Memórias, Crônicas E Declarações… Minas Gerais

por: Ricardo Charles, blog Orfury – 15/7/2013

Uma caçula reconstitui os passos que levaram a irmã mais velha ao suicídio. Uma filha atravessa o Atlântico em busca do pai que não conhece e o confronta sobre o abandono que sofreu, ainda criança. Um marido faz do registro da gravidez da esposa uma declaração de amor a ela. Um pai acaba retratando a infância da própria filha ao narrar a história da família de sua mulher.

As sinopses de “Elena”, “Os Dias com Ele”, “Otto” e “Ventos de Valls” são exemplos de uma onda que tomou o cinema brasileiro recente por assalto: os documentários em primeira pessoa.

Narrativas confessionais são uma tradição antiga na literatura – desde Virginia Woolf, Sylvia Plath até santo Agostinho – e na música – com cantoras como Joni Mitchell e Alanis Morissette. O intimismo e a cumplicidade do autor com a página em branco eram o espaço ideal para a expressão de traumas e sentimentos altamente pessoais. A rápida evolução tecnológica do cinema, porém, com equipes e equipamentos cada vez menores, permite hoje que uma única pessoa realize um longa-metragem inteiro dentro de sua casa. O resultado é o que Cao Guimarães, diretor de “Otto”, chama de “o uso da câmera como caneta”.

Para a psicanalista lacaniana Bianca Dias, nesses filmes, o diretor acaba por se tornar personagem e também espectador de si mesmo, podendo revisitar, assim, alguns pontos obscuros de sua própria história. Uma prática, segundo ela, não muito diferente de uma sessão de terapia. “Para a psicanálise, o eu é um outro. E talvez seja exatamente esse o núcleo duro e indissolúvel de todas as questões humanas e o eixo condutor desse tipo de cinema”, analisa.

Singular. O diretor Kiko Goifman antecipou essas questões dez anos atrás, quando decidiu partir numa investigação em busca de sua mãe biológica. O resultado foi o aclamado documentário “33”, seu primeiro longa.

“No corte inicial do filme, eu mal aparecia”, ele conta. Conversando com a roteirista e o produtor, contudo, ele ouviu que o filme estava ‘sem sujeito’. “Eles me convenceram de que eu tinha que narrar, aparecer, estar presente”, lembra.

Foi quando ele se deu conta das particularidades de um documentário em primeira pessoa. “Quando você começa a jogar com uma certa proximidade e uma intimidade, aquele mundo que você investiga e a relação travada entre aquelas pessoas passam a ser um relato singular que só você pode contar”, explica.

“Nunca deixei de ser pessoa para ser cineasta”, ressoa Maria Clara Escobár, diretora de “Os Dias com Ele”. Segundo a estreante, ela e o pai tinham consciência de que um filme estava sendo feito, “e cada um de nós participou de suas funções, eu dirigindo e enquadrando e ele sendo personagem”.

Mas ao buscar nas memórias políticas de seu genitor os motivos pelos quais ele nunca conseguiu – ou mesmo tentou – ser um pai para ela, esses limites acabam ficando bem mais turvos. “As questões pessoais e as questões íntimas estão todas misturadas e indissociáveis das questões ‘públicas’ e acho que o filme é sobre isso, justamente”, ela avalia.

Cao Guimarães, por sua vez, chegou a pensar em “Otto” como uma ficção científica, com o filho narrando a história de dentro da barriga da mãe. “Quando assumi o tom emocional e construí aquele texto que é a minha voz como pai, o filme ganhou muito mais sinceridade’, avalia.

Já Pablo Lobato, diretor de “Ventos de Valls”, afirma que nunca quis contar a história “épica” da família Panadés, que fugiu da Guerra Civil na Espanha e viu o patriarca ser assassinado ao chegar ao Brasil. Quando ele levou os Panadés de volta para Valls, terra natal deles, e viu que aquela era a paisagem de uma infância, o diretor encontrou a chave para seu filme.

“Se pensamos nas imagens da nossa infância, elas nos levam para esse momento fundante da vida que cria nossa capacidade de se afetar com o mundo”, explica. Foi essa aproximação pelo lúdico e pela infância, espelhado nas imagens de Ana, filha do diretor, que permitiu a ele sair da grande história para a narrar a pequena história dos Panadés que tanto desejava.

Apesar de ter pensado por breves segundos em contar a morte da irmã como um longa de ficção, Petra Costa, diretora de “Elena”, logo percebeu que estava mais interessada em buscar as suas memórias pessoais em um documentário: “Mergulhar nas imagens de arquivo, fitas, diários e nas minhas próprias memórias, quase como uma investigação do que eu poderia descobrir sobre ela”, revela.

O efeito colateral disso, segundo a cineasta, foi ver Elena ganhar cada vez mais corpo e vida durante o processo para testemunhá-la morrer de novo em seguida. “Sofri a perda dela várias vezes durante o filme e isso com certeza foi o mais dolorido”, admite.

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