Elena, eu, você…

por: Milena – blog Sobre Mentiras e Fatos – 21/5/2013

Quando eu vi Titanic, em 1998, sabia que eu devia chorar. Então, quando o filme acabou, forcei os olhos com empenho, fiz uns grunidos, e em volta, as pessoas me olharam com aceitação no cinema.

Quando vi Elena, semanas atrás, não queria que percebessem que eu estava chorando. Mas as lágrimas vieram, abruptas, destemperadas. Saltou de dentro de mim um choro líquido.

Eu não sei se o filme é bonito. Acho, sinceramente, que é. Não sei se é pior ou melhor, como documentário, do que os outros filmes que existem. Eu, aliás, cometo a heresia de confessar que não gosto de documentários. Regra geral, prefiro a ficção, que me é mais saborosa.

Elena é um filme que fala de muitas coisas e, ouso dizer que, invariavelmente, provoca sentimento. É possível entender que o filme fala de arte, de amor, de família, de suicídio, de depressão. Todas essas interpretações me parecem necessárias e corretas, se é que é possível usar palavra tão objetiva.

No entanto, o tema de Elena sobre o qual quero falar não é nenhum desses…quero falar do narcisismo. Não me ataquem, ainda. Quando dizemos que alguém é narcisista, frequentemente desejamos ofender em algum nível. Eu não, posso jurar. Na realidade, não há ser humano que não seja narcisista em algum grau, e não há por que negar isso. Sempre dou risada quando numa dessas entrevistas do Jô Soares ou de revista, quando se pergunta ao artista qual é seu pior defeito, ele responde: “Sou comilona.”, “Sou cabeça-dura”. Isso não é defeito, ora essa! Anseio pelo dia em que um deles dirá: “Eu sou um puta dum narcisista.” Qual é o problema? O narcisista é confundido com o egoísta ou o  ‘sem noção’. E é possível que o seja, em alguns casos. Mas o narcisismo por si só não é falha de caráter. Que alternativa temos, nós, seres humanos, solitários de alma, únicos, entitulados ao direito, a princípio, de uma só vida, presos num corpo frágil e numa mente mais frágl ainda? O narcisismo é quase inevitável, é um mecanismo básico de defesa. Se acordamos sempre dentro do mesmo ponto, como acreditar que não é em torno desse ponto que o mundo gira?

Sendo assim, é com certa liberdade que digo que Elena é um filme que fala também do narcisismo sim. Bela, com dinheiro, amada pela família e os amigos e ainda íntima das artes, Elena sucumbe à própria obrigação de brilhar. É dona, desde a mais tenra infância, de um futuro magnífico. Guarda, como todo artista, um segredo. O segredo que em performance se revelará, conforme a arte se cumpre, perante grande e atenta plateia.

Mas não foi assim com Elena. E nem com quem é assim – pense em todos os artistas hollywoodianos, os atletas, os autores nobres guardiões da cultura – se cumpre o desejo da ligação com o outro, com o transcedental que se acredita existir, com a plenitude. É provável que a plenitude só venha mesmo ao religioso, em delírio, a meu ver, em negação.

Ao acreditar que somos especialíssimos, que temos um brilho que ninguém (ainda) vê, que um futuro gigantesco nos espera, caímos numa cilada narcisista e de efeitos, por vezes, dramáticos. A frustração vem na proporção do devaneio. Não somos tão especiais assim. Nem a arte, essa forma tão saudável de elaborar angústias, é suficientemente larga para abraçar o sonho do narcisista desesperado.

Não temos um destino superior. Vamos apodrecer iguaizinhos, verme por verme.

Aquiles, o maior herói de todos, se viu diante de uma escolha difícil: Morrer cedo e ser lembrado eternamente ou viver longa vida como um homem qualquer? Ao contrário do que muitos pensam, Aquiles não decide pelo estrelato. Ele, num primeiro momento, prefere o marasmo da vida. É o amor e o ódio que o fazem, de mãos dadas, caminhar rumo à própria morte. À própria morte e à fama eterna.

É ilusão nossa crer que temos a escolha de Aquiles. Não somos filhos de deuses. Não sabemos o nosso destino. Não seremos lembrados eternamente e, se formos, e daí? Seremos meras represetações do que sentem outros seres. Nós mesmos, nós como vida, nós como existência, somos assim…pequeninos. Pequenino, não, revejo-me. Somos do tamanho que temos. Pequenos para um dinossauro, enormes para uma formiga. Humanos.

Elena quer dançar com a lua, coitada. Não dá para dançar com a lua, querida Elena. Dá para fazer o filminho simples, belo, digno, que você fez numa câmera caseira, com a lua zanzando na tela. Isso dá. Mas não sacia, não é?

O animal satisfeito, dorme….disse Guimarães Rosa., em seu brilhantismo alcançado. E o insatisfeito, descansa como, senão na morte

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