Elena: um documentário lírico sobre a ausência

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Por Wagner Machado, blog Maria Cultura – 14/5/2013

Destaque na página principal do blog da Maria Cultura, Elena foi analisado pelo jornalista e cinéfilo Wagner Machado: “Elena é antes um inventário lírico sobre a dor inexplicável, arrebatadora e inconsolável e seu poder de transformação – em desespero e morte ou em sublimidade e arte.” Leia o artigo completo publicado em 14/5/2013 abaixo:

“As obras cinematográficos das quais a forma e a temática estão ligadas de maneira tão intrínseca que uma não pode prescindir da outra, sob pena de a existência do filme mesmo tornar-se impossível, são, geralmente, as que apresentam maior complexidade (boa, necessária) e oferecem mais elementos para a reflexão. Pois é aí que a arte se dá em sua plenitude. Não uma história contada no suporte audiovisual, mas uma obra em que suporte e conteúdo são amalgamados. São, e não “estão”. A forma, a linguagem, nesses casos, não é tratada como um mero convencionalismo em que vale a fruição passiva, fácil assimilação e uma estética estéril nem como um exercício formal encerrado em si mesmo, carente de significação para além da experimentação artística.

Elena, longa-metragem de estreia da diretora Petra Costa, não temo dizer apesar do risco da afirmação precipitada, é marcado pela transcendência de todos os códigos básicos do documentário. Gênero cinematográfico hibridizado com o jornalismo, o documentário assenta-se sobre duas matérias-primas elementares: o fato e a realidade (com todas as aspas e relativizações que a palavra merece). Os objetos dos documentários brasileiros seguem três linhas temáticas predominantes: personalidades, episódios históricos e crítica/retrato social. Em suma, são filmes sobre um tema de interesse público. Em Elena, Petra Costa faz uma costura lírica e intimista sobre a vida de sua irmã mais velha, que fora estudar artes dramáticas em Nova York e morreu aos 20 anos.

Muito além da voz que narra e conduz o filme, a diretora é, no fundo, a protagonista de uma jornada interior sobre as marcas da ausência. Uma jornada sentimental que procura refazer a trajetória da menina que nascera com aquele estranho brilho com que nascem as pessoas marcantes e inesquecíveis e que morrera abrupta e inexplicavelmente (mais ainda para a irmãzinha de 7 anos). Uma procura que na verdade é a busca subjetiva por explicações a tudo aquilo que a atormenta desde a morte precoce da irmã. “Você é minha memória mais inconsolável”, diz Petra em determinado momento do filme, cuja narração se dirige, durante toda projeção, à irmã morta.

Elena é, pois, um filme de autoquestionamento e autodescoberta, como se Petra Costa estivesse compartilhando suas mais íntimas perturbações ou ainda como se compartilhar, à guisa de respostas, o fluxo de pensamentos, o encadeamento de sentimentos e questionamentos, fosse necessário para que ela – a diretora, personagem – fizesse emergir e expelir – como numa psicanálise esquisita – a angústia que a afogava desde a infância.

Por meio de imagens um tanto oníricas, difusas, que dizem mais por sua relação com a montagem e música causando um efeito pictório intimista e fragmentado em detrimento da função, por assim dizer, documental e ilustrativa, entrecortadas com imagens de arquivo pessoal e depoimentos da mãe de Petra e Elena, faz-se sutil e inventivamente uma correlação entre as identidades – fragmentadas, fugidias, caóticas até – dessas três mulheres, todas de um jeito ou de outra sob a sombra da depressão. O verbo “ver” não cabe aqui tão bem quanto o “sentir”.

Sutileza e inventividade, aliás, são o que garante à diretora não escorregar durante o trajeto na linha tênue que pode levar à pieguice ou ao intimismo excessivo, hermético. Mas Elena não é exatamente uma homenagem à pessoa que enuncia em seu título e nem mesmo um “acerto de contas com o passado”, Elena é antes um inventário lírico sobre a dor inexplicável, arrebatadora e inconsolável e seu poder de transformação – em desespero e morte ou em sublimidade e arte.”

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