Elena expõe sentimentos em formato de filme

por: Andressa Vieira, blog O Chaplin – 12/7/2013

É bastante complicado julgar ou mesmo falar sobre os sentimentos de alguém. Principalmente quando eles são exposto de forma tão honesta. Por esse motivo, é uma tarefa difícil fazer uma crítica de “Elena”, filme dirigido por Petra Costa, que conta intimamente a relação da cineasta com sua irmã mais velha, a atriz Elena Andrade.

Podemos começar falando que “Elena” é muito mais emoções que cinema. “Elena” poderia estar em um livro, em uma peça de teatro, em uma carta. Está em um filme porque o cinema também fazia parte dela. Então, o cinema adaptou-se a Elena, e não o contrário. Elena é um filme de dentro para fora. Parece ter desabrochado de um sensível desabafo de sua diretora.

É necessário esforço para explicar Elena enquanto filme, justamente por ser mais que isso, mas podemos estipular da seguinte forma: trata-se de um documentário em que a diretora se faz também personagem e conta a relação com a irmã treze anos mais velha. O foco é Elena Andrade, mas o referencial é o de Petra Costa. A narrativa começa no nascimento de Petra, em Minas Gerais, com imagens de arquivo. Elena tinha apenas treze anos. Ela se segue por anos, entre Brasil e Nova York, até que, quando Petra tinha sete anos, acontece o fato marcante da história, que provocou o seu fascínio (ou talvez, incômodo fosse a palavra mais apropriada) em sua relação com a irmã. O restante do filme se torna menos temporal e mais subjetivo (não que todo ele não seja), pois o foco passa a ser a própria Petra.

Petra demonstra sempre ter tido um forte vínculo com a irmã e, ao enxergá-la pela perspectiva da diretora, é inevitável não se encantar por Elena, sua leveza e seu espírito sonhador. Elena anseia a liberdade, quer voar, mas o conflito de sua vida (e de muitas outras pessoas) é não encontrar espaço suficiente para isso. Não consegue pista suficiente para o impulso. A maioria das pessoas adaptam-se à situação que lhes castra. Elena não suporta e escolhe sub-existir que se moldar às suas impossibilidades.

Falar mais que isso seria acabar com a graça de apreciar o filme, conhecer e compreender a personalidade das personagens. Não espere, leitor, um cinema formatado, com receitas prontas. Tecnicamente falando, “Elena” é um filme arriscado. Poderia ser o tipo de doc que se faz para si próprio, e que nunca sairá da gaveta da sala de casa. E, apesar de o filme parecer ter, sim, sido feito muito mais para a diretora (e para a irmã) que para o público, tirá-lo da gaveta foi um grande acerto. Em tempos de superficialidade e cinemas caricaturais, em que os personagens têm um intuito determinado e tudo mais que aquilo se torna excesso, é uma experiência grandiosa parar a vida por uma hora e meia para emocionar-se ao ouvir a história de alguém. Principalmente, quando ela é tão bem contada.

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