Elena, filme – resenha, reflexões, saudades

Por Giovana – Blog Além da Vida – 16/8/2014

Elena-CorpoDeBaile3-1988-foto_Lenise_Pinheiro_divulgaçãoAcabei de assistir ao filme brasileiro ELENA. É um filme autobiográfico da diretora, Petra. A irmã de Petra, a supracitada Elena, era atriz e suicidou-se aos 20 anos.

O filme é lindo, absolutamente lindo. Suspeito que a Petra Costa tenha aspectos no mapa em libra ou uma Vênus forte – o filme é de uma delicadeza sublime. A fotografia é linda. A narração é linda. A trilha sonora é linda.

A história, posto que é verdadeira, é linda de um jeito profundamente pungente.

“As memórias vão com o tempo. Se desfazem. Mas algumas não encontram consolo. Só algum alívio nas pequenas brechas da poesia. Você é a minha memória inconsolável, feita de pedra e de sombra. E é dela que tudo nasce, e dança.”

Eu vejo um filme assim tão bonito e doloroso, com depoimentos tão sinceros da Petra e da mãe dela, e choro. Eu sou capaz de ter uma boa dimensão da dor dessa perda e da imensidão do peso e das lacunas.

A minha mãe se suicidou. Tal como Elena. E assim como é muito difícil enterrar a mãe com um fim desses, eu só posso imaginar o quão difícil é enterrar a filha. Ou irmã.

Eu pensei durante o filme que minha mãe merecia uma homenagem em forma de obra, também. Talvez um livro, no futuro.

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ELENA é um filme lindo. Mas foi muito fundo em mim. Porque eu não só perdi minha mãe. Eu também quase me suicidei depois, quase estendi esse ciclo de dor para o  meu irmão e amigos. A minha empatia é tanto para com Petra e a mãe dela quanto para com a própria Elena. Eu entendo desse vazio escuro que parece que jamais, jamais passará.

Felizmente, eu não só sobrevivi como estou nesse momento vivenciando uma mudança muito grande no meu jeito de processar as dores. Felizmente, e sou muito grata a isso, a espiritualidade, as pessoas e espíritos que tem atuado nesse meu desenvolvimento tem mudado muitos paradigmas no jeito que eu enxergava o mundo.

des5Eu sinto falta da minha mãe, eu sinto muita falta mesmo. Eu queria poder abraçá-la, eu queria poder levá-la para ver filmes, para comer fora, para provar minhas comidas. Para ler meus poemas. Para ver como meu gato está grande e gordo. Para  ver que eu talvez me torne uma mulher bonita, mesmo com acne. Mesmo com as cicatrizes.

A Petra fez um filme lindo sobre a saudade dela. Sobre o quanto essa falta imiscuiu-se na subjetividade dela. Na história dela. No jeito dela ver o mundo.

E é isso uma das coisas mais bonitas desse filme: É sobre a saudade, a falta e os efeitos da falta. Mas é um filme da Petra sobre a Elena. E com toda a dor que a Petra deve sentir, ela construiu uma coisa linda. Mais do que sobreviver, ela fez arte. Ela fez da sensibilidade dela uma ótica delicada para enxergar as coisas. Ela criou.

Gratidão, Petra Costa, por me lembrar que por enorme que seja a saudade, a melhor homenagem que podemos prestas é seguir.

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