Quando me encontrei em outro coração

Aline Souza, no blog Escritus Infinitus– 22/5/2013

Depois de assistir “Elena” (2013) fiquei a me perguntar por qual motivo aquele filme me dizia tanto, me fazia sentir tanto e me chamava tanto. Um filme sobre a busca de uma garota, Petra, pela sua irmã, Elena, que desaparecera quando era muito jovem, aos 20 anos, época em que a outra ainda era criança com apenas 7 anos.

Todavia, logo de cara o filme se apresentou mais que isso, quando o tema da Ditadura Militar no Brasil veio à tona rompendo os sonhos dos pais daquelas duas irmãs, que mais tarde seriam separadas pela vida. Seria ele mais ou menos como os inúmeros filmes argentinos que tocam nas feridas políticas do país? Então, pensei: “Elena” vai trazer à tona, sob a ótica dos filhos da ditadura, as mazelas e profundas sequelas deixadas por aquele período sombrio.

Mas não. Enganei-me novamente. Como escreveria sua própria autora, “Elena” é uma história sobre tristeza, loucura e felicidade.

Com uma doce narrativa, “Elena” segue em imagens de arquivo familiar onde podemos ver rostos de pessoas felizes, duas crianças que amam criar brincadeiras, dançar, cuidar uma da outra até que ocorre um rompimento. Aos 15 anos de Elena, uma idade que para muitos é difícil transpor, há o episódio da separação dos pais. Seria isso o estopim?

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Começava ali uma enorme lista de identificações com o filme que parecia não ter fim. A minha profunda tristeza desde muito jovem. A minha insistência no pensamento de morrer e acabar com tudo que eu nem mesma sei quando e onde começou. A minha necessidade de afundar em qualquer lugar onde eu não precisasse enfrentar os dramas que me esperavam lá fora.

Tudo me era distante, a vida simplesmente corria, seguia sem que eu tivesse muita vontade de vivê-la. Ou melhor, eu queria e precisava me distanciar de tudo que era real. Eu não conseguia alcançar nada. A vida familiar era um enorme peso para mim. Quando finalmente tive forças ou coragem para me matar, o pensamento em minha mãe não deixou que eu concluísse aquilo. Era como se a vergonha e o sofrimento que eu causaria nela fossem demasiado. Não podia.No filme “Elena”, assim como em minha vida, a imagem da mãe é muito forte. Além disso, há outra coisa que o filme soa familiar e é justamente quando ela, a mãe, pronuncia suas palavras que eu me dou conta: o sotaque mineiro da minha Minas Gerais.

Em um momento me pego pesando que assim como Elena se viu triste e sozinha em Nova Iorque tentando encontrar a atriz que ela queria ser. Eu também voei de casa muito cedo procurando encontrar quem eu sou e o que vim fazer nesse mundo. Quantas vezes não me senti assim como Elena dentro de um quarto qualquer, de uma república qualquer dessas tantas em que já morei?

Quantas vezes já não caminhei pelas ruas lotadas de pessoas indo e vindo com medo de ser completamente engolida por aquela cidade grande, sempre grande, cada vez maior? Sempre foi a figura da minha mãe e o cheiro dela que fez eu não me perder e sempre voltar para casa, ainda que esta casa fosse distante muitos e muitos quilômetros da casa dela.

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E Elena tentou e tentou. De repente pensei que realmente alguma coisa tivesse acontecido com aquela menina. Onde? Em qual esquina ela se esqueceu do caminho de volta? Quando? Em que momento ela se deixou levar?Elena se tornou um papel em branco que precisava de letras e cores para virar aquarela. Foi então que sua irmã cresceu, sofreu, rodopiou em círculos e finalmente entendeu que ela não mais iria voltar. Doeu tanto aceitar isso…

Aquela família dilacerada em pleno dezembro nova-iorquino se apoiou na menina que não acreditava em Papai Noel para seguir em frente. E a menina precisou reunir tudo que havia de lembranças da irmã, tudo que representava o mito da bela e forte irmã, ao ponto de transformar ambas em uma só para tecer esta tão singela e potente história.

Petra, então, escreveu “Elena” no papel em branco e fez uma aquarela em filme para mostrar a todo mundo aquilo que o vazio, a tristeza e a loucura não deixaram Elena mostrar: _ Elena _.

E a felicidade? Bem, acho que uma hora a gente acaba entendendo que as memórias tristes se misturam com a água e simplesmente seguem o seu curso, seu caminho.

Acabado o filme, fiquei ali a lembrar de tantas coisas de minha vida que, acho, misturei todas as Alines dentro de mim. Mas, de uma coisa sei! Eu ainda não desisti, Elena, eu ainda preciso tentar.

Elena, um filme de Petra Costa.

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