A dor da perda

Por Enock CarvalhoCineMarcado – 8/6/2013

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A dor da perda talvez nunca tenha ganhado uma experiência no cinema como Elena fez. No documentário, da jovem diretora Petra Costa, o drama da morte é recontado de maneira intimista. O filme narra a busca de Petra por respostas não dadas pela sua irmã — a Elena do título –, em uma série de constatações que tornam-se lamentos na tela.

Elena é uma garota cujo sonho de ser atriz a levou a Nova York para tentar carreira. Ainda adolescente ela embarcou no desafio de se testar em um novo país, com um idioma diferente do seu, para realizar seu sonho que guardou desde a infância. As portas do mercado, porém, encontram-se fechadas para Elena, que desenvolve uma depressão grave, com consequências devastadoras. Petra constrói o filme preocupada em traçar o que levou ao fim da irmã, mas é inevitável que na segunda metade do filme a própria diretora e a mãe tornem-se o foco da narrativa.

É através de imagens de arquivo, gravadas ainda quando Petra era bebê e sua irmã ainda adolescente, que a diretora nos apresenta o enlace afetivo das duas. Camas divididas, brincadeiras compartilhadas, encenações na sala de estar; são momentos que revelam a natureza de Elena e dão noção do seu amor pela irmã. Sobretudo os vídeos em que Elena demonstra sua relação com a arte, onde expressa seu sonho que a levou a deixar o país.

A emoção torna-se onipresente no filme, quando Petra permite-se narrar a história sempre falando diretamente com a irmã. “Queriam que eu te esquecesse, Elena”, narra Petra, num lamento profundo que representa a dificuldade em abandonar as memórias da irmã. Frases como essa são ditas ao longo do filme e cada uma parece ter o poder de comover ainda mais o espectador. “Até que um dia você para de brincar de teatro comigo, para virar atriz de verdade”, assim conta sobre o dia em que a irmã a deixou.

Como se não bastasse a narração da própria irmã, Elena entra em cena à partir de fitas cassetes, onde costumava gravar seus diários. Os depoimentos da atriz são acompanhados de imagens registradas por ela própria em Nova York, em fitas VHS. O documentário revela-se poético quando se poupa de imagens precisas, fazendo um jogo que atrai a atenção especialmente ao tom da voz, as pausas da fala e a emoção que Elena passa em suas fitas.

Numa espécie de representação dos passos da irmã, Petra, cuja aparência é extremamente semelhante apesar dos 13 anos de diferença, caminha por Nova York em imagens de um refino estético impecável. À procura de respostas, ela transmite a sensação de embarcar na jornada ainda desconhecida graças ao uso de um efeito de lente que põe tudo ao seu redor em completo desfoque.

Elena é ainda mais forte quando coloca na tela a própria mãe, que acompanha Petra até o apartamento onde morou a filha que sonhava em ser atriz. As imagens viram desabafos em forma de filme quando a mãe expressa o sentimento de culpa por não ter ajudado a filha como sente que deveria.

Na busca pelas respostas da ferida ainda não sarada, Petra Costa opta por poetizar seu próprio sentimento e o da mãe, em mais um exemplo de belo trabalho de plasticidade estética. É já no fim do filme em que, como uma sintetização da angústia carregada por ela e pela mãe, as duas aparecem boiando em um lago (cujas águas inicialmente são transparentes e ao fim, escuras). Primeiro aparecem as duas. Depois muitas outras mulheres, que significam outros casos como o de Elena, boiam na água juntas. E ainda mais, elas são arrastadas pela correnteza como se a vida forçasse todas elas a seguirem em frente, boiando, ainda com a angústia no peito…

Nota: 10,0
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