Notas de Psicanálise e Cinema: Elena

Por Leonardo Della Pasqua – psicólogo – 15/6/2014

O suicídio tem um efeito trágico nas famílias. A dor é difícil de elaborar. Os sentimentos são confusos, misturados. Reina a perplexidade. Culpa, raiva, tristeza e recriminação são comuns. É possível ocorrer um identificação com o suicida. Algo difícil de modificarmos. O tempo e a distância nem sempre são amigos nessas horas. Às vezes, perpetuam o sofrimento.

Inúmeras perguntas e fantasias aparecem: E se não o tivesse deixado sozinho? E se não tivesse sentido tanta raiva? Onde foi que errei? Que culpa tenho pela sua morte? O que poderia ter feito? Por que ela e não eu? Por que continuar vivendo?

Albert Camus inicia o seu “Mito de Sísifo” afirmando: “ existe um problema filosófico realmente sério: é o suicídio. Julgar se a vida vale ou não vale a pena ser vivida é responder à questão fundamental da filosofia“. Mesmo que eu quisesse esquecer dessa afirmação, existem pacientes que me recordam dela constantemente. Desejam de mim argumentos e motivações para não colocarem em ato seus pensamentos auto-destrutivos. Exige que eu esteja muito atento ao discurso deles, sem diminuir ou menosprezar o que me comunicam. O descuido pode ser fatal! A responsabilidade é enorme.

Alguns fatores de risco devem ser levados em consideração. São verdadeiros sinais de alerta! Sujeitos com doenças mentais estão mais expostos ao suicídio. Psicoses, depressões severas, neuroses graves e dependência química estão entre os quadros mais associados ao problema. Perdas recentes, dinâmica familiar conturbada, reações a datas importantes, personalidades impulsivas e agressivas dificultam ao sujeito o enfrentamento das adversidades da vida. Fazem com que se questionem se não é melhor dar um fim a ela. A questão de Camus ganha corpo nessas condições.

A identificação com o morto faz ruir as ilusões da existência. A diretora Petra Costa encontrou um modo poético de lidar com o suicídio da irmã. No filme ELENA (2012), Petra expõe na tela toda a tragédia de sua família em lidar com a morte da personagem que leva o título da obra. Vemos as fantasias edípicas que seu suicídio desperta. Assistimos a perplexidade do pai, que não consegue falar sobre o assunto. Vemos mãe e filha sobreviventes reviverem a situação, mergulhando completamente nela. Inevitável não se misturar ao mundo subjetivo de Elena. São Ofélias que sobreviveram à tragédia shakesperiana. Inundam-se no seu universo simbólico, para depois poderem se diferenciar.

Petra inicia o filme nos contando um sonho com Elena, que também foi atriz e partiu para Nova York, para realizar um desejo que fora de sua mãe. No sonho, ela se perde nos personagens. Não esconde do público as confusões, desilusões e traumas que dividiu com a irmã. Mostrando sua história, descobre um modo plástico de representação da sua dor. Cria uma iconografia cinematográfica singular no mundo dos documentários. Afeta sensivelmente quem assiste a sua obra. É difícil tirar um filme desses da mente. É preciso de tempo para digeri-lo. Um tempo que vale a pena ser vivido!

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