Homenagem e confissão

Por Aníbal Santiago – Blog Rick’s Cinema – 5/4/2014

Realizado por Petra Costa, ELENA é um filme amplamente pessoal, mesclando alguns vídeos caseiros com depoimentos e trechos filmados pela realizadora, unidos por uma narração delicada e uma banda sonora adequada, enquanto nos apresenta a história da personagem do título, a irmã da cineasta. Quase como um diário, ELENA surge simultaneamente como uma homenagem e confissão de Petra Costa, apresentando-nos a sua relação com Elena através de vídeos caseiros de ambas, ao mesmo tempo que a cineasta continua a lidar com as feridas abertas pelo suicídio da irmã mais velha. Elena Andrade sonhava ser atriz de cinema, tendo partido para Nova Iorque em busca do sonho, embora este nunca se tenha concretizado, com esta a entrar numa espiral depressiva que a conduziria ao suicídio. Petra Costa tomou a decisão de realizar o filme quando tinha dezessete anos e encontrou um diário de Elena, escrito quando esta tinha a mesma idade, treze anos antes, aproveitando ainda as várias horas de vídeos caseiros realizados pela irmã. Neste sentido estamos perante uma obra deveras pessoal, marcada por alguma candura e poesia, pronto a apelar ao sentimento do espectador, revelando-se um bom exemplo da imagem como preservação da memória daqueles que mais amamos. Não é que Petra algum dia se esquecesse totalmente de Elena, mas os vídeos caseiros permitem preservar memórias que surgem expostas nestas imagens em movimento, bem como a investigação desenvolvida pela cineasta, algo que esta evidenciou em entrevista ao Adoro Cinema: “A parte prazerosa foi que ganhei uma irmã neste processo, já que tinha poucas memórias da Elena por ser muito pequena e a via meio como uma lenda”.

Temos ainda a presença da mãe de Elena e Petra, com as três mulheres a terem um papel fundamental ao longo deste documentário intimista e terno, onde lidamos com uma temática tão pessoal e universal como a perda de um ente querido. Elena suicidou-se quando Petra tinha sete anos, deixando nesta última marcas profundas, a ponto desta ter sido sujeita a terapia, com este documentário a parecer surgir como a fase final de um percurso terapêutico, enquanto somos apresentados a estas duas irmãs que tanto têm em comum, embora uma já não esteja no mundo terreno. As decisões de Petra acabam por se unir com as de Elena, veja-se que a primeira também decidiu ser atriz, deambulando por Nova Iorque, pelos locais onde estivera a familiar (quando Elena deixara para trás uma infância passada na clandestinidade dos anos de ditadura militar), enquanto o percurso das duas se parece unir. Existe um interligar do percurso de ambas que é latente, como se as memórias do diário de Elena estivessem a ser revividas e reencontradas por Petra, enquanto esta toma a decisão de nos transportar para o interior de uma história pessoal.

Petra Costa atribuiu um tom onírico à sua obra, deixando-nos quase perante um sonho que nos inebria e comove, onde as memórias que passam e as que se formam colidem, ao mesmo tempo que uma irmã é recordada de forma humana, comovente, poética e cheia de sentimento. Não existe aqui sentimentalismo barato, mas sim uma forma distinta de lidar com o luto, de dar a conhecer alguém que tanto teria para oferecer, uma homenagem poética, onde Petra Costa mostra uma habilidade notória para trabalhar a imagem, unindo-a à palavra, com o argumento a ser fundamental para a percepção que temos desta relação. No final, as memórias até podem ser afogadas na água, mas cedo emergem, ao mesmo tempo que lidamos com temáticas tão comuns e humanas como uma irmã mais nova que se recorda da mais velha, um lidar com a dor de uma perda, mas também um seguir em frente essencial para a condição humana. As imagens em movimento mostram-nos Petra, ainda na sua juventude a brincar com a irmã (já representavam), a seguir com esta e a mãe, após Elena ser chamada para uma universidade dos Estados Unidos da América, mas também a sua dor, o sentimento de perda, onde uma concha foi deixada como recordação mas não traz novas vivências, onde vídeos mostram o passado mas trazem a dura realidade que estes momentos não podem ser repetidos no futuro. São pequenos fragmentos de vida e experiências selecionados para ELENA, mas também um conjunto de depoimentos tocantes, tais como o da mãe das duas protagonistas desta obra cinematográfica.

O pai pouco espaço tem, com Petra a preferir dar o destaque às mulheres, apresentando um estilo de filmar muito semelhante a “Olhos de Ressaca”, a primeira curta-metragem realizada por esta atriz e cineasta. Na sua primeira longa-metragem, Petra Costa traz-nos uma obra pura de sentimento e poesia, dá-nos a conhecer a sua Elena, aquela que guardou nas suas memórias, ou melhor, aquela que reconstruiu para o documentário, deixando-nos presos à história desta mulher que terminou com a sua vida. Elena dificilmente será esquecida, quer pelos seus familiares e aqueles que com ela privaram, quer pelos espectadores desta terna obra cinematográfica, um pedaço de poesia e sentimento, onde as imagens são trabalhadas e os sentimentos conquistados. No final, fica a certeza que a Elena de Petra Costa passou a fazer um pouquinho parte de nós e os trabalhos futuros da cineasta podem e devem ser seguidos com muita atenção.

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