Um aliado para ELENA

por: Gabriela Mayer – blog Põe na estante – 16/7/2013

A diretora do documentário ELENA, Petra Costa, quer combater um tabu. Depois de reviver o suicídio da irmã em um filme com lembranças tão delicadas, ela defendeu insistentemente a abordagem escancarada do tema. Já falou até em criar grupos de apoio para familiares de suicidas e diz que é preciso conversar sobre o assunto – que não dá para colocar o suicídio de alguém querido embaixo do tapete.

Depois de ler A Humilhação, não pude deixar de pensar que ela tem um aliado. O escritor Philip Roth, mais uma vez, traz o tema à tona. Não que o objetivo dele seja eliminar tabus, mas o fato de o escritor abordar sem medo, com profundidade e ostensivamente a morte – suicida ou não, provoca no leitor a inquietação necessária para que não nos acomodemos no silêncio.

A Humilhação é a história da decadência de Simon Axler, um renomado ator sexagenário que já não consegue representar. Ele trava, perde a vontade de subir ao palco e suas perspectivas ficam mais embaralhadas depois que é abandonado pela mulher. Atraído pela possibilidade do suicídio, Simon interna-se em uma clínica psiquiátrica por um período breve. “Mais de uma vez ele ficara no canto da sala de recreação, junto com o pequeno grupo de pacientes suicidas, a ouvi-los relembrando o ardor com que haviam tentado se matar e lamentando não ter conseguido fazê-lo.” Passa dias carregados de um pessimismo sarcástico e massacrante, na medida em que verifica os efeitos limitadores do tempo.

Depois de sair da clínica, Simon opta pelo isolamento e pela solidão de uma casa de campo. Parece contar os minutos para o fim da vida quando o relógio começa a girar anti-horário. Pegeen, a filha de um antigo casal de amigos, aparece para uma visita e para um turning point. Vinte e cinco anos mais jovem que o ator, ela se arrisca em um primeiro relacionamento heterossexual e devolve a Simon a vitalidade. “Não havia ninguém além dos dois nos arredores. Nos primeiros meses, eles raramente saíam da cama antes do meio-dia. Não conseguiam ficar longe um do outro.” Ele tenta torná-la mais feminina, enchendo-a de roupas e sapatos novos. O casal resiste até os desejos e fetiches de Pegeen ferirem a idade e a masculinidade de Simon. “Assim teve início o fim, de modo totalmente abrupto, e acabou cerca de trinta minutos depois (…).”

Obviamente, o romance não tem final feliz, nunca tem. Philip Roth não faz reverência à morte – não está submisso, só está sujeito. É humano na sensibilidade e na crueza com que trata o tema: sem esconder temores, mas sem se deixar paralisar por eles – na vida real. “Se ela foi capaz de fazer aquilo, eu posso fazer isto.”

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