Devorada pelo passado

Por Nashla Dahás, na revista Historia.com.br – 5/9/2013

Muitas vezes, não há nada que possamos desejar com mais força do que reconstruir a própria história. Não parece trabalho para amadores, dizem, na verdade, que é preciso algum tempo até que se possa deparar com a autoimagem. O ideal seria nascer de novo. Mas na falta dessa alternativa, há a possibilidade muito humana da criação de sempre novas relações com o passado. De fechar os olhos e percorrer capítulo por capítulo, linha por linha o drama de nossa existência. E então não haverá um personagem principal, uma esfinge para decifrar, mas apenas as nuances dessas relações a esgarçar, pouco a pouco e sempre de forma mais intensa, as camisas de força que compõem a identidade.

Ao tentar reconstruir fragmentos de sua irmã mais nova, Elena aponta a câmera para o céu e dança com a Lua. Ainda na barriga da mãe salva toda a família de um destino trágico bastante comum às militantes de esquerda capturadas pela ditadura militar brasileira nos anos de 1970. Mais tarde, Elena projetaria em Petra Costa toda a espontaneidade, toda a liberdade que não pôde ter ao crescer na clandestinidade. Absorvera o deslocamento interno no qual vivia a própria mãe e, sem pai, estabeleceu com a irmã uma relação de transferência em que toda a sua disposição para a vida jorrou na direção de uma ponte que ligasse as três. Se essa é a versão contada por Petra em seu primeiro longa, Elena, nunca se saberá ao certo; talvez seja apenas a minha, muito mais interessada em capturar impressões daquele complexo de sentimentos ligados à família que, em alguma medida, nos faz ser quem somos em qualquer lugar ou tempo, do que com suas circunstâncias reais, se é que elas existem.

Decepcionada com a tristeza que abatia a irmã agora em depressão, Petra aos seis ou sete anos colou um band aid na pele sem que houvesse machucado algum. “Se você quer chamar atenção de verdade aprenda a fingir direito. Você acha que alguém vai acreditar em você com uma band aid no meio da testa? Cole no cantinho e jogue a franja na frente, como quem quer esconder suas feridas”, disse Elena puxando a menina pela braço e didaticamente lhe ensinando sua regra básica da vida adulta desde criança: representar. Afinal, pode parecer bem mais fácil ser um ídolo, um santo, um artista, do que ser uma pessoa comum, com uma vida inteira de comportamentos responsáveis, disciplina e renúncia, a cumprir e a pesar.

Até mais ou menos os anos 70 do século passado, por exemplo, a história costumava ser vista, de maneira muito geral, como uma trajetória linear dentro da qual a humanidade poderia olhar-se, movendo-se através do tempo, este senhor onipotente no campo das transformações. Por si só, essa ideia pode ter influenciado a vida de um sem número de pessoas. Ao acreditar, quase inconscientemente, que os indivíduos se deslocam através do tempo, pôde-se imaginar que o passado ficava para trás, importantes pontos de orientação que, do presente, do agora cada vez mais distante do que deixamos pelo caminho, podemos analisar para melhor seguir em direção a um horizonte novo e aberto, cheio de possibilidades.

O que se vê no filme é em grande medida o contrário disso. Com o passar dos anos, é o passado que corre furiosamente do mais fundo de cada personagem até transbordá-los, inundando os seus presentes, rompendo qualquer fronteira temporal. Esse passado não tem forma nem materialidade, mas, talvez, aproxime-se de um nome, a angústia. Elena aparece em imagens de vídeo caseiro e, portanto, em imagens tão reais quanto isso possa ser atordoante, injetando na irmã durante toda sua própria meninice, os seus desejos íntimos de aparecer, de brilhar como uma grande artista, de dançar livremente, de sentir prazer com isso, de ser olhada com admiração. Além disso, ela também lhe dá banho, penteia os cabelos, veste suas roupas, e diz os nãos necessários, ou nem tanto: “Petra, canta vai, você vai ser uma artista, tem que treinar, canta pra mim”. “Não”, responde a menina com voz de menina, “estou tomando banho, quero brincar aqui”. No que a mais velha responde: “Então vou embora, estou saindo do banheiro, vou te deixar aí sozinha tá?”. Pouco antes de Elena atravessar a porta para sair do cômodo, Petra começa a cantar com olhar arteiro.

Quando, enfim, o Brasil começa a suportar algum tipo de oposição política e a família de Petra pode sair inteira da escuridão, Elena vai para os Estados Unidos “ser estrela de cinema”. Em casa, em sua terra, onde já fazia algum sucesso como atriz de teatro e dançarina, sobretudo no que diz respeito à sua expressão corporal, bastante elogiada pela crítica, há muita falta, sempre falta, e tudo é pouco. O público que ela encontra no exterior, porém, parece bem mais exigente que os olhares atentos da irmã. E então, novamente, há falta, há saudade, e falta, e falta e falta, e angústia. Ela engorda, deprime e morre.

