A experiência de conhecer Elena

Por: Rodrigo de Lorenzi – Gazeta do Povo – 31/8/13

O documentário Elena, triste e profundo, é a dica de Rodrigo no Tá Dito desta semanaQuando decidi escrever sobre o documentário Elena, fiquei um pouco pensativo se deveria ou não fazer isso. Por um simples motivo: não é fácil assisti-lo, pelo contrário. Dilacera, machuca, emociona e dói. Foi quando entendi que, afinal, o filme aborda os dramas da passagem para a vida adulta e o sentimento de inadequação ao mundo vivenciado por boa parte de nós jovens.

Petra Costa, a diretora do documentário, tinha uma irmã 13 anos mais velha, chamada Elena, que sonhava em ser atriz de cinema. Elena vai morar em Nova York para tentar carreira cinematográfica e descobre um mundo cheio de poesia. O mercado, porém, não dá chances a ela, que desenvolve uma depressão grave. Petra, depois de crescida, segue os passos da irmã: vira atriz, muda-se para Nova York e decide buscar a memória de Elena, que desapareceu do mundo aos 20 anos. É dessa busca que nasce o documentário.

Por meio de diversas imagens caseiras, gravadas quando Elena ainda era adolescente e Petra criança, a diretora nos coloca dentro da vida da irmã e dentro de sua própria vida. Extremamente pessoal, Petra reconstrói a história da família pela visão da mãe, até chegar ao vazio existencial que vai devastar não só Elena, mas todos ao seu redor. A partir daí, já somos íntimos de Elena, queremos conhecê-la e saber o que houve com ela. Mais do que isso, nos identificamos com sua tristeza. Petra narra o documentário sempre falando diretamente para a irmã, como se ela estivesse ali, assistindo sua própria história. “Hoje eu ando pela cidade ouvindo a sua voz e me vejo tanto nas suas palavras que começo a me perder em você”.

Em cada frase dita, nos perdemos em Elena, em Petra e em sua mãe. Em determinados momentos não sabemos mais quem é quem e as semelhanças assustam. O resultado é um mergulho de 82 minutos que sufoca e te deixa com um nó na garganta, para depois te deixar respirar em uma poesia que liberta.

Assisti a ELENA duas vezes antes de escrever esse texto e ainda sinto que não consigo dizer nem metade do que o filme representa. Muito mais que um documentário, Elena é uma experiência. “As memórias vão com o tempo, se desfazem. Mas algumas não encontram consolo, só algum alívio nas pequenas brechas da poesia”, diz Petra. Quando o filme termina, o sentimento é doloroso, uma dor universal que, inevitavelmente, todos sentirão ao longo da vida: a ausência da presença.

Índice

(345 artigos)