Você quer conhecer Elena?

por: DÉBORA NAZARI – Soul Art – 13/5/2013

Ontem num fortuito impulso resolvi que o dia seria aquele. Tinha uma hora para lavar os cabelos, colocar uma roupa quente e correr para meu encontro. Elena, os olhos escuros e tristes. Um sorriso branco e misterioso, de uma leveza ao andar e uma intensidade de viver a vida.

Conheci Elena de uma maneira inesperada, pois esperava mais um daqueles depoimentos fervorosos sobre sua figura e/ou lágrimas escorrendo pelo canto dos olhos. Mas não. Deparei-me com uma menina linda, de cabelos longos que dançava, dançava e dançava como se isso fosse o fio condutor de sua vida.

Petra Costa, a irmãzinha de Elena é a narradora e diretora dessa história. O documentário retrata a viagem de sua irmã aos Estados Unidos em busca de uma carreira de atriz. A mãe delas, Li An, diz que Elena queria ser atriz desde os quatro anos, e foi, aprendeu ópera, dançou e atuou o mais intensamente quanto pôde. Os amigos diziam que ela nunca se cansava de ensaiar, tudo tinha que ser bem feito.

A voz de Petra soa como um diário, daqueles que guardam uma lembrança e uma história muito dura de um período difícil que apenas um diário poderia registrar. Porém, é na docilidade de suas palavras, nos vídeos caseiros, nos vídeos que a própria Elena gravou de sua experiência fora do país e nos registros da irmã, que a diretora nos apresenta essa atriz em quem se espelhou e que a treinou para atuar no mundo das artes.

Seu primeiro longa metragem, Elena (2012) é algo muito particular na vida de Petra Costa, um filme que tem ela mesma em seu papel, refazendo os passos da irmã pelas ruas de Nova York a procura de reconstruir essa lembrança embaçada de quando tinha sete anos. Diretora do curta Olhos de Ressaca (2009), Petra nos demonstra novamente sua sensibilidade e docilidade ao nos contar a história dessa figura muito importante em sua vida.

Um documentário brasileiro muito diferente do convencional, ele passa por seus olhos poeticamente, apresentando a relação de duas irmãs com diferença de idade muito grande, depois foca na figura dessa sedutora e misteriosa Elena e prossegue novamente para a busca da identidade de Petra.

Conheci Elena, me identifiquei com sua dor, me apaixonei por sua intensidade de viver e, sobretudo, entendi que existem “memórias inconsoláveis” que fazem parte da nossa história e da maneira como as sentimos. Um encontro fortuito que me deu esperanças, e mostrou que é preciso dançar para a lua e seguir em frente.

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