À época do suicídio mãe e irmã já moram com Elena em Nova York e em certa noite ela chora, chora muito. A mãe entra no quarto, cansada, pede que ela não se esqueça de levar a irmã ao colégio “amanhã bem cedo. Vou deixar o despertador aqui do seu ladinho”, e vai para sua cama. De lá, escuta a filha chorando, convulsivamente, quase por toda a noite. Nunca mais haverá um diálogo entre elas. Assim como não há mais mãe, Elena ou Petra, elas se fundiram, de modo que cada uma tinha tornado a outra o que era. Histórias acumuladas, passados incorporados, identidades cruzadas e dependentes, violência contida, vazio irreparável, futuro fechado para qualquer prognóstico, uma ameaça, sempre à espreita, todo o dia, o dia todo, a impedir o nascimento da individualidade, uma nova identidade, liberdade por fim.

Foi Hans Ulrich Gumbrecht, um “estranho professor de literatura” da Stanford University – para usar as suas palavras -, quem mais recentemente ouvi falar sobre as relações que estabelecemos com o passado depois que ele perdeu sua função de ensinar coisas ao futuro. “Para nós”, disse ele, “o pensamento afirmado pelas teorias hegelianas e marxistas, segundo o qual o presente seria constituído por regularidades históricas passadas, uma fórmula básica e abstrata de pensamento que iria voltando regularmente, porém, sempre de forma diferente, parece cada vez mais exausto, desde meados dos anos 70, cada vez menos potente em sua capacidade de explicar de maneira exclusiva os nossos presentes”.

Ele sugeria um esforço no sentido de construir uma maneira alternativa de pensar um presente cujas situações seriam “uma continuação da evolução humana por meios culturais e, portanto, fora do que podemos ter esperança de controlar”. Esse “amplo presente”, incluiria agora todos os passados de memória recente, para os quais a tecnologia, diga-se de passagem, não se cansa de inventar novas formas de atualização, além de criar mundos simultâneos virtuais, privados, públicos, cujo choque costuma causar imensa decepção. Ao mesmo tempo, o fechamento contínuo das possibilidades de futuro diferentes do passado-presente (pelo menos em sentido estrito) impossibilitaria o agir, pois ação alguma pode ocorrer onde não há lugar para sua realização ser projetada.

Em algum momento, ele se pergunta: “Nós que somos mais velhos não temos o direito de permanecer em nossas ilhas tanto quanto possível? Por que deveríamos nos adaptar de modo desajeitado às demandas da eletrônica que dominam o novo presente? Já estamos vivendo em um vasto momento de simultaneidades. Não há necessidade de nos alijarem – nós que fazemos parte dos muitos passados – de nossos paraísos no amplo presente”.

Sem entrar na discussão densa empreendida pelo professor alemão sobre as novas possibilidades teóricas de compreensão das várias faces desse presente, que inclui tão claramente o passado, talvez, Elena ao suicidar-se lhe sugerisse também uma resposta.

O mundo que permitiu a história de Elena e Petra é aquele que sobrevive à ditadura, à censura, à castração da imaginação, da fala, da comunidade como algo positivo, no sentido de ser comum, ou igual. Elas são, igualmente, suas filhas, mas em ritmos diferentes. Elena se vê asfixiada pelas sequelas, pelos rastros familiares desse passado, de maneira que se torna impossível exilar-se em sua ilha de afeto com a irmã que cresce a cada dia. Ela filma suas cenas de desespero e solidão porque não gosta de sua própria letra, não há uma única cena de diálogo entre as três em todo o longa, o fracasso a devora e ela não consegue simplesmente se reinventar, não se rebela contra a própria imagem. Vale contar que as mais belas cenas de sua atuação profissional aproximam-se do sofrimento físico, como quando usa a força para girar cordas em torno de si repetidamente até quase se enforcar no palco.

Petra Costa, hoje com 29 anos, pôde retocar o retrato da irmã e fazer emergir abertamente seu passado, de uma maneira que soaria totalmente impensável à Elena. A tecnologia, aliada forte deste “amplo presente”, foi utilizada por ela para alimentar o desejo de salvar sua própria individualidade, de confessar em público sua perda, sua incompletude, sua dor.

Como diria Clarice Lispector, outra mulher acostumada a descrever experiências íntimas sem falar diretamente sobre elas, sem banalizar o passado de exílio, assim como seu desejo intenso por recontar a história de seu nascimento, ao olhar para si mesma: “vamos ver quem devora quem”.

 

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