Jorro de memórias e de imagens

Por Vlademir Lazo, no Cine Players – 16/10/2013

Estar diante de ELENA (idem, 2012), título da diretora Petra Costa que arrancou elogios e teve uma boa repercussão no seu lançamento, é como se deparar (risco assumido desde o começo) com a larga contingência de uma literatura confessional muito existente no Brasil. Aquela em que o autor discorre tendo como centro o próprio universo, confinado numa confidência que é só sua, partilhando fatos e memórias com que não nos identificamos em momento algum, sem estofo para algo maior que faça com que sintamos que o que distinguimos ali possa nos enriquecer com uma experiência transformadora, confiando que o trabalho de nos sensibilizar seja o suficiente para valer o tempo que nos dediquemos a ele, terminando por se revelar como sentimental e complacente.

A enxurrada dessa prática em livro encontra equivalente audiovisual recente no docudrama de Petra Costa, e embora bem intencionada (são injustas certas acusações de o filme transformar o luto em marketing), fica a meio caminho no quesito cinematográfico, e no caso de num futuro próximo vir a ser tomado como referência, ocorreria o perigo de gerar outros tantos trabalhos numa linha que não apresenta potencial para acrescentar a nossa cinematografia. Mas fiquemos com o filme, sem especular sobre uma hipotética influência e novos rebentos que ele possa vir a originar.

É como folhear as páginas de um álbum de família durante 80 minutos. Infelizmente, mais portfólio que cinema. O filme se vale de muito material de arquivo, diários gravados, filmes caseiros, para servir de ilustração de uma carta filmada da diretora a sua irmã, Elena, treze anos mais velha, um texto em voice over que o transforma numa obra narrada em segunda pessoa (“Você me mostra a coleção inteira de filmes da Shirley Temple e me treina para ser atriz”, para citar um exemplo da narração, quando a cineasta relembra parte da infância com a irmã).

O filme recua até os anos sessenta, com imagens da época, na tentativa de nos localizar num momento específico da história do Brasil, muito forte na memória coletiva, o da luta política contra a ditadura, com os pais de Elena sendo salvos da guerrilha por a mãe carregar no ventre a personagem-título. A irmã narradora e diretora conta depois ter nascido durante a Abertura, e em 1990, ano em que Collor subiu ao poder, Elena vai em auto-exílio voluntário estudar arte dramática em Nova York, terminando por dar cabo da própria vida, em virtude da descrença consigo própria. O melhor do documentário são essas conexões com a própria História do país num período de duas décadas entre regime militar e redemocratização, marcado por uma profunda desilusão.

Só que existe desde o principio um excesso de doçura, de afeto fácil para fazer com que o público se sinta envolvido, imerso diante da costura de suas imagens ao som da entristecida voz em off e da trilha que a acompanha na mesma toada pela procura de beleza e de dor. Puramente um trabalho de instalação, o filme funciona no sentido de não nos cansar, de nos instalar num fluxo de imagens sempre fugidias (com o pretexto de que assim é a representação da memória), de cores e luzes saturadas e com variações de foco, e para muitos isso basta.

Mas o que há é o vácuo ao redor de sua estrutura, com o cálculo demasiado de uma poesia forçada buscando preencher suas arestas, ao invés dela brotar naturalmente, quando menos esperamos, que é quando acontece a verdadeira poesia. Um excesso do belo e uma escassez de justeza e de exatidão, apostando no difuso como criação do halo de sua atmosfera. Elena pode resultar para muitos em um filme simpático e até envolvente, mas como diversos dos filmes brasileiros contemporâneos, nos deixa com a impressão de que nitidamente o cinema sai perdendo.

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