De Elena e o resto do mundo

por: Maria Mariana – blog Progressistando – 29/7/2013

Uma espécie de resenha que escrevi sobre o documentário ”Elena”, de Petra Costa (e que vai compôr, um dia, um post que pretendo escrever sobre depressão).

ELENA é um filme que não toca nas feridas – ele as escancara, faz sangrar. Mas pode ajudar na cicatrização, também.

Em nenhum momento, grandes tragédias são retratadas. Elena não nasceu deficiente, não é pobre. Mas tem uma doença terminal. Ela sente o mundo, com todos os seus defeitos e, mais do que isso, aquela efemeridade que parece invalidar mesmo as tentativas de beleza (a arte, por exemplo). O filme retrata, de forma belíssima, tanto suave quanto densa (na medida certa, um mérito da diretora e irmã), o vazio existencial que muitas vezes preenche a nós todos. Trata-se de uma tristeza pungente, por vezes insuportável, desesperadora. Não há família, amigos, sonhos, Nova York, que preencham esse buraco – e há momentos em que a esperança desaparece, e ficamos no escuro.

Acredito que todos sejam assombrados por essa tristeza em algum momento da vida. A institucionalização mental do sentimento, no entanto, atinge muitos, mas não todos – é a depressão, o ‘’mal do século XXI’’. Um transtorno mental que borra os contornos da sanidade e pode fazer das pessoas mais ‘’felizes’’, verdadeiros cacos. A crueldade da tristeza é gigantesca – é uma doença, por si só, invisível, que devasta antes de aparecer. Mata sem que ninguém saiba, um fantasma cotidiano. É a morte no espelho. Como Petra, diretora do filme, respondeu à sua amiguinha quando, vendo Elena imóvel, enrolada em um cobertor, perguntou ‘’O que ela tem¿’’ ‘’Ela é assim.’’ Somos assim. Os mais sensíveis, as Elenas, concretizam o desejo em um grito (não mais silencioso) de socorro. Mas, muitas pessoas convivem com sua própria tragédia durante toda a vida. A maioria, posso dizer sem medo de errar, sente isso ao menos de vez em quando. É o elefante no canto da sala.

Um grande mérito do filme é, de forma bastante sensível (mais do que poderia se imaginar) escancarar essa realidade escondida, extremamente difícil de se expressar. Não baseia seu drama em uma desgraça, mas na tragédia da vida humana (não seria a maior de todas). É fluido, quase borrado, mistura irmãs e mãe, confundindo o espectador em certos momentos. Isso porque, embora Elena tenha sentido mais intensamente, tenha sucumbido ao desespero cortante da depressão, à desesperança que nos acomete em certos momentos, às incertezas e à passagem do mundo na frente de nossos olhos impotentes, ela, em muito, se assemelha à irmã mais nova, à mãe, e a nós, que assistimos o filme (e a todos os outros). Elena, sensível, humana.

Por fim, Petra Costa transmite uma mensagem importante, por meio da sua força (talvez sobre-humana para alguns) em relatar, de forma visceral, sua história, sua família, suas fraquezas. Mas, além disso, revela também a possibilidade que nos interessa a todos – a sobrevivência. O levantar diário e o olhar para o espelho (para o passado, para a morte, para si) e a quebra das expectativas mais óbvias. Petra transforma em poesia, em uma colcha de retalhos formada por lindas imagens e sons, a luta diária de muitas pessoas, através da sua específica (também de sua mãe, e especificamente Elena). ELENA é universal, e por mais que isso possa ser desolador, também pode significar um ponto de luz.

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