A elevação de ELENA ou como tocar o impossível

Clarissa Metzger, psicanalista*

Empreendo aqui uma breve discussão sobre o documentário ELENA, de Petra Costa, do ano de 2013, em articulação com o tema da sublimação, principalmente a partir das indicações de Lacan nos Seminários 7 e 16.

Em Elena, a diretora conta sobre sua irmã, de mesmo nome, morta aos 20 anos, quando Petra tinha apenas 7 anos de idade. Conta também sobre a relação das duas irmãs e os efeitos que a morte prematura de Elena causou em Petra e na mãe das duas. A identificação de Petra com Elena é evidenciada em vários momentos do documentário, a despeito das soluções diversas que cada uma delas produziu frente às questões da separação – e esse é o ponto que pretendo especificamente abordar aqui.

O argumento do documentário, desenvolvido com competência, por si só talvez já fosse suficiente para que o filme garantisse seu nicho no mundo dos documentários. Mas o que de fato toca de modo ímpar a quem cruza com Petra e com Elena no filme está mais além – ou aquém – do argumento e da competência técnica, que certamente o filme também tem.

Ao (re)construir algumas de suas próprias memórias, a diretora também busca resgatar quem era Elena – e para isso empreende uma pesquisa ampla sobre ela. Mas parece-nos que o efeito que o filme causa se deva mais ao trabalho realizado por Petra do que à personagem Elena e sua história. Não que a personagem ou a história sejam pouco interessantes, mas para aquilo que nos concerne discutir, é o tratamento que Petra dá à ambas que proporciona ao filme a qualidade peculiar, seu caráter sublimatório, que aqui aponto.

Embora Petra se refira constantemente à Ofélia – e o filme faça alusão à personagem shakespeareana, é o próprio Hamlet quem se pergunta sobre o ser – questão crucial da constituição do sujeito, que fica à descoberto de um modo peculiar na adolescência e que se apresenta no documentário, tanto na voz de Elena quanto no que narra Petra sobre suas próprias dúvidas e questões adolescentes. Questões que sem dúvida remetem a um nível de separação do Outro que entra em jogo no momento em que esse sujeito – a partir da operação adolescente – tem que fazer escolhas pelas quais responderá integralmente.

Destaco dois temas intimamente relacionados: separação e criação. Ambos se articulam pela idéia de passagem, na medida em que a separação é ela mesma passagem que, para se efetuar, pede uma criação singular. Criação singular aqui pensada como ato do sujeito. Nesse sentido, o documentário de Petra parece anunciar sua maneira de executar a passagem de que se trata.

É o vazio deixado pela ausência de Elena que impulsiona Petra a criar seu filme. É a experiência traumática que ultrapassa qualquer inscrição, que aponta para o que não cessa de não se inscrever, que move Petra em sua criação. Paradoxalmente, é sobre o impossível de dizer que ela fala todo o tempo em seu filme.

Por outro lado, é de separação que se trata no documentário: a separação impossível para Elena de seus ideais inatingíveis na arte, separação do Outro que permita a instauração para o sujeito de um desejo feito seu, separação que também diz respeito, portanto, a própria Petra, autora do documentário.

Seguindo as indicações de Maria Cristina Poli (2004) e Sonia Alberti (2009), retomemos as operações de alienação e separação para pensar a adolescência. Nesse sentido, minha intenção é discutir esse aspecto da operação de separação que está em jogo na adolescência para pensar o filme Elena, levando em conta a sublimação como possibilidade nessa operação. Por outro lado, deixo aqui apontado, ainda que não possa avançar nessa discussão no momento, aquilo que pode nos auxiliar a pensar na sublimação como tratamento do gozo.

A separação só pode se inscrever a partir de um momento inicial de alienação, momento no qual o sujeito, para existir no simbólico, se aliena na linguagem – o que é correlato a se alienar no desejo do Outro. O Outro de que se trata é esse que preexiste ao sujeito e determina as interpretações de suas produções, de seus sonhos, chistes e atos falhos (Alberti, 2009, p. 36). Em suma, trata-se do simbólico. Assim, a alienação implica que o sujeito passe a ser representado por um símbolo na ordem simbólica, ou seja, por uma marcação de lugar nessa mesma ordem, ao passo que o ser é descartado. Lacan refere-se à alienação como uma primeira operação que funda o sujeito (Lacan, J. 1964/1985 p. 199) e, portanto, logicamente anterior à separação, que a sucede.

