Os impactos de Elena

por: Rafael AlmeidaDiálogos com Roth e Bergman – 14/5/2013

Quem é Elena? A pergunta que ecoou nas redes sociais foi utilizada como marketing para promoção do filme recém lançado em São Paulo. Wagner Moura, Julian Lemmertz, dentre outros, nos perguntaram e a resposta, após assistir ao longa, é “não sei o bastante”, ao contrário sobre sua irmã, Petra Costa, diretora do filme, a quem acabamos sabemos muito mais do que Elena. Entretanto, saber sobre Petra é obter vestígios sobre quem fora Elena.

O motivo da realização do filme, podemos dizer, é a tentativa de descoberta. Tenta-se descobrir quem é Elena, destrinchando um pouco de sua infância, adolescência e o período de angústia vivido em Nova York, após tentativas não muito bem sucedidas de se tornar uma grande atriz e a culminação no suicídio aos vinte anos de idade. É claro que a tentativa de descoberta de uma pessoa antes tão próxima, que morreu há muito tempo – em 1990 -, acaba gerando uma jornada de autodescoberta.

Petra opta pela utilização de muita poesia, até por demais excessiva às vezes, seja através das palavras dialogadas por Petra, que, em muitos momentos, parecem mais sussurros quase inaudíveis (talvez por conta da qualidade do som da sala na qual assisti ao filme), seja através de belas imagens montadas de forma a refletir a angustia das protagonistas, além da trilha sonora melancólica e muito bem adaptada ao contexto da dor que ainda se perpetua, na medida em que o passado nebuloso vai sendo redescoberto através das cartas e vídeos, comprovando-se, de certa forma, que os mortos continuam vivendo através das lembranças.

Além de Petra e Elena, uma outra protagonista, a mãe delas, acaba optando por atuar em algumas situações, talvez por ter sonhado em ser atriz em sua juventude, fato que retira um pouco do caráter documental do longa. Mas, a que tipo de documentário exatamente assistimos? Com certeza, o mesmo não se vale das premissas convencionais, mas opta, ao contrário, não tanto por buscar respostas, mas sim o de ser intuitivo o bastante para nos deixar levar pelo ambiente quase onírico criado. E certamente há um grande mérito de Petra nisso. A bem da verdade, se Petra não busca respostas ou explicações, acabamos nós, espectadores, um pouco ávidos disso, principalmente com relação a algumas atitudes e omissões cometidas pelos pais.

De qualquer modo, tecnicamente falando, o longa, rodado com filme Super-8, uma câmera DSLR e um iPhone, tem imagens que deslumbram, aliadas a uma fotografia bem cuidada e planos bem montados. Tanto que recebeu muitos elogios – “uma das experiências mais agudas que já vivi no cinema” (Walter Salles) e “um filme que provoca 60 insights por minuto” (Fernando Meirelles) e prêmios no Festival de Brasília do ano passado, incluindo melhor documentário pelo júri popular, e menções especiais nos Festivais de Guadalajara e Zagreb.

Uma ótima e nova experiência, com certeza. Mas sem tanto exagero.

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