Precisamos falar sobre querer morrer…

por:  Cultivando o Equilíbrio – 12/6/2013

Cena do documentário ‘Elena’, de Petra Costa (foto); diretora refaz trajetória da irmã, que se matou em 1990, aos 20 anos

Aqui no Brasil, o suicídio mata 26 pessoas por dia. E o suicídio entre jovens está crescendo. E não falamos sobre isso.

Há poucos dias, Sua Santidade o Dalai Lama disse já quase saindo do encontro “Mude sua Mente. Mude o Mundo.” em Wisconsin, a uma platéia que parecia já satisfeita em apenas ter ouvido o que havia sido discutido: “Nós todos falhamos em construir uma sociedade saudável. É responsabilidade de cada um aqui cuidar disso”.

Falhamos…

O Jornal Folha de São Paulo promoveu, nesta noite chuvosa de terça-feira, um debate necessário sobre suicídio. Estavam lá o psiquiatra José Manoel Bertolote, muito lúcido e conhecedor do assunto, autor de “O Suicídio e sua Prevenção“; a psicóloga Rosely Sayão, e Robert Gellert Paris Junior, membro do Conselho Curador do Centro de Valorização da Vida, de uma amorosidade encantadora. A jornalista Claudia Collucci mediou elegantemente a conversa.

Foram muitos os pontos importantes e certamente insuficientes, frente ao tamanho e à complexidade do problema. Mas vou tentar contar o que eu ouvi.

Os números disponíveis sobre suicídios são assustadores… mas a realidade é ainda pior.

Sofremos de uma incompetência crônica em produzir dados precisos em áreas como a saúde. Grande parte dos casos de suicídio são registrados como acidente; e quando a morte ocorre não muito próxima ao ato, o registro é ainda menos preciso. Essa imprecisão, neste caso, é socialmente conveniente.

Existe uma forte correlação entre suicídio e transtornos mentais. Mas esta é de fato uma relação causal ou os dois fatos refletem uma questão mais fundamental? 

O Dr José Manoel expôs que há uma deficiência enorme de profissionais bem preparados para tratar os jovens de forma adequada, além de simplesmente medicar. Ele definitivamente não defende a medicalização do problema.

É duro ser tão feliz quanto o perfil do Facebook

A comunicação intensa nas redes sociais pode criar uma enorme e intransponível artificialidade. Robert Paris do CVV disse que as pessoas que os procuram querem apenas um espaço para poderem ser autênticas, para poderem dizer que não estão tão bem quanto dizem estar.

Quem quer chamar a atenção, precisa de atenção! 

Quando se deve levar a sério uma ameaça de suicídio? Sempre!

90% dos casos de suicídios são evitáveis. Todas as manifestações de desejo de morte devem ser levadas a sério, como por exemplo:

  • a pessoa se acidenta muito frequentemente
  • distribuição de pertences
  • mensagens cifradas
  • baixa auto-estima

Depois de uma tentativa de suicídio mal sucedida, 50% das novas tentativas ocorrerão no próximo mês e 40%, na próxima semana.

A OMS recomenda um programa que leva à criação de uma rede de apoio, em que um agente de saúde acompanha estas pessoas durante 18 meses, com contatos inicialmente semanais e que se espaçam ao longo do tempo, em que são feitas duas perguntas: – Como vai? Você está precisando de alguma coisa? O resultado tem sido extremamente positivo!

Quem pensa em morte, não quer morrer!

“O sentimento é ambivalente: a pessoa quer se livrar da dor, mas quer viver. Por dentro, vira uma panela de pressão. Se ela puder falar e ser ouvida, além de diminuir a pressão interna, passa a se entender melhor.” – Robert Paris

O isolamento é o caminho mais curto para o suicídio.

Mais importante do que o isolamento em si é a sensação de isolamento. A percepção de estar sendo cuidado é muito importante.

Muitas vezes, as relações familiares muito próximas são cristalizadas demais e, por mais incrível que possa parecer, uma pessoa um pouco mais distante, disponível para ouvir, para estar presente, pode ser uma ajuda valiosa.

O CVV!

Fiquei muito impressionada com a fala do Robert Paris e com o trabalho que o CVV vem realizando há muitos anos, ouvindo e levando a sério o que as pessoas têm a dizer sobre suas dores. Eles recebem 1 milhão de contatos por ano. Recentemente criaram um sistema de atendimento por chat, para tentar atingir os jovens: em 30% destes contatos o jovem expressa o desejo de morrer.

Hoje, eles estão lançando esta cartilha, como parte de um esforço para que o tema “suicídio” possa ser mais bem tratado:

http://cvv.org.br/images/stories/saibamais/falando_abertamente_sobre_suicidio.pdf

Afinal, o que este assunto tem a ver com um blog sobre Equilíbrio?

Tudo! Quase todos os temas que surgiram aqui neste blog tocam a questão da presença, da desaceleração, da compaixão, da possibilidade de um encontro verdadeiro com o outro, de felicidade genuína.

Uma sociedade permeada por tudo isso poderia oferecer uma melhor perspectiva a todos, especialmente aos jovens, não é mesmo?

O tempo do “cada um com seus problemas” acabou!

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