Lembremos que a separação do Outro não é a separação dos pais, que, como nos recorda Alberti (2009, p. 37), se dá antes da puberdade. A separação dos pais é diferente do desligamento da autoridade desses mesmos pais, essa sim em jogo na adolescência. Nesse sentido, M.C. Poli (2003) traz uma precisão, ao situar a questão na mudança de posição do sujeito adolescente em relação a esse Outro.

O “esvaziamento do fantasma infantil” aponta para o rompimento com uma significação e o reconhecimento de uma criação, uma invenção do adolescente, o que está incluído na direção de análise proposta por Poli. Essa autora ressalta a importância do ato de criação do sujeito adolescente, na medida em que se refere à “versão do pai” que esse sujeito possa criar.

Para além da separação, mas em articulação com ela, a questão da diferença sexual se apresenta na adolescência de um modo novo. A impossibilidade da relação sexual – do pleno encontro – ou seja, a presença do real impossível que não cessa de não se inscrever, que na infância pode ser obliterada pela promessa do futuro: quando eu crescer…- se apresenta na adolescência sem recurso, como impossibilidade de completude, à qual o adolescente se vê impelido a responder (Alberti, S., 2009).

No campo da neurose, a resposta à incompletude necessariamente comporta um ato do sujeito no sentido de um reposicionamento perante o Outro que em certa medida comportaria um “descolamento” do Outro, essa mudança de posição a que nos referimos há pouco.

Para Petra, trata-se da separação impossível de Elena, misturadas como retrata de diferentes maneiras o documentário, que se confunde com a separação do Outro. Separar-se carregando as marcas da separação. No entanto, se é de separação que fala o filme, é correlativamente de passagem. Rituais de passagem, crises se passagem. Passagem para onde? O descolamento do Outro implica mudança de posição do sujeito frente a seus ideais. Nesse sentido, a operação adolescente não pode ser circunscrita a uma idade ou faixa etária específica.

Frente à angústia e ao vazio das crises existenciais, as duas irmãs buscaram soluções muito diferentes. Não vendo outra saída, Elena foi de encontro ao vazio, em cheio. Passagem ao ato. Petra, diferente disso, contorna o vazio, delimitando-o. Traça um litoral. Tangencia, faz alusão. Não nega o furo que é o vazio, mas também não sucumbe a ele. Toca-o delicadamente com sua criação – com seu filme – e com ele, fala do impossível de ser dito. Faz um ato de passagem. Parece-me lícito supor que esse ato possa comportar algo da ordem da sublimação. Assim, entendo que o filme Elena faz jus ao conceito de sublimação formulado por Freud e revisto por Lacan.

O documentário é tecido ao redor de uma ausência e de seus efeitos, vazio homólogo ao vazio central de das Ding. O vazio criado com a morte da irmã nunca desapareceu. Mas ela realiza, com seu filme, um tratamento do vazio deixado por Elena: “As memórias vão com o tempo. Se desfazem. Mas algumas não encontram consolo. Só algum alívio, nas pequenas brechas da poesia. Você é a minha memória inconsolável, feita de pedra e de sombra e é dela que tudo nasce e dança.” Ao dizer isso, Petra nos faz saber que o vazio deixado pela ausência da irmã não desaparece e que é a partir dele que algo pode ser criado.

Freud enfatizou o reconhecimento social que o fruto da sublimação deveria provocar e a importância de que o objeto da sublimação fosse também um objeto passível de ser partilhado e reconhecido socialmente.

