A dança do ser

Por Tamiris Moraes – site Punctum – 30 de maio de 2014

Sonhei com Elena essa noite. Sonhei assim como Petra Costa, diretora do filme, sonha com sua irmã. Porque Elena, pra mim, é mais do que o retrato de um encontro entre duas irmãs, da procura da irmã mais nova pela irmã que perdeu, e as consequências de tal perda na vida da diretora. A procura de Elena dentro e fora de Petra. s; é o desejo de viver de arte e para arte. Elena é vida. A vida e todas suas complexidades que trazem as Elenas para o ser de Elena e para o meu ser. As Elenas que dançam, choram, riem e se desesperam querendo gritar. As Elenas em pedaços, os pedaços que me formam.

Perco-me na busca do retrato da mineira, Elena, feito pela irmã. Perco-me nos seus sonhos, frustrações, felicidades e tristezas. Perco-me no ser humano que foi, que é Elena, no ser que eu também sou. Encontro-me durante alguns instantes do filme, mas, logo em seguida, volto a me perder. Os desejos de ser de cada pessoa, o meu desejo de ser e os tropeços durante essa dança do ser. Os tropeços da dança da vida. A dança que me faz tropeçar no meio do filme, no meio das imagens que me levam a lugares que não consigo (e não quero) descrever. Lugares particulares onde posso ser e não ser, onde posso conduzir essa dança da vida. Eu só consigo expor que nesses lugares existiam tropeços, mas não importava o fato de eu tropeçar, importava que eu conseguia conduzir os passos ao meu ritmo. As imagens de Elena despertam em mim, não apenas uma, mas várias danças que se repetem e desaparecem.

O retrato feito sobre a vida de Elena por Petra é simples e poético. É nessa simplicidade, talvez, que está o fato de causar tantas sensações diversas. A simplicidade em mostrar um ser humano com todos os seus desejos e problemas. O ser humano como ser humano, e não criado como uma imagem quase perfeita. O ser humano na sua fraqueza, no desistir no meio da dança da vida. A interrupção da dança, porque os passos estavam presos e pesados, Elena não conseguia guiar a dança e tropeçava cada vez mais. E num desses tropeços, por não conseguir conduzir, ela decide interromper os passos, o ritmo.

Elena é poesia em imagem. Cada instante do filme é uma sensação que o nosso corpo, o nosso ser sente. Em “Elena”, me perdi e me encontrei. Em “Elena” sonhei, chorei, me frustrei, me senti feliz e triste. Em Elena senti. Desfaço-me em mil pedaços e desses pedaços sou formada.

*Tamiris é graduanda do Curso de Cinema da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC)

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