O dia em que conheci Elena

Olívia Bê, jornalista e noveleira apaixonada por histórias e personagens da TV e da vida real, conta sua experiência com Elena em artigo postado em seu blog A Noveleira – 20/5/2013

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Faz tempo que não escrevo aqui no Blog. Apenas um ou outro post, mas muito pouco para toda paixão que tenho pelas novelas e suas histórias. Enfim, tudo aquilo que me fez criar esse espaço. Queria mais, queria algo além dos posts semanais com o resumo das novelas. Queria ouvir a voz de quem está aí do outro lado, lendo esses posts… Sim, você! Queria saber se você gosta das mesmas coisas que eu, se assiste e curte as mesmas novelas que eu… Ando tão sem respostas, como alguém sempre à espera de um telefonema, sempre à espera de alguém com quem conversar.

As novelas começaram e terminaram e eu pouco falei tão pouco sobre elas. Salve Jorge terminou essa sexta-feira e eu mal pude dar adeus à história (confusa e sem nexo) da Gloria Perez. Mas enfim, boa ou ruim, novela é sempre novela e se é um espaço de uma noveleira de verdade, tenho que abrir a boca, rasgar o verbo, falar o que penso!

Esse post é pra ser curto, sem tomar muito seu tempo. Nem é sobre novela… é sobre cinema e também sobre a vida. Acabei de chegar do cinema com o Armando. Fomos ao Shopping Frei Caneca agora à tarde, domingo cinzento. Saí de casa toda falante, cheia de palavras na boca, cheia de expectativas… O Armando só me ouvindo, calado. Ele não é muito de falar, não, mas ouve tudo que falo. E me entende, mesmo quando não falo uma palavra. Fomos assistir ao filme Elena, um documentário independente da diretora Petra Costa. Confesso que nunca fui muito fã de filmes independentes, nem documentários. Isso sempre me pareceu distante daquele universo fantástico e fantasioso das novelas e até mesmo dos grandes filmes.

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Acontece que Elena mexeu comigo desde o primeiro dia em que vi um post patrocinado no Facebook. Ali, no cantinho da minha timeline, vários artistas se perguntavam Quem é Elena?. Aquilo me intrigou. Tantos famosos, tantos depoimentos, parecia um vídeo superprodução. Que nada! Pouco depois de me encantar com aquilo, de me emocionar com o jeito que aqueles atores, todos eles, falavam de uma certa Elena, fui descobrir que eram apenas artistas carinhosamente ajudando a divulgar um filme de baixo orçamento. Um filme que usaria da influência desses “amigos” e encontraria força nas redes sociais para contar sua história. Me emocionei de verdade. Compartilhei em meu perfil, assisti aos trailers e vi e li tudo que havia sido publicado sobre o filme. Mas a cada vídeo, a cada texto, maior era a dúvida de quem era Elena. O que ela foi? Por que merecer um filme de sua irmã, que procurava refazer seus passos e, assim, reencontrá-la, como se as duas fossem uma só. Uma história intrigante. Não via a hora de assistir, mas com um certo receio de não reconhecer na tela tudo aquilo me fez emocionar.

Agora já tô em casa, sentadinha aqui na mesa de trabalho, escrevendo esse post enquanto a Tarsila se aninha em meu colo, ronronando. Bebo um gole ou dois de um malbec delicioso que minha mãe de trouxe, alguns dias atrás, e penso cada palavra que gostaria de escrever aqui. Mas seriam tantas, tão longas, que você com certeza pararia de ler agora, e talvez eu te perdesse pra sempre. Não vai embora, não! Eu tô com uma vontade de chorar… Voltei do cinema tão pensativa. Toda aquela euforia da ida, todas aquelas palavras que estava despejando de ansiedade, agora se escondiam dentro de mim, tímidas e difíceis de sair.

Hoje, dia 19 de maio de 2013, às 16 horas da tarde, na sala 6 do Itaú Cultural, eu conheci Elena. Ou quase. Conheci a Elena pelos olhos de sua irmã e de sua mãe. Não sou crítica de cinema, nunca pensei em escrever algo assim, falar se um filme é bom ou ruim, falar se a técnica usada pela diretora foi uma escolha feliz. Acho que neste caso (e no caso de muitos outros filmes), isso pouco importa. Pensar no filme me dá vontade de chorar. Em 82 minutos de filme, Petra (a irmã mais nova – e diretora – de Elena) tenta juntar pedaços de sua memória sobre a irmã. Entre lembranças, cartas em fita-cassete e registros em VHS, ela revela a trajetória curta da irmã, filha de uma jornalista-socióloga e um político, que parecia sofrer de uma tristeza crônica, e que foi para Nova York realizar o sonho de ser atriz de cinema. Numa das gravações do filme, Elena conta que no Brasil ela teria chance de fazer apenas teatro ou novela (o que não gostava muito!), já que o cinema estava cada vez mais abandonado. Um filme a cada ano, não mais que isso.

Enfim, não vou falar mais sobre a história dela, seria entregar o ouro, apesar de achar que essa não é a real história de Elena. Ao final do filme, eu quieta, sem saber muito o que pensar depois de tudo aquilo que vi, depois de toda aquela catarse, Armando comenta baixinho: “É o filme de uma menina mimada, depressiva, que vive apenas para ela mesma. Qual o sentido disso?“. Parei e pensei um tanto, em cada palavra que ele disse. Era um pensamento raso, pouco profundo. Armando é fã de filmes blockbuster, por isso entendo sua reação controversa. Para mim, Elena é mais que isso. É um filme que conta a história de uma irmã tentando curar as cicatrizes que sua irmã deixou, ao longo de todos esses anos. Resgatar todas as memórias de um quebra-cabeça em que se transformou a vida de mãe e irmã, logo depois que Elena sai de cena.

Não é fácil lidar com lembranças. Essa sensação de “memória inconsolável, feita de pedra e sombra” que a diretora cita nas cenas finais do filme também mexe muito comigo. Essa saudade constante, esse querer ter por perto que nunca acontecerá, também é algo que sinto há algum tempo, desde que perdi meu pai. Querer reviver seus passos, entender seus caminhos, suas escolhas… do mesmo jeito que Petra tenta, ao dançar com a lua, pelas ruas movimentadas da cidade.

Como já disse, o filme é contado a partir de imagens, depoimentos gravados por Elena num diário em áudio, e também por gravações em vhs. Apresentações, momentos em família, cenas cotidianas sem qualquer pretensão se transformaram num elo entre irmãs, anos depois. É isso que me emociona, mas também me entristece. Tenho poucas fotos minhas e também dos meus pais. Tenho um ou outro vhs com minha mãe e meu pai… E isso é o que mais me deixa triste. Medo dessas lembranças sumirem dentro de mim e eu nunca mais conseguir ouvir a voz dele, do jeito como mexia os lábios e os olhos quando falava.

Elena mexeu comigo não só por sua história, mas por fazer me lembrar da minha, também. Dessa saudade que dá. Tenho saudade do meu pai, tenho saudade de tudo.

Um beijo, A Noveleira

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