Pequenos e ligeiros poemas de lamentação

Em colaboração ao BRCine, o jornalista, editor e crítico da Cinequanon, Cid Nader, publicou resenha em 10/5/2013 destacando aspectos da linguagem cinematográfica bem explorados em Elena: “Petra encontra por todo o decorrer do filme boas soluções. Mais: inventividade imagética que permite sentir um trabalho sendo fiel ao quinhão emotivo que possibilita e justifica sua existência, permitindo andamento e fluidez à narrativa, que por sua vez é preenchida e percebida por setores que remetem os trechos ajuntados como se fossem pequenos e ligeiros poemas de lamentação. Há um doc bonito em questão, não resta dúvida.”

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Elena, por Cid Nader

Bem complexo falar de um longa como é esse o de Petra Costa. Antes, vale dizer que o documentário que ela confeccionou — com todas as sutilezas e diferenciações, em seu favor, que fazem possível enxergá-lo com muito mais qualidade e predicados ao que é comum na execução da arte – não está isolado no quesito mote essencial, já que, principalmente desde o advento das câmeras ligeiras e do fenômeno de desnudamento das interioridades proporcionado pela estranhamente sedutora Internet, o que mais há sendo lançado no cinema documental são histórias que referem a aspectos familiares, de matizes extremamente íntimas (e quase sempre passando a impressão de que teriam seu valor se exibidos somente para os parentes, em festa de aniversário ou natalinas), normalmente desinteressantes quando se pensa que são ostentação que será reconhecida e vista por “estranhos” ao assunto, sem que tais assuntos tenham algum poder revelador ou encantador de razoabilidade atrativa.

Mas Elena tem poderes e evoca questões que fazem notá-lo por impressões mais diversas do que o comum repetitivo tem conseguido.

Como cinema funciona por diversos aspectos que referem a cuidados que essa arte exige para não parecer que se está lidando com as ferramentas e possibilidades de construção como se fosse festinha num programa de computador: é muito belo no modo optado de composição, com sua infinidade de imagens de arquivos (o que, por um lado, denota bom poder de vida – no sentido de ter condições financeiras pelo passar dos tempos — da família da diretora, evidentemente possibilitando mais material acumulado: sendo que isso, vale alertar, nem sempre significa o bom manusear do material) bem filmadas, as quais receberam atenção na montagem, que emaranhou, por boa parte da vida em tela, momentos poéticos, sempre amparados na banda sonora por narrações entristecidas.

Petra encontra por todo o decorrer do filme boas soluções. Mais: inventividade imagética que permite sentir um trabalho sendo fiel ao quinhão emotivo que possibilita e justifica sua existência, permitindo andamento e fluidez à narrativa, que por sua vez é preenchida e percebida por setores que remetem os trechos ajuntados como se fossem pequenos e ligeiros poemas de lamentação. Há um doc bonito em questão, não resta dúvida.

O passar do tempo após Elena vista contribui demais para que os problemas notados e vincados na ocasião percam potência na memória: amadurecimento (“mastigação”, rememoração, depuração, ar, enfim) de obras de arte talvez seja a melhor maneira de poder discuti-las e decifrá-las. O retrogosto é sempre o que fica como marca sentida, e à flor, quando se volta a elas.

Porém, não é possível nem justo deixar de lado questões que incomodaram demais (a ponto de sepultar – se não fosse o caso de se voltar ao documentário para a tentativa de análise –, em algum recanto da memória, as virtudes) quando da constatação: espantou sentir alguém tão ligado ao tema abordado — como é o caso da diretora, que retrata sua vida em ligação estreita com a da irmã, Elena — trazendo ao conhecimento das pessoas do mundo assunto que de modo evidente, desde o primeiro frame, nota-se, lhe toca tão profundamente. Num filme que por vezes pareceu estendido demais — como se ela não soubesse exatamente qual deveria ser a melhor opção para o momento do corte decisivo — causou “suspeição” o desnudamento de situações extremamente drásticas e particulares, pois restava por todo o tempo da exibição a sensação de que quem o confeccionara estaria meio que traindo intimidades que não só suas (há toda uma família envolvida na história): seria “exibicionismo” ou necessidade de expurgação (sendo que, a princípio, ambas as possibilidades não coadunam com cinema sério)?

Como costuma ocorrer nos modelos de docs que trazem situações nucleares para exibição ampliada, questionei muito, no momento, se esse (mesmo já notando suas virtudes formalistas) não seria mais um do modelo, com o “agravante” de trazer pessoas feridas demais emocionalmente à luz… Ao mesmo tempo, já na ocasião, ele avisava (dava sinais) que não permitia sermos tão duros com ele como seríamos nas outras situações: havia um mistério a mais para ser desvendado. Agora, noto que como arte consegue sobrepujar as questões “somente” íntimas. Melhor: consegue ser justo com elas em todo o poder de seu drama.

Lá atrás, no Festival de Brasília, Petra Costa parecia alguém que ainda sofre demais quando apresentou o trabalho no palco, e me parecia estranho alguém conseguir trabalhar de forma tão poética sobre passados tão a serem esquecidos: se foi mesmo caso de tentativa de expurgação é de se tirar o chapéu para a “frieza” conseguida na hora da edição do material.

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