Elena é uma declaração de amor, e o filme mais emocionante do ano

por: Pablo Bazarello, blog Pablo & os filmes – 20 /5/2013

Nostálgico. Poético. Encantador. São alguns dos adjetivos para definir o documentário brasileiro “Elena”. Dirigido por Petra Costa (do curta “Olhos de Ressaca”), o filme é uma carta de amor para sua irmã, a Elena do título. A cineasta decide nos apresentar essa personagem triste, presa em seus próprios temores e arrasada pela insatisfação de sua vida. Criadas por pais militantes (a mãe, uma aspirante a atriz e o pai, um gringo com sonhos revolucionários), Petra nos conta que foi sua irmã Elena quem salvou os progenitores da morte certa.

Seus líderes anarquistas desistiram de mandá-los para uma manifestação onde a maioria foi morta por policiais, pois a futura mãe das meninas já estava grávida de Elena. Já na adolescência a jovem dava grande sinais de fascínio pelo mundo cênico dos atores. Realizou diversas peças de teatro no Brasil, e chamou certa atenção da imprensa.

Mas queria mais, foi então que Elena se mudou para os Estados Unidos, para em Nova York perseguir o sonho de se tornar atriz de cinema. Como relatado, chegou a conhecer o icônico Francis Ford Coppola, que a convidou para assistir as filmagens de “O Poderoso Chefão – Parte III”, filme no qual esperava participar numa ponta (talvez inclusive rendesse uma Mary Corleone mais satisfatória do que Sofia Coppola).

Extremamente desiludida com a profissão aos 20 anos de idade, mas ainda incrivelmente apaixonada pela arte, Elena não via saída de seu suplício. Retornou ao Brasil para uma temporada, e após ser aceita na Universidade de Columbia, voltou para a América. Dessa vez com a mãe e a pequena Petra a tiracolo, a fim de eliminar a solidão. E foi justamente quando a tragédia se instalou de vez na vida dessa pequena família.

Elena comete o suicídio no auge de sua depressão, deixando devastadas a mãe e a irmã, então com sete anos. “Elena” demorou três anos para ficar pronto, como conta a diretora, que inicialmente imaginava gastar apenas seis meses. Um dos grandes méritos dessa belíssima obra é sua narrativa, que mescla personagens, e se torna um filme tanto sobre a protagonista do título quanto sobre sua diretora e sua mãe. A cineasta narra a obra, às vezes como Elena, e às vezes como ela mesma. E usa imagens valiosas de arquivo onde podemos através de sua edição fazer um eficiente estudo de personagens e personalidades. É impossível não se emocionar aqui. Por mais que seja algo muito pessoal, é também um tema universal, afinal todos tivemos experiências próximas com a morte. A identificação é imediata.

Tudo é feito com extremo bom gosto durante seus 80 minutos de projeção, e a diretora não perde tempo em tentar mistificar ou desmistificar a imagem de sua irmã, apenas expor o que encontrou de suas notas em seus diários, numa gratificante tradução. Outro ponto alto é a trilha sonora criada por Vitor Araújo, Fil Pinheiro, Maggie Hastings Clifford e Gustavo Ruiz. Melancólica e perfurante, esses são alguns dos acordes mais marcantes dos últimos tempos. Dificilmente um filme será tão emocionante esse ano quanto “Elena”. Perfeito.

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