“Elena” é difícil de ser definido em gênero cinematográfico

Lucas Gutierrez, no Bem-Vindo ao Clube em artigo de 20/5/2013

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Filme de rara beleza, ‘Elena’ é difícil de ser definido em gênero cinematográfico. Não é uma ficção, mas é complicado colocá-lo simplesmente como documentário. Poderia ser considerado um quase documentário, um documentário afetivo, um documentário subjetivo. Mas a melhor definição que pensei não é ficção, documentário ou qualquer outra que não uma carta filmada. Uma carta endereçada à própria irmã, motivo e personagem principal de toda jornada.

Ao constatar traços da personalidade sua falecida irmã mais velha em si mesma, a diretora, roteirista e atriz Petra Costa faz uma viagem de sensibilidade ímpar para reconstruir o caminho de Elena até a sua morte, por suicídio, em Nova York.

Petra usa imagens de arquivo, arquivo da família, encena reconstituições que se fazem passar por arquivo, e coloca o próprio corpo e rosto para servir de guia nas imagens atuais que cobrem gravações em off da irmã, passagens que ela mesma narra, sempre endereçando-as a Elena e ainda alguns depoimentos, quase sempre da mãe. Tudo sob uma trilha sonora deslumbrante, contando com material original e material licenciado.

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Sempre filmando subjetivamente, Petra alcança um nível de aproximação e intimidade assombrosas e acaba construindo uma obra sensorial melancólica, dramática, poética ao extremo e muito pessoal, porém sem nunca deixar de ser relevante ao público enquanto experiência.

Ao fim, estamos tão próximos de toda a história de Elena que temos a vontade de encontrar a família, em especial mãe e filha, para dar-lhes um grande abraço. Há aqueles que rejeitam a tristeza. Petra Costa abraçou a triste história de sua irmã e fez dela um grande poema cinematográfico, uma linda realização que a ajuda a superar a perda, o medo de seguir o mesmo caminho e ainda colocar a irmã num lugar em que ela esteja bem: o da saudade, da memória.

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MEMO: Qualquer momento em que Elena apareça dançando, em especial o primeiro do filme, com ela quase deixando de ser criança, de vestido, em casa; o corte feito de Elena para a mãe num quadro quase igual, em preto e branco, evidenciando a semelhança entre as duas; Elena filma a lua e faz o ponto luminoso dançar diante de sua câmera enquanto responde a quem lhe perguntara ‘Tá dançando sozinha’ ‘Não, tô dançando com a lua; as mulheres flutuando de vestido nas águas.

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