Sensibilidade de uma poesia dolorida

Roni Figueiró, no blog O Discreto Charme da Cinefilia – 21/5/2013

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Precedido dos prêmios de melhor documentário pelo júri popular, melhor direção, montagem e arte no 45º Festival de Brasília de 2012; menções especiais no Festival Internacional de Guadalajara e no Festival de ZangrebDox, somente agora entra no circuito comercial o festejado Elena, da diretora mineira estreante Petra Costa, que também atua secundariamente no longa.

O documentário é uma grata surpresa no aspecto de sua beleza estética formal que reflete a preocupação do cinema autoral, sobre a memória reconstruída no cinema pela cineasta que aos 7 anos viveu um grande drama pessoal com a morte prematura de sua irmã mais velha, de apenas 20 anos, em Nova Iorque, ao seguir o sonho convulsivo que poderia tornar-se realidade em ser atriz, tal qual sua mãe imaginava contracenar com Frank Sinatra. Deixa no Brasil uma infância vivida na clandestinidade, devido à ditadura militar implantada no país. Duas décadas depois, Petra embarca também para os EUA atrás da irmã, tendo como pistas apenas algumas cartas, diários e filmes caseiros.

As imagens se fundem com as palavras mencionadas em formato poético sobre a perda e o luto de um inventário realizado para exorcizar um passado. São relatos de dor e a tristeza de nunca mais poder ver e ter em seu convívio familiar aquela moça sonhadora, de uma vontade louca pelo estrelato, que se desilude, deixando a morte a leve por uma composição nefasta de remédios e álcool.

Um relato lúcido sobre a desilusão do fracasso diante da derrota que fez uma vítima precocemente. Há uma reflexão sobre a falta de estrutura emocional de quem bem cedo lutou e enfrentou um mundo claustrofóbico dentro de uma selva de pedras com pessoas voltadas para seus interesses pessoais. Dói na alma a amargura e o sofrimento da mãe que nunca esqueceu a filha morta, tendo como testemunha o olhar da cineasta e seu vínculo quase que obsessivo, mas indestrutível e sensorial pelas imagens documentadas da simulação da própria morte para encontrar a irmã em outra dimensão.

Um filme melancólico, mas sem ser piegas ou apelativo. Pelo contrário, as cenas que vão sendo reconstituídas por fotos e imagens de uma Nova Iorque assustadora sobre as personagens em suas buscas, após a separação dos pais, retratam com sensibilidade de uma poesia dolorida as incursões do passado e o futuro sem Elena. Há suavidade na sutileza da abordagem, através deste belo tributo à memória da protagonista que se foi por desespero de uma crise depressiva e choca paradoxalmente com absoluta doçura, embora haja o amargor da violenta extirpação de uma criatura apunhalada pelo destino tétrico.

Um comovente documentário em uma estrutura narrativa de inspirada criatividade contado na primeira pessoa, sem cair na obviedade, sobre um luto interminável e de recordações alegres de uma infância marcada muito cedo, quando o mundo começou a desmoronar, assim como findou o imaginário sonhado da irmã em fazer teatro e cinema aos 20 anos, no fatídico ano de 1990. Embora tenha uma linha própria em sua estética, há similitude em conteúdo com os documentários nacionais vistos recentemente: Santiago(2007), de João Moreira Salles; Diário de Uma Busca (2010), de Flávia Castro; ou ainda em Uma Longa Viagem (2011), de Lúcia Murat.

Elena é um filme que não deixa escapar a política brasileira nos anos 80 e sua geração que abandonou o país na ânsia da liberdade à procura de novas oportunidades. Tem como marca uma fotografia primorosa e deslumbra com uma trilha sonora encantadora, além da incessante busca pela diretora da trajetória da irmã e de sua própria identidade, aspectos sobre a perda inventariada de um passado. São elementos psicológicos bem caracterizadores e envolventes que registram com rara qualidade este instigante documentário de uma neófita como uma obra marcante no cenário nacional.

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