Elena, encenando lembranças

Priscila Pasko, matéria de capa no caderno Viver do Jornal do Comércio de Porto Alegre – 24/5/2013

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Quando Elena não aguenta mais o vazio que a consome e desiste de viver uma existência sem a arte, não é a sua mãe ou irmã que lamentam a morte na tela do cinema. Os soluços que estalam no ar vêm dos espectadores que, por descuido ou por arroubo do pesar, choram na sala de cinema.

O documentário Elena (2012) conta a história da mineira de mesmo nome, que foi a Nova Iorque em busca de seu sonho: ser atriz de cinema. No Brasil, ela deixa a irmã de sete anos de idade, Petra Costa – diretora do documentário -, que sente sua falta. Muito ligadas, desde pequenas, a caçula torna-se, por vezes, personagem das gravações e dos filmes caseiros de faz-de-conta de Elena, presencia suas piruetas pela casa e também é ensinada a sonhar e atuar.

Após algum tempo separadas, a mãe das meninas decide também morar em Nova Iorque. Ainda que muito jovem, é lá que Petra percebe nos olhos da irmã certa tristeza. Sem conseguir espaço para seu trabalho como atriz, Elena passa a se sentir vazia, já que para ela a arte é tudo aquilo que a mantém viva.

A diretora, hoje com 29 anos, conta que pensa no filme desde os 17 anos, época em que encontrou um diário de sua irmã. “Era estudante de teatro e me deram como mote o livro da vida. Fiquei muito impactada com o que vi, porque parecia que eu lia minhas próprias palavras. Então fiz uma cena que misturava trechos do meu diário com os dela. Pensei que um dia poderia fazer um filme.”

Quando Petra completou 21 anos, sua mãe ficou aliviada, pois a filha não perpetuaria o mesmo destino da outra. Mas a caçula a surpreende, como conta no filme. “Nossa mãe sempre me disse que podia morar em qualquer lugar do mundo, menos em Nova Iorque. Que podia escolher qualquer profissão, menos ser atriz. No dia 4 de setembro de 2003, me matriculei no curso de teatro da Columbia.” Petra formou-se em Antropologia na Barnard College, faculdade livre de artes da universidade. Também fez mestrado em Comunidade e Desenvolvimento na London School of Economics. E, desde os 15 anos, trabalha profissionalmente como atriz.

O primeiro longa da diretora fala sobre a perda, o afeto e o amor entre irmãos. A jovem vai a Nova Iorque tentar encontrar a parte perdida de Elena. Refaz seus caminhos, conversa com amigos da irmã. O espectador também mergulha nesta busca ainda que desconheça a personagem principal. Detalhe que pouco importa, já que, a esta altura, o desejo é também fazer parte do teatro de Elena, que conquista o olhar em sua primeira pirueta frente à câmera.

Elena pega o espectador pela mão e extrai dele experiências vivenciadas ou não. Os créditos do filme se movimentam, a luz já está acesa, cada pessoa toma seu rumo, mas o filme continua ecoando, assim como uma concha do mar, que reverbera sons e saudades. Era um objeto como este que Elena, antes de ir a Nova Iorque, havia deixado à Petra. A recomendação era de quando a caçula sentisse falta da irmã, bastaria cobrir o ouvido com a concha e conversar à distância com ela. “Acho que as pessoas enxergam suas próprias Elenas no filme, dentro de si ou se espelham na relação entre irmãos.”

Petra apresenta imagens de arquivo que parecem terem sido cuidadosamente guardadas em um baú especial, porém, delicado de onde as lembranças devem ser movidas com leveza, sob o risco de machucar quem as manuseia. Não há burocracia na exibição dos diversos filmes gravados por Elena. A diretora conseguiu com que elas já viessem à tona sensorialmente catalogadas, como se o público soubesse de antemão como recebê-las.

Elena foi premiado no 45º Festival de Brasília (melhor direção, montagem, direção de arte e melhor filme pelo júri popular, todos na categoria documentário), recebeu o prêmio de melhor produção deste gênero no Films de Femmes 2013 e menção especial no 28º Festival Internacional de Cinema de Guadalajara e no 9º Festival Internacional de Documentários ZagrebDox.

Nesta sexta-feira, a diretora vem à Capital para conversar com o cineasta Jorge Furtado e com o escritor Eduardo Bueno. O debate começa às 19h30min, na Livraria Cultura, no Bourbon Country (Túlio de Rose, 80). A entrada é franca. Antes do debate, haverá uma exibição especial de Elena, com meia-entrada para o público (R$ 9,50) – apenas neste dia e sessão – às 18h, no cinema Espaço Itaú do mesmo shopping.

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