ELENA e o transformar o luto em imagem

Por: Vinícius Dino – revista eletrônica RUA – 15/8/2013

A sinopse sinaliza de antemão: “Elena viaja para Nova York com o mesmo sonho da mãe: ser atriz de cinema. Deixa para trás uma infância passada na clandestinidade dos anos de ditadura militar e deixa Petra, a irmã de 7 anos. Duas décadas mais tarde, Petra também se torna atriz e embarca para Nova York em busca de Elena. […] Aos poucos, os traços das duas irmãs se confundem, já não se sabe quem é uma, quem é a outra. A mãe pressente. Petra decifra. Agora que finalmente encontrou Elena, Petra precisa deixá-la partir.”

Narrar a dor do luto é uma das coisas mais difíceis que há. A tentativa de contar, de transformar a experiência em linguagem é o que acompanha o filme “Elena” do início ao fim e é justamente o que o filme realiza da forma mais completa possível: na incompletude.

Não se trata de uma confissão de impotência. A coragem de tentar apreender em filme o inapreensível, o que é transcendente e que possivelmente ultrapassa os limites da existência humana no mundo – a morte – é o que faz sua força. E, no entanto, apesar de contar uma história de pessoas que já possuem uma parte de si vivendo apenas na esfera da memória e do afeto, Elena é um filme cuja matéria é a vida. As lembranças de infância retratadas são de extrema singeleza e simplicidade: uma festa de aniversário, incidentes da vida doméstica, tardes passadas captando em filme caseiro a poesia da canção e dos movimentos da dança. Mais do que em um palco, em Elena se canta durante o banho. A diretora Petra Costa, tornada criança novamente pelos registros de família, de dentro de uma banheira se recusa a cantar: “Estou tomando banho. Não posso cantar agora.” A irmã mais velha que segura a câmera e dá nome ao filme responde algo como: “Você pode fazer os dois ao mesmo tempo. Pode cantar e tomar banho ao mesmo tempo.” De fato, é o que no filme se faz o tempo todo: canta-se e vive-se ao mesmo tempo. Não há espaço para que se veja a arte como mundo completamente separado da vida ou mesmo como oportunidade de evasão, devaneio.  E não há momento em que se viva sem arte. Todos os menores movimentos são de dança. Os menores passos são na direção de uma beleza soberana. A “protagonista” confessa: “sem a arte prefiro morrer”. De fato, o sentimento de incapacidade de realização no campo artístico contribui em muito para o suicídio. Vida e arte caminham juntas na estrada que converge no limiar da redenção e da autodestruição.

A incomunicabilidade da experiência da morte, a dificuldade da linguagem de expressar o que não é para ser filmado nem falado, mas sofrido[i], encontra assim sua solução mais simples e realista, mais humana: os relatos íntimos de pessoas para quem o luto é trabalho permanente. Em hora alguma se faz uma grande narrativa totalizante e lógica, sequenciada. Em vez disso, oferecem-se aos sentidos imagens de vida e morte tal qual se apresentam na experiência real: na forma de momentos singulares e dotados de uma atmosfera muito própria que se fazem cruciais justamente na iminência de desaparecerem, levados pelas transformações sofridas tanto pela memória subjetiva, quanto pelo significado dos registros acumulados.Elena é vitorioso e catártico exatamente porque não busca, no espaço de 90 minutos e uma sequência de imagens de rara beleza, a definição da experiência. O que se tem, no lugar, são fragmentos – por certo altamente representativos – que tangenciam uma forma de estar no mundo multifacetada e em permanente devir.

Os rios, símbolos máximos e universais da transitoriedade das formas, adquirem aqui significação particular. Se por vezes aparecem rasos e translúcidos, perpassados por raios de luz, sua representação mais expressiva se dá quando são justamente escuros e profundos, formando o éter que envolve os corpos femininos, que são de Elena, de Petra, e da mãe das duas. Elena não existe mais no aqui e no agora material no qual Petra e sua mãe dividem a dor de sua ausência, mas habita o mundo do rio que as duas são capazes de acessar de forma simultânea à sua existência diária entre os homens. Entretanto, apesar de sua condição inanimada e etérea, Elena não se dilui não se deforma na direção da aniquilação, se torna abstrata, mas não se perde. Não encontra, após sua morte, a escuridão e o vazio total que esperam o homem moderno, carente de Deus e de transcendência. Elena constantemente se metamorfoseia enquanto ocupa o espaço onde sua existência é mais concreta e real: a lembrança, a memória afetiva dos que ficaram.

Em essência, a verdade suprema do filme se revela quando da percepção de Petra de que Elena finalmente renasceu e tomou forma em sua memória: e ela o fez apenas para morrer novamente. No eterno ciclo de renascimento e morte, construção e destruição, lembrança e esquecimento, a interminável dureza do luto se faz e se visibiliza. Ele jamais se encerra, e jamais toma forma permanente. Daí a relativa fragilidade de sua forma estética correspondente. É frágil não por incapacidade de apreender o essencial (pelo contrário), mas porque é a única possível: delicada e bela, mas necessariamente permeada de rachaduras. Ela se sustenta, fica em pé e resiste, mas está sempre a ponto de se desfazer, se desmanchar no ar (ou na água), como o sonho ou a lembrança. Lembrança que luta para se fixar de modo extremamente digno: retornando simbolicamente àquela que a gerou. Talvez por isso Petra insista em se dirigir à pessoa da irmã morta, e em falar em primeira pessoa: narrar, contar, para não esquecer. Manter viva a memória, que apesar de aberta, transitória e incompleta, não pode senão reivindicar seu direito de existir no tempo, como um passo de dança antes que a cortina se feche.


[i] Parafraseando Drummond no poema “A mão.”

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