A irmã que nunca tivemos

Por Cibele Chacon, no blog Às Moscas – 1/10/2013


“Elena, sonhei com você essa noite.” Palavras de Petra Costa ao mergulhar em suas memórias, desvendando a si mesma através da busca pelos caminhos da irmã, Elena. Em um documentário extremamente pessoal, a cineasta nos guia por meio de sua voz em uma trilha estreita de lembranças dolorosas e perguntas deixadas na gaveta que são, agora, inevitáveis para compor um retrato delicado sobre perda, saudade e (re)descobrimento.

Elena tinha 15 anos quando os pais se separaram e, talvez, isso tenha a afetado profundamente, não se sabe, já que ela simplesmente se afasta – conscientemente ou não – para se preservar. Decide se mudar de país e viver como sempre quis, atuando. No meio da busca desse sonho, Elena não consegue mais sustentar a constante alegria, mostrando um vazio imensurável. Esse sentimento a tornou incapaz de fazer arte, e não conseguindo fazê-la, preferia a morte.

Petra tinha apenas sete anos de idade quando Elena morreu, mas sempre teve o desejo do reencontro aparentemente impossível com a irmã, reaproximando-se dela ao refazer seus passos em Nova York e ao fazer escolhas semelhantes na vida. Mostrando essa trajetória, a irmã e diretora não constrói um filme apenas para si e consegue expandi-lo para além das recordações, universalizando os sentimentos de quando o espaço ocupado por alguém começa a se tornar vazio. De quando a presença se torna ausência e o que resta é escavar as lembranças.

Quando a vida é interrompida de maneira voluntária, é mais do que natural a pergunta de quem ficou para quem se foi, mesmo que a resposta impossível. E o caminho percorrido pela cineasta para que possamos conhecer quem foi – e ainda é – Elena traz inúmeras imagens registradas em VHS pela família, desde quando Petra era uma menininha até quando se deparou com o significado da morte e precisou carregá-lo consigo. Nesse misto de arquivos guardados e de imagens atuais, a jovem diretora demonstra imensa segurança e senso estético. A delicadeza para narrar a relação com a primogênita é fruto de um belíssimo roteiro escrito por ela em parceria com Carolina Ziskind, e conta com o auxilio de uma trilha sonora pontual e cuidadosamente escolhida.

O filme ELENA se utiliza de buscas detalhadas, revelando desejos e emoções contidas por meio de diversos planos fechados que conseguem aproximar o universo das irmãs – e também sua mãe – de todos que o assiste. Com a câmera percorrendo as ruas em busca do passado de Elena e do presente de Petra, as duas voltam a se encontrar, mesmo que apenas uma possa viver o futuro. Nesse sentido, o documentário não é apenas sobre a personagem-título, mas também sobre a cineasta, que carrega as lágrimas e o sorriso na voz e nos permite visitar seus pesadelos, dores e fragilidades, tanto quanto os de Elena. O longa é a criação de aura quase onírica, ao mesmo tempo sensível e angustiante, mostrando como as marcas, mesmo que nem sempre tão visíveis, continuam lá, assim como as dores.

As feridas deixadas pela partida precoce de Elena são claras nos olhos e nas vozes de todos que dividem as lembranças ao longo do filme, principalmente sua mãe. Nesse aspecto, é importante dizer que o documentário é um relato também de coragem, tanto de quem escolhe viver quanto de quem desiste da vida. E fica bastante claro que, independente da morte, cada fragmento das lembranças sobre Elena nunca abandonaram Petra e, agora, também a todos que a conheceram por meio dessa homenagem e resgate. Elena é como se fosse a irmã que nunca tivemos.

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