Elena: Esquecimento e Memória na Realização Artística

Por Wuldson Marcelo – Blog Sociedade Poetas Amigos – 5/1/2015

imprensa_Elena_retrato1_1988O documentário ELENA (2012), de Petra Costa, é um memorial visual, ou, ainda, um mergulho nos insondáveis recônditos da mente e emoções humanas. Petra, por intermédio da obra fílmica, esquadrinha os sonhos e as frustrações de sua irmã Elena, e, ao mesmo tempo, revela as nuances de seu relacionamento com a jovem que desejava ser atriz, mas que em sua viagem para Nova York, no início dos anos 90, com o intuito de realizar esse objetivo, depara-se com estranhamentos, medos e a depressão, que a levam a cometer suicídio.

Reunindo gravações caseiras, fotos e o testemunho da mãe (que partiria para a guerrilha do Araguaia, durante as sublevações contra o regime militar, caso não estivesse grávida de Elena), Petra costura uma memória que, pela narração da própria cineasta, procura ser a reconciliação com o passado, a compreensão do presente e um olhar para o futuro. Desse modo, Elena, a irmã, é a instigadora da busca de Petra por si mesma. Se a memória é um desejo de reconhecer, como fala-nos Nietzsche, em “Sobre a verdade e a mentira no sentido extra-moral”, Petra, ao propor seguir os vestígios deixados por Elena, constrói uma elegia que sanciona as lembranças como marcas inextinguíveis daquilo que somos.

E ao não esquecer Elena é que Petra pode reconstituir o seu passado, trazendo de volta momentos, paisagens e sombras. Nietzsche postula que a dosagem entre esquecimento e memória é o cerne da criação artística. Assim, o que Petra realiza é a documentação poética de uma interrogação: o que há de Elena em mim, que não me permite esquecê-la? (Lembrando que esquecer assume um sentido de figurar e não de abandono da rememoração). Sendo a memória uma ferramenta do conhecimento para superar perdas, temores, dúvidas, “Elena” é a confirmação artística de Petra, e a sua mais pessoal recordação. Esse jogo entre memória e esquecimento encontra na poesia, e na atuação e na dança, seu ponto de irradiação, que permite fazer o itinerário da dor e da saudade que a mise-en-scène elaborada por Petra Costa executa.

Se Elena, a jovem aspirante à atriz, quer seguir os sonhos que a mãe não realizou, Petra, que tinha sete anos quando a irmã suicidou-se e guarda assombrosa semelhança física com a mana, consolida o desejo de gerações de mulheres de sua família. E esse é um dos aspectos mais delicado do documentário e o que confere sua notável qualidade: a de tornar a memória um processo de reinvenção artística. E a constituição formal da documentarista traça linhas tênues entre a objetividade contida em um fato que gera desdobramentos, que fomentam um inquérito e/ou pesquisa, e a subjetividade própria dos desnudamentos interiores (ainda mais em um caso em que a cineasta se torna personagem, que, constantemente, confunde-se com o objeto documentado), que expõe de modo aberto dores em processo de cicatrização.

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E é essa condição de dupla experiência, documental e íntima, que atribui a “Elena” autenticidade e o separa de tantos outros filmes-investigação sobre dramas familiares. Petra, como atriz, performa em um documentário sobre os motivos que levam uma jovem e promissora estudante de artes cênicas a cometer suicídio, e nessa rota, à procura de respostas, interroga-se se seus passos não são idênticos ao de Elena, e, assim, os seus destinos.

O retrato poético no qual se transformou o documentário de Petra tem em sua mãe um ponto chave, pois aceitação, responsabilidade e a persistente dúvida, “se eu tivesse percebido”, acompanham cada depoimento, está na busca em Nova York da antiga residência de Elena e no dia fatídico de seu suicídio. É a dor entranhada em uma mulher – suportável no limite do silêncio que contém uma tristeza em demasia – exposta com coragem e explorada em nome de uma espécie de expurgação artística.

A Petra narradora, a certa altura, diz sobre o percurso de uma vida que conflitua incessantemente memória e esquecimento, “E pouco a pouco as dores viram água. Viram memórias. As memórias vão com o tempo, se desfazem. Mas algumas memórias não encontram consolo, só algum alívio nas pequenas brechas da poesia. Você é a minha memória inconsolável, feita de pedra e sombras. E é dela que tudo nasce e dança”. O documentário construído por fragmentos, depoimentos, imersão em dores e afetos, na busca pelas desilusões de Elena e consagração da relação entre a cineasta e a irmã, tem nas imagens, em sua elaboração, a exposição de um arquivo de memórias que surge, foge, reaparece e potencializa essas lembranças em variações de foco que favorecem o tom poético da produção.

De uma protagonista ausente à uma documentarista/narradora/irmã, “Elena” não é uma obra fílmica que necessita de antemão das referências de seus observadores, armadilhas para a obra artística e para a fruição que a arte pode proporcionar, a saber, a identificação e/ou projeção. “Elena” é o relato poético, e em muitos momentos sentimental, da jornada do sonho à frustração de uma talentosa aspirante à atriz e a busca pelo porquê de seu desfecho trágico pela irmã. Porém, é, na mesma medida, o enfrentamento do jogo que torna a vida um processo de dor e superação recorrente, a de equilibrar esquecimento e memória, e pela via que, invariavelmente, flerta com a eternidade, a da arte. E é essa arte que proporciona a Elena a realização de seu sonho: a de fazer cinema. Petra Costa ao confeccionar como documentário seu mais doce fantasma, engendra a esse espectro um corpo e ao filme sua alma indelével.

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