Para quem ama o que é belo, Elena é obrigatório

Leia resenha de Ulisses da Motta Costa no Blog Sétima das Artes do Diário de Canoas – 21/5/2013:

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Que filme lindo é Elena. Simples e de uma profundidade ímpar. É o tipo de fita que eu gostaria de ver uma segunda vez antes de escrever sobre ela, para não correr o risco de não saber direito o que dizer; ou de pelo menos escolher uma das sensações que o filme provoca. É daquelas obras em que tu gostaria de ser capaz de escrever uma crítica à altura da poesia, da força, do tamanho artístico que ela tem. Acho que não consigo. Mas quero mesmo assim falar sobre ele.

Sendo curto e grosso (coisa que Elena jamais é): esse documentário sabe ser delicado e pesado ao mesmo tempo. Ele enche o fígado do espectador de pauladas sem elevar o tom, sem gritar. Muito pelo contrário: o faz de maneira gentil, carinhosa. Parece paradoxal? É preciso ver o filme para entender.

Na verdade, trata-se de um projeto muito pessoal: Petra Costa, a diretora, tinha uma irmã mais velha, Elena, que sonhava em ser atriz. Ambas são filhas de um casal que viveu na clandestinidade durante a Ditadura Militar e, após a redemocratização, a primogênita parte para Nova York com o sonho de ser atriz de cinema. Anos depois e já adulta, a caçula Petra segue os passos de Elena: não só vira atriz, como também procura pela memória perdida da irmã. É desta busca que nasce este documentário.

Se estou sendo vago sobre a trama, é porque eu não quero estragar nenhuma surpresa. Fui assistir ao filme sabendo do que aconteceu com algum dos seus personagens e gostaria de não saber. Vale a pena vê-lo de coração aberto. Contudo, é possível falar da estrutura de Elena sem entregar nada: Petra começa o filme narrando um sonho com a irmã. A partir daí, começa uma reconstrução da história da família a partir da mãe de ambas — e descobrimos que ela já tinha não só um pendor para as artes dramáticas, como também um vazio existencial que vai devastar não só Elena, como Petra também. Seguem-se a isso o cotidiano da família, a ida para o exterior, o destino dos personagens.

Para contar a história do documentário, Petra e a roteirista Carolina Ziskind armam-se de uma profusão de imagens — há cenas tiradas de arquivos históricos, filmagens familiares (boa parte delas filmada pela própria Elena adolescente) e de apresentações teatrais. Até mesmo cenas de um curta-metragem estrelado pela mãe, em plenos anos 1960, surgem na projeção. Há imagens de documentos e mesmo um teste de elenco feito por Elena nos Estados Unidos.

Profusão também de sons: em sua temporada fora, a atriz enviava gravações em fitas cassete para a família, ao invés de cartas tradicionais. Estes áudios são usados para completar os poucos depoimentos e a narração em off cheia de poesia da própria Petra. Além disso, canções evocativas preenchem o que já há de belo na imagem (destaque para a linda Turn to Water, de Maggie Clifford, que aparece ao final da projeção).

O que não há de cenas de arquivo, a cineasta completa com filmagens dela mesma, em cenas com pouca área focal, angustiantes e belas. Ela também leva a mãe para o apartamento onde a família morou nos EUA e, no desfecho da obra, encena dois lindos balés cinemáticos: primeiro, a magnífica cena dentro d’água (já de cara uma das minhas favoritas no cinema nacional de todos os tempos); depois, uma dança espontânea nas ruas noturnas de Nova York. O que estas passagens tão abstratas têm a ver com o filme? Tudo: Elena é uma colagem delirante de imagens como também são colagens de sensações as nossas lembranças. Não é uma reconstrução histórica, mas sim da memória, de alguém.

Claro que uma simples colcha de retalhos não funciona por si só se não houver unidade. o esteio do documentário estrutura-se através das três mulheres vistas na tela. Chega a ser monstruoso o quanto que mãe e filhas são parecidas fisicamente. A voz, então, é algo completamente assustador: Elena, Petra e a mãe tem o mesmo timbre. Mais do que um trio de pessoas, a impressão é estamos diante de uma trindade indivisível, como se cada uma fosse uma manifestação de algum traço específico de um ser maior — ainda assim, real e humano.

Elena em si é uma personagem ótima, e justifica porque fazer um filme sobre ela (ainda que, na verdade, o filme seja sobre a sua própria diretora). Não há nenhuma imagem dela que não lance sobre o espectador uma sombra esmagadora de personalidade. Uma das cenas mais lindas do filme é quando vemos uma filmagem caseira, em que Elena, ainda com treze anos, grava a lua cheia e começa a mexer a câmera, transformando o astro estático num ponto tracejante. No áudio ouvimos ela dizer: “estou dançando com a lua”. Ao nos mostrar na tela este momento de poesia simplória repleta de felicidade infantil, Petra também nos faz dançar com o universo.

Impressionante: apesar de ser autobiográfico, o documentário envolve o espectador imediatamente. Sentimos que aquela família não é mais da realizadora, mas nossa. A empatia é imediata. Impossível não pensar nas pessoas importantes da nossa vida durante a projeção. Impossível não pensar em nós mesmos.

O belo é também avassalador. Para quem ama o que é belo, Elena é obrigatório.

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