Crítica Elena (Elena / 2013 / Brasil) dir. Petra Costa

por: Lucas Wagner – Mestre de Obras – 22/6/2013

Analisar o documentário Elena se revela um desafio considerável, já que estamos lidando com um material extremamente pessoal e subjetivo trazido pela diretora Petra Costa. Assim, julgá-lo como, por vezes, emotivo e melodramático demais pode ser até mesmo uma injustiça, já que estamos enxergando um relato sofrido e até corajoso da diretora, que ousou usar o Cinema como ferramenta para explorar as consequências que o suicídio de sua jovem irmã mais velha teve nas vidas de Petra e sua mãe, e como essa experiência trágica serviu para definir o curso do resto de suas vidas. Elena é, acima de tudo, uma carta de Petra à sua irmã, dizendo tudo que sempre quis dizer mas que não seria possível. E por isso só já é uma empreitada no mínimo admirável.

Garota sonhadora, Elena sempre quis trabalhar no Cinema, como atriz. Buscando em Nova York a realização desse sonho, a garota foi sofrendo paulada atrás de paulada ao ver como esse seu objetivo parecia cada vez mais distante, o que desencadeou uma depressão que a encurralou, fazendo com que o suicídio fosse a única saída viável. Nesse sentido, é de partir o coração o modo carinhoso como a diretora explora a vida de sua irmã mais velha, até mesmo na narração (da própria diretora), que transmite toda a tristeza e o amor que nutria por essa. Utilizando, em sua primeira metade, um rico material de vídeos em VHS que foram filmados pela própria Elena durante os anos 80, quando Petra ainda era bebê ou muito novinha, somos introduzidos na vida familiar da personagem título, e assim somos capazes de encontrar na menina cheia de energia e jovialidade um triste contraste com a moça jovem que se matou. Mais importante nessa primeira metade é enxergarmos o amor absoluto que Elena tinha pela irmã mais nova, tratando-a como uma princesa e amiga desde que nasceu, a enchendo de beijos e abraços, e assim se transformando num modelo para Petra. Ainda nessa primeira metade, a “alma artística” de Elena fica evidenciada por atitudes cheias de poesia, como se mostrar toda empolgada ao perceber que conseguia fazer a Lua “dançar” com seus movimentos com a câmera. Aliás, a figura da mãe de Elena se mostra uma enorme influência para essa “alma artística”, algo que Petra demonstra em gravações como quando a mãe se interrompe em um depoimento para apreciar a beleza de uma árvore, ou pela própria história de sua juventude, que em todo momento parece cinematográfica.

Funcionando, como disse, como um modelo para Petra, quando se mata, Elena balança o mundo da diretora, então apenas com 7 anos, de uma maneira estrondosa. Sem idade suficiente para se situar de forma saudável quanto ao que aconteceu, a diretora cria defesas psicológicas complexas para se comportar nesse “novo mundo”, buscando, inclusive, proteger a mãe de qualquer perigo para que ela não morra também, desenvolvendo uma espécie de transtorno obsessivo compulsivo que envolvia diversos comportamentos supersticiosos, como não comer sal ou subir de joelhos as escadas de seu apartamento. Essa desestruturação que a morte de Elena causou sobre a irmã a marcou de uma maneira indelével, e a melancolia ininterrupta pela sua morte, mesmo anestesiada pelo tempo, nunca deixou de exercer influência, e assim, Petra acabou se tornando, à sua própria maneira, Elena, o que esta não viveu, alcançando o que esta não conseguiu alcançar. Assim, é uma linda ironia que a morte de Elena, para quem a Arte era tudo, tenha sido o ponto de partido para criar uma peça de Arte, nas mãos da irmã ao realizar esse filme. Mais fascinante ainda é notar que Petra tem plena consciência disso ao constantemente se filmar de costas ou apenas sua sombra quando caminha por Nova York, o que impede que enxerguemos seu rosto, mas apenas as similaridades que esta tinha com Elena. Inclusive as semelhanças físicas das duas são ressaltadas quando a diretora, na narração, lembra comentários de várias pessoas sobre as similaridades físicas das duas.

Pois Elena não é apenas um filme sobre a morte da jovem do título, e por isso se estende por muito mais tempo depois que seu suicídio é narrado. A formação da identidade de Petra é um foco enorme, assim como o modo como a mãe se comporta depois da morte da filha. Mulher forte e admirável, procurou dedicar a Petra o amor e apoio que esta precisava, embora ela mesma precisasse de amor e apoio. Assim, a decisão dela de dar vários depoimentos ao longo do filme é, no mínimo, corajosa, cavando numa ferida poderosa, mas, como Petra, tentando encontrar na Arte um alívio para sua melancolia.

E o filme é mesmo um grito de tudo que estava estalado na garganta de Petra (e da mãe), uma busca de um alívio para algo que ela bem sabe que não tem alívio. Através da Arte, Petra busca reconciliar-se consigo mesmo, encontrar uma ordem e (por que não?) até se compreender melhor. E, vale de dizer, ela é uma artista formidável, que demonstra, mesmo em um trabalho tão emotivo e particular, encontrar maneiras elegantes de se expressar. O simbolismo da água é assim, mesmo bem óbvio, eficaz, principalmente quando a vemos levantando o rosto que antes estava submerso. O raccord que ela insere em certo momento, quando corta do seu rosto para o da mãe, é cheio de significados, assim como quando as três (mãe, Elena e Petra) estão partindo em viagem para Nova York e a diretora filma a janela do avião cheia de gotas de chuva, como que simbolizando as lágrimas que viriam a ser derramadas.

Experiência melancólica mas que trás um sofrido senso de otimismo em relação à vida e à mudanças (como vemos na cena em que Petra, a mãe e diversas outras mulheres aparecem boiando em águas calmas, simbolizando tantas pessoas que lutam para encontrar paz nas águas do luto), Elena é mais do que terapia para sua diretora: é um diário, é uma carta… é talvez um acerto de contas com sua irmã e com sua própria vida, ousando enxergar a si mesma como realmente é, não fantasiando sobre algum dia superar a morte de Elena, mas compreendendo como essa morte a moldou e fazendo o possível para viver o melhor que pode com quem ela é, aceitando-se por completo e por isso mesmo encontrando certa paz.

Nota: 10,0 / 10,0

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