Uma exceção a ELENA

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A jornalista Maria Fernanda Vômero costuma escrever apenas sobre teatro em seu blog Jogo de Cena, hospedado no site da revista Época SP. Mas resolveu fazer uma exceção. Para falar de ELENA.

Leia, abaixo, o post na íntegra.

[Continuação do post anterior.]

Me vem à mente o belo filme Elena, de Petra Costa, com estreia marcada para 10 de maio. Petra realizou um longa-metragem biográfico, no qual busca reconstituir a trajetória da irmã Elena, que, aos 20 anos de idade, se suicidou. No fundo, Petra tenta contar a própria história, que só começará de fato quando a de Elena terminar – e como terminar a história de Elena se ela mesma a deixou incompleta? E como iniciar a própria, a dela, de Petra?

A cineasta era uma menina de 7 anos quando a irmã morreu. As duas viviam em Nova York com a mãe. Elena era atriz e havia se mudado para os Estados Unidos a fim de estudar interpretação para cinema. A primeira temporada que passara no exterior tinha começado cheia de expectativas e promessas que, ao longo dos meses, acabaram por não se cumprir. A frustração pelos sonhos irrealizados se somara a um estado depressivo. Elena, então, precisou voltar para casa. Passado um tempo, nova tentativa: retornaria a Nova York, mas não sozinha. Não adiantou. A existência se mostrou ainda mais insuportável, dolorida. Na carta de despedida, ela escreveu: “Me sinto escura, no escuro que nunca vai terminar”.

Petra se tornou atriz. Aos 17 anos, participou de um curso com o Teatro da Vertigem. Numa das aulas, recebeu a tarefa de criar algo com base no tema “livro da vida”. Revirou armários atrás de inspiração; encontrou um diário de Elena. “Ao folheá-lo, tive a estranha sensação de estar lendo minhaspróprias palavras”, afirmou numa entrevista. “Foi uma identificação completa. Até então, minha relação com ela era de idealização. Nós nunca convivemos de igual para igual.”

Como, então, começar a escrever própria história? Petra responde no e com o filme: “Até que, no meu aniversário de 21 anos, minha mãe me olha e me diz: agora você está mais velha que Elena. O medo de que eu fosse seguir seus passos começou a se desfazer, mas continuei achando que você, Elena, estava dentro de mim. Era um estar em mim. Deixei de sentir isso ao começar a te buscar: você foi tomando forma, tomando corpo, renascendo um pouco para mim mas para morrer de novo”.

Elena, portanto, se volta para o sentido da existência. O sentido último que dá eixo a tudo, mas também o cotidiano, aquele das vitórias miúdas e rotineiras que fazem os dias valerem a pena, um após o outro. O filme fala sobre inícios e fins. Sobre perdas e conquistas. Sobre alteridade, esse outro que somos e que não somos. Petra conta sua história como Petra mas também como Elena. Uma história real, concreta, palpável, mas recriada pela ótica da subjetividade e do afeto. Uma história que se transforma em puro cinema, esteticamente bem-realizada, com uma narrativa fluida, imagens de arquivo, bela fotografia e ótima montagem. Petra não teve medo de mergulhar nas águas ora turvas, ora límpidas da memória, da própria identidade, de seus desejos, em suma, do viver.

A criação artística se alimenta do sangue do artista para depois alimentar o sangue de outro. Sem sangue correndo em suas entranhas, a obra fica gélida como um cadáver (que pode até despertar algum interesse, mas limitado). Não dialoga, não comove, não provoca. Esse sangue confere verdade. Petra assumiu isso sem temer os riscos, assim como os meninos de Ficção.

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