Falar sobre este filme é falar sobre as pessoas que nele aparecem

Em artigo publicado no blog Nota Alta ESPM, Pedro de Santi, professor de especialização em Teoria Psicanalítica da COGEAE/PUC-SP e de Psicologia da Comunicação Social na ESPM, aborda o viés psicanalítico do filme e traz à tona referências à morte de Ofélia, personagem da peça Hamlet, de Shakespeare.

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(9 de maio de 2013)

O documentário é produzido e narrado em primeira pessoa, em tom poético e coloquial. Trata-se de um documentário bastante premiado, que tem feito o circuito de festivais e entra em circuito comercial em maio.

A primeira dificuldade de falar sobre ele é o grau de exposição em primeira pessoa daquela que é a um só tempo diretora, co-roteirista e personagem: Petra. Falar sobre este filme é falar sobre as pessoas que nele aparecem. Sabemos que toda forma de expressão traz a marca do sujeito que a produziu, mas, em geral, há certa elaboração e simbolização de modo que aquilo que é pessoal se disfarce relativamente e o produto artístico transcenda o artista e alcance as demais pessoas. Diz uma lenda que Salvador Dali, quando jovem, apresentou-se a Sigmund Freud. Há alguns esboços de retrato impressionantes feitos por Dali. O surrealismo adorava a psicanálise, por considerar que ela atribuíra legitimidade à loucura. Depois da partida do jovem pintor, Freud teria dito que admirou a técnica do pintor, mas não o considerara um artista, uma vez que o surrealismo não seria uma elaboração do inconsciente, mas a expressão direta dele.

Tirando o exagero daquela avaliação, tive uma impressão semelhante ao presenciar (ou testemunhar?) a privacidade dos vídeos familiares presentes no filme. É ao mesmo tempo uma trabalho artístico e a “coisa mesma.” O trabalho se revela nas filmagens, montagens, texturas, construção narrativa; o filme é um muito bom tecnicamente. Mas o limite entre o trabalho artístico e a exposição pessoal desaparece. Tive a experiência de ser e não ser convidado a privar de uma experiência íntima.

Petra assiste aos filmes da irmã, nós assistimos com ela e nos vemos incluídos na experiência. Aparentemente, esta é grande força da narrativa: a capacidade de trazer o espectador para a experiência das personagens e evocar suas próprias perdas, angústias, medo da morte.

O motor do filme é a paixão de Petra por sua irmã, 13 anos mais velha, Elena. Paixão é bem a palavra: na seleção de cenas e locução, transparece a fascinação pela irmã mais velha, espelho e modelo do que Petra deseja e aspira ser. Mas este espelhamento se transforma em temor de destino, uma vez que a irmã se mata aos 20 anos. Esta morte torna-se um enigma e Petra passa a perseguir a compreensão do ocorrido. Toda a história familiar é revista e ressignificada: o farto material filmado é uma fonte essencial desta busca.

O material de vídeo começa a ser produzido quando a família sai da clandestinidade em que viveu nos anos 70, à época da ditatura. É como se a família passasse a existir, então, e quisesse guardar o registro e prova disto. Os vídeos deixam de ser feitos quando Elena se torna adolescente e se distancia relativamente da vida familiar, quando os pais se separam. A ausência do pai é gritante. Algo que passara a existir quando a família saiu da clandestina desaparece, então.

Ao filmar este documentário, Petra trás de volta certo plano de existência da família.

Conforme o tempo passa, a irmã mais nova vai se tornando parecida fisicamente com a mais velha e uma fantasia passa a perpassar a mente de todos: será que ela terá o mesmo destino da irmã? Quando Petra “fica mais velha que Elena”, aos 21 anos, a mãe aponta o alívio e a constatação: uma não é a outra. A própria Petra, numa apresentação do filme, evocou o texto de Freud, O estranhamente familiar (Das Unheimliche, 1919) sobre a figura do duplo. Ao ler os diários da irmã, pareceu-lhe estra lendo o próprio diário. A estranheza da experiência é potencializada pelo terror de se ver seguindo o destino da irmã.

Com a confirmação de que não havia identidade, mas identificação, Petra parece liberta para incorporar e transformar parte dos sonhos da irmã. Ela transgride uma demanda da mãe e se torna cineasta em Nova York. Elena segue sendo o objeto privilegiado das imagens, e Petra segue sendo predominantemente o olhar fascinado de quem produz e dirige, ainda que ela apareça no filme e faça sua locução.

Ao longo do filme, vai havendo uma transfiguração poética. Conforme o próprio luto de Petra vai sendo trabalhado, a morte de Elena passa gradativamente a ser referida à morte de Ofélia, personagem da peça Hamlet, de Shakespeare. Ofélia se mata, enlouquecida, após ter seu amor renegado por Hamlet e o pai morto banalmente pelo mesmo. Seu irmão – Laerte- estava ausente e ela se vê abandonada. Nas interpretações psicanalíticas, particularmente de Lacan, Ofélia se sente desqualificada e esvaziada como um objeto, privada de palavra e desejo, até se anular: o suicídio é a firmação do vazio que em que se tornou. A nota que Elena deixou na máquina de escrever logo antes de se suicidar evoca este vazio. Elena e Ofélia compartilham o suicídio, mas Elena tinha a mãe e irmã muito presentes. Enigma.

E se Ofélia é evocada na narrativa, Petra se posiciona como Hamlet, angustiada e culpada. Com Petra, a longa elaboração do luto parece ter sido melhor sucedida: ela não se tornou Elena, Ofélia ou Hamlet, mas transformou seu trauma em memória e sua dor em arte, sublimando-a.

Quanto à mãe, ela também sonhara com o cinema americano; embora já seja um clichê psicanalítico, o desejo não realizado da mãe é sempre impresso como demanda inconsciente nos filhos. Aqui, o documentário lembra grandes filmes, também perturbadores, como Cidade dos sonhos (Mulholland drive, 2001) de David Lynch ou Cisne negro (Black Swan, 2010), de Darren Aronofsky, mas tudo sobre um denso material auto-biográfico.

O documentário se modula em ficção. As imagens são belíssimas, com corpos que boiam e se deixam levar pelo fluxo de um rio, como na morte de Ofélia.

A presença da mãe das irmãs também boiando é de arrepiar. Numa cena de reconstituição de como encontrou Elena morta, em seu apartamento, a mãe não se contenta em descrever a posição, mas deita-se ocupando a posição em que encontrou a filha. É basicamente a mesma posição em que as mulheres boiam no rio. Uma imagem bela e muito forte.

O cinema nacional tem feito esforços variados na direção de se afirmar artística e comercialmente. Acompanhamos há pouco o debate entre Kleber Mendonça Filho, o diretor de O Som ao redor (2012)- premiadíssimo, mas de sucesso comercial mediano- e a Globo Filmes, que tem produzido comédias rasas de sucesso. Bom será o dia em que esta oposição se resolver em compromisso.

A partir de maio, acompanharemos como será a recepção do público em geral a este filme, tão diferenciado e perturbador. A ver.

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