativa como a arte. Petra e a mãe evoluem do relato para a encenação com bastante sutileza, falando de Elena e colocando-se logo em seguida no lugar dela. É com uma ternura infinita e numa estrutura espiral que Petra e Elena se contemplam, se misturam e se confundem nas duas dimensões do tempo. O filme é tanto sobre a lembrança quanto sobre a necessidade de esquecer – e isso é o mais duro para qualquer perda.

Petra arrasta alguns mitos para lhe ajudarem a dar conta de tão pesada tarefa: Ofélia, a angelical personagem de Shakespeare que se afoga entre flores num rio; a Pequena Sereia, que deseja passar para o mundo dos humanos. Poderia ter agregado as apsaras, ninfas dançarinas indianas ligadas à água. Não há no filme nem a objetividade dos relatos documentais nem a subjetividade puramente confessional dos filmes em primeira pessoa.Elena busca uma terceira via, que é a transformação do fato em memória e desta em reinvenção formal.

O modelo do filme-carta geralmente se presta a derramamentos de emoção, o que Petra Costa evita pela adoção de um permanente tom menor e uma grande delicadeza na inserção de filmes domésticos, correspondência e depoimentos. Em compensação, abusa um pouco dos efeitos óticos e da narração em off. Essa minha percepção vai variar muito de acordo com o senso de medida de cada espectador. Afinal, o projeto é de tal forma pessoal que só a nível pessoal pode dialogar com o público. Elena corre o risco de parecer bonito demais, ainda que essa beleza seja a própria matéria de que é feito o seu dolorido encantamento.

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