Já Lacan trouxe o acento do conceito de sublimação para a criação de um novo valor social a partir do tratamento especial dado a um objeto que pode ser qualquer um. Diferente da proposta freudiana, de uma produção que se encaixasse nos valores já vigentes, Lacan enfatiza o aspecto da criação de valor. Ele redefiniu a sublimação dizendo que aí se tratava de elevar o objeto à dignidade da Coisa. Ou seja, transformar objetos comuns em objetos que aludem ao vazio da Coisa. O que Elena deixa ver, tal como o posicionamento das caixas de fósforos de Prévert, referido por Lacan no Seminário 7, é como essa transformação ocorre por um reposicionamento dos objetos, que evidencia algo da ordem do vazio e que permite então um novo olhar sobre esses objetos tão cotidianos. Olhar que alude ao vazio. Nesse sentido, o objeto da sublimação é o menos importante; o que realmente importa é o tratamento que é dispensado a ele e que evidencia o vazio sem equivaler a ele.

Elena, objeto comum, ganha outro estatuto, outra dignidade: é elevada, através do documentário de Petra, à dignidade da Coisa. Esse estranho que habita o mais interior e que fez com que Lacan criasse o termo êxtimo para se referir ao que se trata nesse vazio estranho e ao mesmo tempo íntimo que nos funda.

O que o filme faz é aludir a esse vazio, tocando a ausência deixada por Elena. Por paradoxal que seja, o que causa o efeito de comoção no filme não é a beleza das imagens – ou não é somente a beleza. Não é a poesia – não apenas ela. É justamente esse desvelamento de algo da ordem de um vazio, que se deixa tangenciar, além ou aquém da beleza e da poesia, a partir do qual alguma coisa pode ser produzida.

É nesse lugar êxtimo, nesse vazio central sempre escamoteado por coisas como a beleza, como o bem, que o filme toca, de um modo ímpar. Elevar à dignidade, como faz Petra com a memória da irmã ausente, já evidencia que não se trata de mostrar, escancarar, identificar; não se trata de fazer um objeto à imagem e semelhança de outro ou de tampar o vazio. O que está em jogo é tratar o vazio, aludir, tangenciar – criação ex-nihilo.

*Texto apresentado no XIV Encontro Nacional da Escola Brasileira dos Foruns do Campo Lacaniano

REFERÊNCIAS

Alberti, S., Esse sujeito adolescente, Rio de Janeiro, Rios Ambiciosos/Contra
Capa, 2009, 288p.

Dor, J. Introdução à leitura de Lacan. O inconsciente estruturado como linguagem. Série Discurso Psicanalítico, Artes Médicas, Rio de Janeiro, 1989

Freud, S. (1980) Escritores criativos e devaneios (1908 [1907]) Jayme Salomão Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud vol. XVIII, Rio de Janeiro: Imago Ed

—–. Algumas reflexões sobre a psicologia do escolar (1914) Jayme Salomão Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud vol. XIII, Rio de Janeiro: Imago Ed. pp. 285-288

—–. Dois verbetes de enciclopédia – A teoria da libido (1922). Jayme Salomão Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud vol. XVIII, Rio de Janeiro: Imago ed. pp. 285-312.

Fink, B. O sujeito lacaniano entre a linguagem e o gozo, Rio de Janeiro, Jorge Zahar Editor, 1998

Lacan, J. (1997) O seminário, livro 7: a ética da psicanálise Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed.

—-. O seminário, livro 11: Os quatro conceitos fundamentais da psicanálise, 2ª ed., Rio de Janeiro, Jorge Zahar Ed.,1985

—-. O seminário, livro 16: de um Outro ao outro, Rio de Janeiro, Jorge Zahar Ed., 2008

Elena – o filme, direção de Petra Costa, roteiro de Petra Costa e Carolina Ziskind, Busca Vida Filmes, 2013

Petra Costa, em depoimento a Thais Lazzeri disponível em http://revistaepoca.globo.com//vida/noticia/2013/05/arte-ajudou-curar-minha-dor.html

Poli, Maria Cristina – Adolescência, uma abordagem na psicanálise lacaniana in Psicanálise e adolescência- intersecções possíveis, M.M. Kother Macedo, EDIPUCRS, 2004 149p.

—-. Alienação/separação na clinica da adolescência, 2003. Parte integrante da pesquisa Alienation, séparation, exclusion: psychopatologie de l’adolescence et clinique du lien social desenvolvida no curso de doutorado da Université de Paris XIII, com o financiamento da CAPES (Brasil) disponível em http://www.interseccaopsicanalitica.com.br/art117.htm

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